Dupla vitória de Lula questiona derrotismo

"Forma radical de conformismo, o derrotismo foi derrotado pela dupla vitória de Lula no STF", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. Lembrando que todo governo precisa da adesão de seus cidadãos para sobreviver, PML recorda que a principal lição da semana passada foi "lembrar que a luta continua e que há esperança de vitória". Caso contrário, diz o articulista, "a alternativa seria assistir desde já aos preparativos dos carrascos para a prisão de Lula"

Lula em Floripa
Lula em Floripa (Foto: Paulo Moreira Leite)

A dupla vitória da resistência democrática contra a Lava Jato, o 7 a 4 e o 6 a 5 no Supremo Tribunal Federal, estimula lições que não podem ser esquecidas.

A vitória ocorreu numa  curva da história. Discreta demais para ser vista como uma virada, mas com importância suficiente para obrigar todo mundo enxergar e refletir.

Do lado de lá, pegou os arrogantes de surpresa. Foram colocados na situação do vilão de comédia pastelão que recebe uma torta na cara e é obrigado a reconhecer o sinal de que, mesmo enfrangalhado e derrotado, o país que pretendia governar não quer continuar a viver nos tormentos de agora. 

Do lado de cá, a dupla vitória mostrou um Brasil que vive uma situação política opressiva e difícil, na qual nenhuma forma de luta pode ser desprezada -- mesmo aquela que se desenvolve nos tribunais, terreno elitista por excelência, em particular num país de democracia em decomposição como o nosso.    

Sabemos que grandes derrotas políticas -- como o golpe que derrubou Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade -- modificam a relação de forças de uma sociedade, para permitir a imposição de interesses minoritários e redesenhar o poder político à imagem e semelhança dos novos vencedores. 

Há outros efeitos, porém, no plano das ideias e da consciência dos vencidos -- o derrotismo, essa forma radical de conformismo.  E é disso que precisamos falar aqui.  

Os manuais de Ciência Política ensinam que nenhuma ordem política consegue se impor apenas pelo domínio da força bruta. Precisa da adesão -- voluntária ou não -- dos cidadãos que pretende dominar.

No Brasil de Temer-Meirelles, a regressão social em toda linha impede um apoio voluntário e consciente a este governo por parte  da maioria dos brasileiros. Não estimula o nascimento de qualquer ilusão positiva a respeito dos governantes de plantão e por esse motivo a adesão deve ser obtida pela passividade. Temendo novas derrotas e decepções, se recusarão a aproveitar as oportunidades de mudança que surgem.

Com o tempo, derrotas frequentes produzem a cultura do derrotismo, uma elaboração mental destinada a justificar a paralisia e a descrença.  Esta visão se alimenta de vários ingredientes que todos conhecem. O importante é que, a partir de determinado momento, todas as linhas de raciocínio  passam a convergir para esse esforço paralisante.

Até ideias radicais passam a ser empregadas como argumento derrotista para projetos alinhados com mundo do aqui e agora. 

Todos já ouviram conversas professorais sobre a alienação popular e denuncias contra a fraqueza de lideranças, acusadas de não se mostrar à altura de suas tarefas. Também é fácil testemunhar o gosto infernal pelas autoflagelação e críticas destrutivas. São estas as conversas que temos ouvido por esses dias.

Mesmo lideranças importantes e dirigentes responsáveis da luta dos trabalhadores e do povo explorado tiveram dificuldade para compreender a mudança na relação de forças e a profundidade da derrota sofrida pela deposição de Dilma.

Vamos recapitular para entender. Chegou-se a imaginar, com sinceridade, que seria possível evitar o golpe. Depois, que daria para derrotar as contra-reformas.  Mais adiante, previu-se a queda de Temer, com auxílio até da TV Globo. Por fim, parecia fácil garantir a candidatura de Lula, pois não haveria força capaz de impedir o renascimento do mais popular presidente de nossa história. Quando nada disso aconteceu, acreditamos que o morro iria descer. Não desceu.

O caso da reforma da Previdência é instrutivo por outra razão. Enquanto nossos sindicatos tinham dificuldade para mobilizar os assalariados, todos ouvimos elogios admirados e até invejosos a mobilização dos trabalhadores argentinos que ocuparam o centro de Buenos Aires na mesma época,  pela mesma razão.  Muitos brasileiros se sentiram pessoalmente atingidos -- e moralmente liberados para fazer qualquer coisa a respeito -- quando, nas ruas de Buenos Aires, ouviu-se o grito "Nó somos brasilenos".  

Poucos se perguntaram pelo que aconteceu a seguir. Enquanto a reforma da previdência acabou aprovada sem maiores sobressaltos pela Congresso argentino, seu equivalente verde-amarelo sequer foi apresentado para votação, tão profundo era o repúdio popular a ideia.   

A dupla vitória de Lula na quinta-feira é um sinal luminoso nesse ambiente mas não garante, por si, uma virada na situação. Não há a menor certeza de que, em 4 de abril, quando ocorrer o julgamento do mérito, o placar da quinta-feira passada irá se repetir. A disputa pelos votos prossegue. Inconformada com uma demonstração de independência do STF, que aplicou uma surra em seus editorialistas, os jornais partiram para a vingança, retomando sua conhecida campanha de intimidação e chantagem.

A luta continua e é bom entender que há esperança de vitória.   A alternativa seria assistir, desde já, aos preparativos para a prisão de Lula. 

Deu para entender?

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