Eduardo Leite: a terceira via que leva a lugar nenhum

Na concepção econômica do papel do estado, ele quase nada tem de diferente de Jair Bolsonaro. É um político jovem com ideias velhas que jamais produzirão desenvolvimento econômico e social. O Rio Grande do Sul é a prova disso

Eduardo Leite
Eduardo Leite (Foto: Reprodução)
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O governador Eduardo Leite (PSDB) é o sonho de parte significativa da elite nacional vinculada ao tucanato para se constituir na chamada terceira via nas eleições de 2022. Para tanto, precisa vencer ao governador João Dória (SP) nas prévias partidárias marcadas para novembro. O desdobramento desse embate é tão estratégico para os planos de cravar uma cunha entre a polarização Lula/Bolsonaro que os jornais O Globo e Valor Econômico realizaram, de modo inédito, a transmissão do primeiro debate entre os candidatos à representação tucana na disputa presidencial, ocorrido na manhã de terça-feira (19/10), no Rio de Janeiro.

Nesse contexto, o que mais impressiona é o cinismo dessa elite e de seus porta-vozes na grande imprensa em apresentá-lo como exemplo de capacidade administrativa e diálogo. As principais reportagens a seu respeito falam de um político que está fazendo as reformas necessárias para tirar o RS do vermelho. Para tanto, se fundamentam nos recentes anúncios de superávit da ordem de R$ 2,8 bilhões.Analisando a execução orçamentária do governo Leite podemos entender perfeitamente como ele construiu esse milagroso superávit. Considerando apenas o primeiro semestre de 2021, os números falam por si só. Na área da saúde, em plena pandemia, as despesas totalizaram apenas 10,51% da receita corrente líquida, quando o mínimo constitucional exigido é 12%. Em segurança, comparativamente ao primeiro semestre de 2020, os investimentos despencaram de 34,57% da receita líquida para 27,27%. Na área de educação, o investimento caiu de 29,56% (1º semestre 2020) para 25,03%. Portanto, um superávit construído a partir do desmonte do serviço público através da redução de investimentos. A bem da verdade, as reformas necessárias no setor público, para  a grande imprensa vinculada ao capital privado, tem um sentido totalmente distinto da ideia de reformar para benefício da sociedade. Para eles, significa entrega de patrimônio público ao setor privado, arrocho salarial, retirada de direitos dos servidores e investimentos mínimos em áreas sociais estratégicas, como saúde e educação.

É uma concepção atrasada e excludente de gestão, que beneficia com transferência direta ou indireta de recursos públicos a uma minoria de grandes agentes do setor privado. De acordo com estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), somente em 2019 o RS abriu mão de R$ 9,8 bilhões em desonerações fiscais. Dentre os beneficiários, constam gigantes nacionais e multinacionais, como Gerdau, Ambev, Zaffari, Bunge Alimentos, Taurus, Marfrig. 

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Os professores, funcionários de escola e servidores do quadro geral estão há 7 anos sem reposição das perdas inflacionárias. Policiais militares há 4 anos. A carreira dos servidores foi destruída via retirada de direitos que assegurava progressão. Estatais do setor energético e de saneamento estão sendo ofertadas a preço vil à iniciativa privada, sem nenhum tipo de consulta prévia à população gaúcha. 

Diante disso tudo, apresentar a imagem de um homem de “diálogo” parece algo dissociado de qualquer vinculação com a realidade. Sua avaliação pública somente não é proporcional ao fracasso de seu governo porque é um político totalmente blindado pela grande imprensa gaúcha. E o fazem na busca desesperada de tentar catapultá-lo à condição de alternativa eleitoral do autodenominado centro, que na verdade é a direita tradicional. Seria risível se não fosse trágico. 

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Recentemente, em jantar com grandes empresários paulistas, Leite apresentou a síntese de seu programa de governo, ancorada em três pilares: combate à desigualdade; crescimento, com foco no aumento da produtividade e reformas e sustentabilidade social e ambiental. Olhando assim, superficialmente, parecem eixos de propostas modernas e sintonizadas com os anseios da população brasileira. 

Contudo, basta analisar o currículo dos principais especialistas que o assessoram para compreender de que realmente estão falando. O coordenador da área econômica do plano de governo de Eduardo Leite é Aod Cunha, o ex-Secretário da Fazenda do desastroso governo do “déficit zero” de Yeda Crusius (PSDB/RS). Segundo ele, o tema da sustentabilidade ambiental é estratégico nos planos do atual governador gaúcho. Um discurso vazio que não resiste ao confronto com a realidade. Leite liberou em solo gaúcho agrotóxicos proibidos nos EUA e na Europa e destruiu com o Código Ambiental para favorecer o agronegócio e atividades de exploração mineral, autorizando inclusive o autolicenciamento. 

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Também auxiliam no plano econômico Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no segundo governo de FHC (homem de confiança do capital especulativo internacional) e economistas da Casa das Garças, um instituto liberal sediado no RJ que reúne agentes ligados ao mercado financeiro e à ideia de Estado mínimo. 

Enfim, uma turma que ajudou a literalmente quebrar o Brasil e alguns estados através de seus receituários neoliberais. São esses que querem se apresentar como novidade e mudança ao povo brasileiro através de uma cara nova, de discurso agradável e que anuncia o desejo de pacificar e desenvolver o Brasil. Ledo engano. Eduardo Leite, na concepção econômica do papel do estado, quase nada tem de diferente de Jair Bolsonaro. Ele é um político jovem com ideias velhas que jamais produzirão desenvolvimento econômico e social. O Rio Grande do Sul é a prova disso.

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