E o mundo não acabou...
O fracasso das previsões apocalípticas expõe os limites da força bruta e reafirma a resiliência da esperança diante da desordem global
Desta vez, as previsões pareciam consistentes. Analistas do cenário internacional acreditavam que as ameaças de varrer do mapa as antigas civilizações persas, com consequências para uma periferia já traumatizada por guerras e longas hostilidades, estariam à beira de ter lugar. Nos Estados Unidos, Donald Trump bufava. Como sairia das humilhações de um adversário minúsculo, desprovido de poderio bélico e apenas munido da vontade de resistir? Fazer face a um contendor do tipo, só com uma exibição de força de provocar inveja aos grandes tiranos, como Hitler, quem sabe... As visões do apocalipse determinavam que não reveríamos a luz do dia, os instantes de ternura, o soar dos passarinhos, mergulhados na eternidade da estupidez em seus piores desvarios.
Como assinala o samba de Assis Valente, de 1938, a “conversa mole” quase nos convenceu. Felizmente, o mundo se mostra bem mais duro de se dobrar do que se suporia. O que estamos assistindo, graças à coragem dos iranianos, depois da invasão da Venezuela e dos surtos de arrogância contra Cuba, para não falar em uma possível anexação do Canadá e da posse da Groenlândia pelos americanos, pede momentos de reflexão. A loucura correndo solta na Casa Branca dá para assustar, insuficiente, no entanto, para encerrar as esperanças das vitórias contra a barbárie. “Vai ter barulho e vai ter confusão porque o mundo não se acabou...” — previa o autor de alguns clássicos da nossa música popular. E graças a Deus! Confusões, muitas vezes, acalentam a alma e permitem que a sensatez retome o seu lugar. Claro que o Pentágono não vê como sair da enrascada. Por uma vez, o rato, frente à montanha, pariu uma espécie de desalento mesclado à evidência de que, façam o que fizerem, a humanidade, do ponto de vista da esperança, tem o que acrescentar.
Estamos, sem dúvida, em uma época de crescente anomia. Os esforços realizados depois da II Grande Guerra, com a criação da ONU e uma teia de normas a serem respeitadas pela maioria, caíram por terra. Alianças e velhas fidelidades passaram a ser contestadas como se o universo agora estivesse nas mãos de quem pode e quer manipulá-lo. E que se cuidem os demais, testemunhas de uma época na qual, uma por uma, as regras já não tranquilizam. Apesar disso, uma compensação se revela inegável. Tirando Netanyahu e as obsessões em favor de uma Grande Israel, com o genocídio dos que se lhe colocarem diante, ninguém se deixou seduzir pelas exibições de Trump. O Estreito de Ormuz continuou nas mãos do Irã, com o petróleo a preços estratosféricos, uma espécie de bomba atômica dos pobres no combate contra a desfaçatez.
Sabe-se que, mesmo em meio a cinzas, os homens se reerguem. Não será a primeira vez que uma política de terra arrasada acabará com as nossas últimas esperanças. É possível, além disso, que o exagero elevado a patamares insuportáveis de aguentar reforce os movimentos internos entre os norte-americanos. Assim, uma vez que o mundo não acabou, cabe dizer que voltamos a sonhar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
