E a liberdade, finalmente, encontrou a Justiça

Ao contrário do que dizem uns aloprados nos púlpitos, os casais homoafetivos estão a preservar o casamento e a família. Estão a querer celebrar o amor juntos, não mais escondidos

Ao contrário do que dizem uns aloprados nos púlpitos, os casais homoafetivos estão a preservar o casamento e a família. Estão a querer celebrar o amor juntos, não mais escondidos
Ao contrário do que dizem uns aloprados nos púlpitos, os casais homoafetivos estão a preservar o casamento e a família. Estão a querer celebrar o amor juntos, não mais escondidos (Foto: Lelê Teles)

Pode ter sido apenas um sonho, pensei ao acordar.

Me espreguicei, como fazem os gatos sabiamente, afastei a cortina, abri a janela e pimba...

Lá estava ele, bebendo água do mar, com suas indefectíveis sete cores, em arco, a alegrar minha íris.

Na noite anterior, ao chegar cansado em casa e sem saco para leituras, ouvi de minha filha que nos Esteites - em todo o país, ressaltou - haviam legalizado a união civil entre pessoas, não importando o gênero ou a opção sexual.

Antes de ir pra cama chequei o twitter, era verdade.

Dormi abraçado à hashtag #Lovewon, uma tuitada de Obama. E dormindo, sonhei.

No sonho, a estátua da justiça corria, descalça, em direção a uma ilhota, em câmera lenta. Seu vestido de concreto farfalhava com o movimento, abstrato.

Ela arrancou a venda dos olhos, sacudiu os cabelos ao vento, deixou a balança cair, cravou a espada no solo e saltou, jactante, nos braços da liberdade.

A tocha, na mão da outra, explodiu em fogos e em artifícios. As duas se beijaram, fraternas.

Foi aí que acordei, sobressaltado, e vi o arco-íris no mar.

Há duas décadas ouço, insistentemente, que o casamento é uma instituição falida. O IBGE, a cada pesquisa, constata que o número de separação cresce muito mais que a quantidade de novos matrimônios.

E mais, as pessoas estão se casando cada vez menos. Brasília, por exemplo, é uma cidade de solteiros.

Preste atenção, leitor atento - enquanto devora salgadinhos nas festas alheias - no Brasil inteiro, nos bailes matrimoniais, só as tias velhas é que se acotovelam para pegar o buquê da noiva.

Por isso, irmãos e irmãs, é que as igrejas cristãs, todas elas - com o papo furado de preservar a família - ministram cursos e palestras na tentativa, desesperada, em juntar os cacos das relações despedaçadas.

É uma epidemia. Daqui a pouco inventam o DA, Divorciados Anônimos, "só por hoje não vou me separar".

É cada vez maior o número de mulheres que criam seus filhos sem a presença do pai biológico. Os homens estão a fugir da responsabilidade de ter um lar, esposa e filhos.

Por outro lado, com a emancipação econômica e laboral, sem a dependência de um homem para se manter, as mulheres se sujeitam cada vez menos às traições descaradas dos maridos, mesmo que as igrejas peçam para que elas os perdoem.

O que explica tanta separação, e a fuga dos buquês, é que o amor deixou de ser o motivo dos casamentos.

Casa-se porque o pai não deixa o genro/noivo comer a filha dele no sofá de casa.

Casa-se porque o véu é um sonho, o vestido de cauda longa é um fetiche, ser o centro das atenções familiares numa igreja é a apoteose.

Casa-se porque a moça é "decente" e de "boa família" ou porque o noivo é rico.

Há aquelas que levam o advogado para a igreja. No altar, na frente do padre, chama o noivo de meu bem. Ao descer as escadas, após o beijo sob o véu, passa a chamá-lo de meus bens.

Salões de beleza, lojas de aluguel de ternos e vestidos, revistas especializadas, igrejas, buffets, casas de eventos... há toda uma indústria a estimular o casamento.

É um negócio. O amor, esse é o ponto, está sempre em terceiro plano.

Pro divórcio é um pulo.

Estou a pensar nisso por causa da tag tuitada por Obama, "o amor venceu".

Em meio a essa crise de relação, casais de homens e mulheres, no mundo inteiro, lutam pelo direito de viverem legalmente juntos e de poderem, juntos, criar filhos.

Por isso, a vitória do amor.

É uma verdadeira revolução nos costumes. Ao contrário do que dizem uns aloprados nos púlpitos, os casais homoafetivos estão a preservar o casamento e a família.

Estão a querer celebrar o amor juntos, não mais escondidos como se estivessem a fazer algo errado, proibido, sujo e feio.

Querem, as duas mulheres e os dois homens, levar os seus filhos à escola e, os dois, beijarem suas crianças antes destes entrarem portão adentro.

Não se preocupem, pastores e padres, a Bíblia ajuda as crianças a compreenderem este mundo novo. Era assim que Jesus andava no mundo, com dois pais, Deus e José.

Não escondam dos pequenos a passagem em que Jonatãs se deita sobre Davi, nus, e se beijam.

Digam a eles a verdade, que Jesus, o Cristo, jamais tocou neste assunto, vocês é que levaram esse papo furado para as igrejas.

Digam às crianças que Adão era filho de pai solteiro e que este infeliz nem mãe teve. Que o amor entre duas pessoas é coisa rara na Bíblia, que ali a safadeza grassa. Quiseram fuder até os anjos que Deus enviou a terra.

Deixem de encher os miolos das pessoas com idiotices.

Saudemos os novos tempos e oh...

Amai-vos uns aos outros, como pregou o Mestre.

palavra da salvação.

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