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Chico Teixeira

Historiador e professor titular da UFRJ

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Dúvidas reais sobre planejamento bélico numa época de incertezas

Toda a modernização do equipamento bélico brasileiro, sua especialização, é, na atual ordem mundial, bem-vinda

Militares do Exército Brasil (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

O Exército brasileiro confirmou a compra de um lote de mísseis anticarro do tipo Javelin FGM-148, de fabricação norte-americana, da Raytheon e Lockheed Martin, no valor, com outros meios, de R$ 1,27 bilhão. Toda a modernização do equipamento bélico brasileiro, sua especialização, é, na atual ordem mundial, bem-vinda e, mesmo, necessária como um fator eficaz de dissuasão. No entanto, a explicação para a compra e a escolha do material apresentada pelo porta-voz das FFAAs merecem alguma reflexão.

Segundo este, a guerra Ucrânia-Rússia e o "conflito na Palestina" impunham a modernização da panóplia brasileira. É aí que surgem as questões não muito claras, a partir do consenso de que o duro conflito Ucrânia-Rússia, o duelo aéreo-espacial entre Irã e Israel-Estados Unidos, a chamada "Operation Midnight Hammer", em junho de 2025, e a guerra desencadeada pela "Operation Epic Fury", em 28/02/2026, foram, e são, conflitos reconhecidamente de alta incorporação tecnológica de mísseis e drones.

A partir daí deveríamos destacar:

  1.  No conflito Ucrânia-Rússia destacamos o uso de drones e mísseis hipersônicos Kinzhal e Oreschnik, os sistemas Iskander-M e Kalibr, do lado russo. Note-se que tais mísseis são lançados de plataformas navais, como navios e submarinos, em especial localizados no Mar Cáspio. Além disso, estão no inventário russo os foguetes Grad, Smerch e o sistema TOS — termobárico —, e um número ilimitado de drones Shaheed, de produção iraniana.
  2.  Do lado ucraniano foram, e são, utilizados os mais avançados itens do estoque ocidental, como ATACMs, Patriot, Himars, Storm Shadow, Scalp-EG, Stinger, além da posse do Taurus alemão. Além disso, utilizam-se largamente drones Bayraktar, turcos, FPV, entre outros;
  3.  Em termos de blindados encontramos os T-72, T-70 e T-80 russos contra blindados Leopard e Bradley ocidentais;
  4.  Deram-se grandes avanços técnicos, como a combinação de blindados com drones de reconhecimento e drones contra blindados;
  5.  Malgrado a propalada resiliência ucraniana em batalhas de drones — incluindo os drones navais Magura V5, Sea Baby e Mariica, este subaquático —, devemos notar que a Ucrânia sobrevive pela presença de auxílio, equipamento e "conselheiros" europeus.

Assim, se algo nos ensina a guerra, e está na Ucrânia, é o papel essencial de drones e mísseis e, no tocante aos blindados, a combinação tática drone+blindado.

No tocante ao "conflito na Palestina", não se deu nenhuma batalha de blindados, sendo que as armas mais comuns utilizadas pelo Hamas são o AK-47 e tubos de RPG, de preços extremamente baixos em comparação com a panóplia israelense. No mais, os foguetes Kassam e Fajr-5, de fabricação iraniana, usados contra núcleos urbanos israelenses. Na luta antitanque foram empregados foguetes Shawaz, de baixa performance.

A ação do Hamas que se desenvolveu em 7 de outubro de 2023 foi centrada na combinação do AK-47 com motocicletas, com uso de foguetes Kassam. Tratou-se bem mais de uma ação híbrida, terrorista, do tipo "guerra dos pobres contra os ricos", favorecida por uma séria falha da Inteligência israelense.

De qualquer forma, os israelenses utilizaram em Gaza caças F-35 Lightning II, bombas planadoras AGM 154, bombas termobáricas, entre outros equipamentos. Em Gaza não se deram combates convencionais, e organismos internacionais declararam o conflito como um genocídio.

O único exemplo de um enfrentamento de uma força não convencional, o Hezbollah, no caso, foi em 2006, quando a organização xiita libanesa impôs um duro enfrentamento assimétrico aos carros de combate israelenses Merkava — MK 1, 2, 3, 4 — com o uso massivo de foguetes Katyusha e Falaq-1 e Falaq-2. Não acreditamos que as táticas do Hezbollah sejam um exemplo normativo para uma força militar convencional.

Assim, não conseguimos entender bem como os conflitos citados apontam para o equipamento adquirido. Talvez possamos pensar em experimentação ad hoc. Mas as dimensões do Brasil e de cenários militares possíveis, a maioria de caráter aéreo-naval, dificilmente apontam para a inclusão de um equipamento que tem um alcance de 4.000 metros e uma altitude máxima de 160 metros.

Em suma, permanecem dúvidas que mereceriam esclarecimentos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.