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Aquiles Lins

Aquiles Lins é colunista do Brasil 247, comentarista da TV 247 e diretor de projetos especiais do grupo.

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É preciso reconhecer a ação de Galípolo no caso Master

Mesmo sob pressão política e institucional, presidente do Banco Central conduziu medidas firmes para conter irregularidades e proteger o sistema financeiro

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva de imprensa, em Brasília - 27/03/2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Em meio a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país, é preciso reconhecer a atuação firme do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no processo que levou à liquidação do Banco Master. Em um ambiente de forte pressão política, disputas institucionais e interesses contrariados, a autoridade monetária tomou decisões que, embora duras, foram fundamentais para proteger a estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

Pouco se fala, mas não se tratou de uma decisão simples. Ao assumir o comando do Banco Central, Galípolo herdou uma situação complexa na supervisão bancária — uma verdadeira “herança maldita” deixada pela gestão de Roberto Campos Neto. As fragilidades acumuladas ao longo dos anos vieram à tona no caso Master, expondo um conjunto de irregularidades financeiras que não poderiam ser ignoradas por qualquer autoridade responsável.

A medida mais contundente foi a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master. Após identificar graves inconsistências contábeis, riscos de solvência e ameaças à estabilidade do sistema financeiro, o Banco Central afastou os administradores da instituição e nomeou um liquidante para conduzir o processo. Trata-se de um instrumento extremo, utilizado apenas quando não há mais alternativas viáveis para preservar a instituição sem colocar em risco o sistema como um todo.

Antes de chegar a esse desfecho, porém, houve tentativas de encontrar soluções menos traumáticas. Uma delas foi a análise da proposta de venda do banco ao Banco de Brasília. O Banco Central avaliou tecnicamente a operação, mas acabou vetando a transação ao identificar inconsistências relevantes na composição dos ativos declarados pelo Master. Permitir a aquisição naquele contexto significaria transferir riscos consideráveis para outra instituição e potencialmente ampliar o problema. Problema este que já existia e que incrivelmente Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, deixou correr solto. 

Paralelamente, a autoridade monetária instaurou processos administrativos sancionadores contra o banco por descumprimento de normas prudenciais. Entre os problemas apontados estavam insuficiência de depósitos compulsórios, fragilidade de caixa e dificuldades para cumprir obrigações financeiras — sinais clássicos de deterioração bancária que exigem resposta rápida do regulador.

A atuação não se limitou à supervisão administrativa. O Banco Central também cooperou com investigações conduzidas por órgãos como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, compartilhando informações relevantes para apurações sobre possíveis crimes financeiros relacionados ao banco e a seus administradores.

As medidas tomadas sob a liderança de Gabriel Galípolo ainda foram ampliadas a outras instituições vinculadas ao conglomerado financeiro. Após a liquidação do Banco Master, o Banco Central estendeu intervenções e processos de liquidação a empresas e entidades ligadas ao grupo, utilizadas nas operações investigadas. Essa decisão demonstrou que a autoridade monetária estava disposta a enfrentar o problema em toda a sua extensão, e não apenas tratar seus efeitos mais visíveis.

Em meio às críticas e pressões políticas para evitar a liquidação, Galípolo também assumiu a defesa pública das decisões da autarquia. Durante evento da Associação Brasileira de Bancos, o presidente do Banco Central ressaltou que todo o processo foi conduzido com base em critérios técnicos e na autonomia institucional da autoridade monetária. “Agradeço a Deus por passar por isso sob o presidente Lula. Eu quero sublinhar a garantia da autonomia do BC e da Polícia Federal”, afirmou.

O próprio Galípolo destacou que a liquidação não foi uma decisão precipitada. Segundo ele, cerca de seis meses antes do decreto, o Banco Central já havia emitido um “cartão amarelo” ao banco, cobrando explicações sobre patrimônio e governança após identificar problemas de liquidez. Houve, portanto, tentativas de correção e diálogo antes da adoção da medida extrema.

Nesse contexto, é inevitável questionar o grau de conhecimento e eventual participação — ativa ou por omissão — da gestão anterior do Banco Central no escândalo do Master. A supervisão bancária é uma atividade contínua, e problemas dessa magnitude raramente surgem de um dia para o outro.

O que já está claro, no entanto, é que a atual direção do Banco Central atuou de forma decisiva para desbaratar o esquema que deu origem ao maior escândalo financeiro dos últimos tempos. Em um país acostumado a críticas — muitas delas justificadas — à condução da política monetária e ao patamar elevado dos juros, também é necessário reconhecer quando a autoridade monetária cumpre seu papel institucional.

Pode-se discordar de decisões econômicas de Galípolo. Pode-se debater a taxa de juros ou as estratégias de política monetária. Mas, no caso do Banco Master, sua atuação merece um registro claro: diante de pressões políticas, interesses poderosos e riscos sistêmicos, o Banco Central escolheu o caminho mais difícil — o da legalidade, da transparência e da defesa da estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.