E a verdade prevalecerá
Como fake news, golpes e manipulações alimentam o ódio, ameaçam direitos e exigem a defesa permanente da verdade
Caras leitoras e caros leitores! Imaginemos que toda mentira repetida gerasse o efeito Pinóquio e que homens e mulheres que a proferissem ficassem isolados, numa espécie de bolha. Ao se olharem, ver-se-iam no reflexo dos outros, reconhecendo-se na triste aparência de hipócritas e oportunistas que revestem a verdade com roupagens outras. Assim, nesse universo paralelo, ao criarem versões que lhes são convenientes, suscitam dúvidas sobre o conhecimento cientificamente comprovado e ignoram, ou até negam, os avanços produzidos no decorrer do tempo.
O fato é que, independente do motivo, seja por sobrevivência, ganância, interesses pessoais ou de grupos, ou ainda, por legitimação de controle social, não são poucos os que lucram com boataria, fake news ou com ações que tiram proveito da boa fé das pessoas. Enganam com falsas promessas de ganho fácil; manipulam imagens e informações; destróem sonhos de humildes e desinformados com narrativas falaciosas. Procuram desqualificar e desconstruir, desta forma, resultados consistentes de projetos sociais já consolidados e de pesquisas no campo da saúde, desacreditando vacinas, e do meio ambiente, contestando ações protetivas.
A prática de ludibriar e enganar os incautos é antiga e se mistura com a história da humanidade. Recorrendo à mitologia grega, citemos as artimanhas de Hermes, conhecido como o ‘deus mensageiro’. Não por acaso, ele é tido como o patrono da astúcia, da diplomacia e da mágica, com seus truques, que combinavam rapidez, trapaça e inteligência, enganando e fazendo parecer verdadeiras, situações que não condiziam com a realidade. Por sua vez, o filósofo Platão, na “Alegoria da Caverna”, nos apresenta o quanto a ilusão é útil ao dominador e, por vezes, interessante aos dominados. Nesta compreensão de mundo, é melhor não ver a luz, a verdade dos fatos, pois a cegueira social traz algum conforto, acomoda os olhos e não exige esforços ou ações que visem modificar a estrutura vigente por pior que seja. Considerando que a sombra da caverna basta a alguns, o poeta Thomas Gray, em 1742, escreveu: "Onde a ignorância é felicidade, é loucura ser sábio". Ideia semelhante foi reproduzida numa cena do filme Matrix, através da máxima “a ignorância é uma dádiva”.
No campo da literatura, considerando o caráter intencional de quem procura iludir os que não conseguem enxergar, figura o “Cavalo de Troia”, história contada por Homero, em Ilíada, sua clássica obra. O presente dos gregos aos troianos, que simbolizava um movimento de trégua, rendição e paz, na verdade foi uma engenhosa armadilha, que resultou em ruína para o povo presenteado.
E os golpes não pararam por aí. Os vigaristas, ilusionistas e falsificadores da realidade sempre estiveram em ação. Victor Lustig, no final do século XIX e começo do século XX, vendeu, por duas vezes, a Torre Eiffel e essa façanha lhe deu fama mundial. A exemplo dele, outros oportunistas apostaram em fraudes, criando esquemas que forjaram o enriquecimento rápido e fácil, tais como a venda de pirâmides financeiras. Tal manobra econômica, criada por Charles Ponzi, em 1920, ficou conhecida como “Esquema Ponzi”, levando seus investidores ao enriquecimento ilícito. Em contrapartida, aos que nela confiaram restou a miséria. Infelizmente, modelos fraudulentos como este servem de base, ainda hoje, para a aplicação de golpes.
