E ninguém faz nada. Ninguém

O colunista Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia, afirma que a sanha destruidora do governo Bolsonaro continua insaciável. Ele diz: "a própria estrutura do governo está sendo corroída por dentro em altíssima velocidade, com funcionários de carreira sendo varridos – quanto mais experiente, quanto mais respeitado, pior – para o rincão das almas penadas. E em seus lugares aparecem nulidades grotescas"

Um pacto para destruir o Brasil
Um pacto para destruir o Brasil

 

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - Já lá se vão 400 e tantos dias, e Jair Messias continua insaciável. Sua sanha destruidora desconhece limites, e a esta altura já não existe praticamente nenhum aspecto da vida brasileira que não tenha sido atacada, com mais ou menos ferocidade, com maior ou menor eficiência. Mas nenhum, absolutamente nenhum. Nada se salva do desequilíbrio sem remédio nem tratamento desse destrambelhado.

A própria estrutura do governo está sendo corroída por dentro em altíssima velocidade, com funcionários de carreira sendo varridos – quanto mais experiente, quanto mais respeitado, pior – para o rincão das almas penadas. E em seus lugares aparecem nulidades grotescas.

Isso acontece em tudo que é ministério, sem uma única exceção. Jair Messias e seus asseclas impregnaram tudo de veneno letal, do extinto ministério da Cultura à FUNAI, passando por todos, absolutamente todos, os órgãos e dependências do governo.

O mais grave, o mais tenebroso, é que na mesma onda obscurantista e estúpida que levou Jair Messias à presidência, várias outras aberrações abjetas também foram despejadas em governos estaduais e prefeituras.

Vou me limitar ao Rio de Janeiro. A cidade está nas mãos de Marcelo Crivella, um desses autonomeados pastores de seitas evangélicas nascidas do nada. No seu caso, a seita em questão se chama Igreja Universal do Reino de Deus e foi inventada numa funerária de subúrbio por um ex-funcionário de loteria, um charlatão chamado Edir Macedo, que aliás é tio dele.

Essa igreja, vale recordar, está espalhada por mais de cem países e é a multinacional brasileira mais lucrativa. Perto do que ganha explorando mundo afora as dores e misérias a troco de dinheiro, empresas como a Vale e a Petrobras nem chegam perto. Pelo mundo há mais templos desse nefasto fenômeno comercial que lojas da McDonald’s.

O Rio de Janeiro é hoje uma cidade abandonada, esburacada, com calçadas ocupadas por camelôs, mendigos, drogados. Ao longo dos últimos quatro malfadados anos em que esteve nas mãos desse sacripanta inútil foi definhando dia a dia, até chegar ao ponto da exaustão absoluta.

Já o estado do Rio foi entregue, numa surpresa de última hora – até uma semana antes, nada indicava que ele seria eleito –, a um juiz obscuro, de trajetória insignificante, chamado Wilson Witzel. 

Chegou onde chegou graças a dois fatores decisivos: o apoio irrestrito de Flávio Bolsonaro e das milícias que controlam mais da metade do território da zona urbana da cidade e das vizinhas.  

Sua única política de segurança pública fez das polícias do Rio, que já eram extremamente corruptas e violentas, uma fábrica de tragédias. Witzel, que adora fingir que é militar (teve uma passagem, obscura como tudo em sua pobre vida, pelos fuzileiros navais), é um genocida.

Nada mais esclarecedor sobre sua nulidade que um detalhe: desde o primeiro dia de 2020, a água distribuída na minha cidade e nas vizinhas vem contaminada. Ninguém até agora explicou direito o que ela contém, nem quando voltará ao normal. 

Perguntado, Witzel, com sua prepotente estupidez habitual, limitou-se a disparar um ‘Eu não sou químico’. As vendas de garrafas e galões de água mineral se multiplicaram por onze, e o preço, por três. 

Quer dizer: vivo numa cidade abandonada e destruída, que é a capital de um estado abandonado e destruído, que faz parte de um país arrasado, entregue e destruído.   

O que mais me espanta diante de tanto descalabro é que ninguém, absolutamente ninguém, faz nada. Nada.

Cadê gente na porta do governador reclamando pela água imunda que recebe em casa? Cadê gente na porta do prefeito exigindo que ela suma nos ares e não apareça nunca mais? Cadê ambientalistas, trabalhadores das artes e da cultura, professores e cientistas ocupando praças e ruas? Cadê os sindicatos, os movimentos sociais, cadê todo mundo? 

Como foi que viramos um bando de frouxos inertes, se lamuriando pelos cantos e sem pôr a cara nem na janela?

Confesso meu espanto e minha dúvida: será que só eu e um punhado de amigos estamos errados, e aberrações como o prefeito, o governador, Jair Messias e sua tropa de abjetos – sem uma única exceção – estão certos?

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