Editores demitidos ameaçam denunciar que ordem do PowerPoint veio da direção da Globo
Demissões na Globo expõem crise interna, ameaça de denúncias e dúvidas sobre responsabilidade editorial e ética jornalística no caso do PowerPoint
Demorou um pouco, mas afinal foram demitidos os dois editores escolhidos para pagar o pato pelo PowerPoint exibido na Globonews. A demora se deu também porque havia uma ameaça de que os que tiveram as cabeças iriam denunciar que o PowerPoint foi o resultado de uma encomenda da direção. O presidente da Globo é Paulo Marinho.
O aviso dos editores, ao lado das restrições ao PowerPoint levantadas por raros jornalistas da redação, causaram a vacilação no cumprimento da ordem de demissão dos bodes expiatórios. O sentimento de injustiça cresceu com as alegações de que a arte que foi levada ao ar foi aprovada previamente pela direção, que agora tira o corpo fora e aponta para os que apenas a confeccionaram e levaram ao ar da maneira como foram orientados.
Todos sabem que o PowerPoint expressa com sinceridade o sentido e a letra do jornalismo da Globo: na dúvida, tudo contra Lula, PT e o STF. Houve reuniões tensas, exibiram-se mensagens comprovadoras da linha de hierarquia que levou ao suposto erro, mensagens devidamente desconsideradas.
De lá pra cá, a Globo tenta abafar o caso, ganhar tempo antes de voltar ao viés original.
O comunicado a respeito do erro é intencionalmente genérico e dissimulado. Não se apontam quais foram as incorreções cometidas no PowerPoint nem que pessoas tiveram suas imagens enxovalhadas sem razão nem provas.
Uma correção sincera deveria buscar reparar por inteiro os danos causados à imagem dos que foram criminosamente acusados naquela imagem. Uma ação honesta deveria explicitar sem ambiguidade a inocência dos que foram erroneamente apontados e reafirmar a responsabilidade dos que seguem sendo os verdadeiros culpados.
Em vez disso, a mensagem de Sadi é intencionalmente genérica. Uma suposta correção que não corrige nada e na verdade reafirma dessa maneira o vício original. Faltou coragem para assumir os erros, faltou respeito à seriedade do fazer jornalístico e transparência na descrição do que ocorreu. Um ofício exercido com seriedade deveria se preocupar antes de tudo com a imagem dos inocentes afetados em lugar de ocultar-se, como forma de se evadir e salvar a própria face. Esperar, porém, uma correção honesta, que implicasse, dizer que Lula e outros foram injustiçados pela Globo, é uma ilusão. A este ponto, só mesmo com uma decisão da Justiça, outra inimiga da mídia, no modelo celebrizado por Leonel Brizola.
É notável ainda o silêncio cúmplice de quase todos os outros veículos e jornalistas a respeito do caso, bem como de quase todas as entidades profissionais, reafirmando a justa dúvida, neste episódio lapidar, sobre afinal quais são os valores que comandam de fato o exercício do jornalismo dito profissional.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