Para além das pirâmides de dinheiro, ou de produtos, tantas outras trapaças, que visam derrubar governos para a manutenção do poder político e econômico nas mãos de um determinado grupo, são levadas a efeito. A par disso, permanecem frescos em nossa memória os golpes aplicados a aposentados (fraudes do INSS), a mulheres (redes de prostituição), a adolescentes (movimento Red Pill), e a torcedores (Bets). Estas plataformas de jogos desinformam, viciam e produzem consequências devastadoras na vida dos apostadores, muitos deles lançados à miséria. Nesse cenário, inclue-se também o escândalo financeiro desencadeado pelo Banco Master, que lesou criminosamente seus investidores, carreando o produto fraudado a igrejas de origem duvidosa, campanhas eleitorais e promoção de grandiosas festas a amigos e politicos graúdos.
Assim, pseudo empreendedores, trapaceiros e apostadores gananciosos somam interesses econômicos, religiosos e politicos. Seguem se aproveitando e se enriquecendo, desafiando a justiça, burlando as regras e se utilizando de brechas legais. Assim, colocam em cheque a seriedade das instituições e em risco a soberania nacional e os direitos humanos tão duramente conquistados e garantidos pela Constituição Federal.
Numa escalada de violência de toda ordem, a utilização de práticas e de narrativas falsas, que aparentam ser verdadeiras, danifica o tecido social, produzindo o ódio e a morte. Cabe aqui um exemplo recente: uma fake news misógina disseminada, em entrevista à televisão, por um ator de novelas, afirmava que, no Brasil, “mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres”. Essa fala deliberada e mentirosa, pretendia, ao que tudo indica, atrair a visibilidade e o interesse do público masculino para o curso por ele oferecido, “que ensina homens a serem homens”, intensificando assim o ódio às mulheres. Atinge-se, dessa forma, o âmago da dor que aflige o tempo presente, que faz do feminicídio a trágica espetacularização do horror, produzindo a banalização da vida e a desumanização das relações.
Se os entrevistadores acataram como verdade, sem impor qualquer objeção ou questionamento à fala tendenciosa do ator em questão, não se pode perder de vista que o Brasil segue com a triste marca histórica de ser o quinto país que mais mata mulheres no mundo. De acordo com os dados publicados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e também pelo monitoramento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, no ano de 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, com aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, numa média absurda e inaceitável de quatro mulheres assassinadas por dia pelas mãos de homens. Esse dado brutal e letal, de modo crescente e vergonhoso, no primeiro trimestre de 2026, totalizou 399 vítimas de feminicídio, representando um aumento de 7,55% em relação ao mesmo período de 2025.
Assim, caras e caros leitores, os tristes e vergonhosos números se nos apresentam desafiadores e requer que atuemos com urgência e eficácia para conter essa escalada de crimes contra a vida e a dignidade das mulheres. Tingida pelo sangue feminino a sociedade persiste e insiste na manutenção de um sistema sócio-politico-econômico patriarcal, que segue invadindo terras, dominando corpos e mentes, destruindo culturas e matando mulheres insubmissas. Pensemos nisso e também nas diversas formas de enganar que nos são apresentadas como verdades absolutas. Desconfiemos delas. Busquemos a clareza dos fatos.
Mas, é preciso que se diga, não podemos nos subjugar à mentira e à falsidade. A verdade há de prevalecer. Estejamos atentas, atentos. O tempo e as contradições da realidade acabam, cedo ou tarde, por trazer às claras a intencionalidade daqueles que produzem e disseminam a desinformação, a inverdade, o mal e a morte. Ações educativas esclarecedoras e a valorização de expressões artísticas genuínas constituem instrumentos dos quais podemos nos valer para ocupar a mesma rede que semeia mentiras, transormando-a em espaço de denúncia e de desconstrução do ódio e das fake news. Que a verdade seja expressão da verdade e que, pela palavra, oral ou escrita, possamos trazer à luz o que vem produzindo em nós a cegueira. Que façamos juntas e juntos a saída da caverna e a revolução pela paz. Que sejamos portadores da verdade que deve prevalecer e ser, de fato, libertadora!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

