Eduardo Pazuello convoca coletiva para xingar a mídia e falar consigo mesmo

"Num espetáculo de quase esquizofrenia, Eduardo Pazuello abandonou o 'submisso' e incorporou o censor, formulando a si mesmo perguntas que, supôs, serem as que fariam os colegas, sobre o assunto que lhe cabia discorrer", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Alan Santos/PR)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

A boa notícia é que em 10 dias, caso a Anvisa demonstre trabalhar realmente para o país, e não para o governo, o Brasil terá uma vacina, a Coronavac, com índice de eficácia de 78%, (o que do ponto de vista dos parâmetros sanitários é considerado excelente). O resultado anunciado na manhã de hoje, (08/01) é fruto de pesquisas da China com o Instituto Butantan, instituição que responde ao governo do Estado de São Paulo (para a ira de Bolsonaro).

A péssima notícia é que temos Bolsonaro na presidência e a pasta da Saúde nas mãos de um general aparvalhado e mercurial. Um nega à população a saída para a doença, o outro não é capaz de escapar da cama-de-gato em que se meteu. Na frente do chefe, o ministro Eduardo Pazuello abaixa a cabeça e diz: “sim senhor”. Longe dele, deixa emergir o autoritário que cultivou carinhosamente na vida em caserna.

Ao vir a público dialogar com a sociedade, ontem (7), em coletiva, Pazuello institui que será um monólogo. O único diálogo que admite é com os seus botões, ou com profissionais hipotéticos, imaginários, apesar de estar diante de um time de jornalistas reais, ávidos por fazer perguntas sobre o tema crucial para um país que até agora perdeu 200 mil pessoas para a Covid-19, doença que a vacina produzida no Butantan, se aplicada em larga escala, de modo equânime, é capaz de conter.

Todos nós nos lembramos que tão logo assumiu o cargo – ainda na condição de interino -, Pazuello disse o primeiro “sim senhor”. Foi quando assinou o documento que liberava a prescrição da cloroquina como remédio contra o coronavírus (de uso comprovadamente ineficaz e perigoso em certos casos), por exigência de Bolsonaro. Aceitou fazer o que os ministros/médicos demitidos, comprometidos com o solene juramento de Hipócrates, proferido por formandos de Medicina, e pelo qual prometem praticar a profissão honestamente, se recusaram. Como optou por ser general e não um médico, Pazuello sentiu-se com “liberdade” para transgredir regras seguidas pelos seus antecessores, do ramo.

Ato contínuo, suspendeu a apuração e divulgação dos números de vítimas pela Covid-19, que a mídia de modo geral se recusou a chamar pelo nome: censura. Os números passaram a ser conseguidos graças a um esforço de vários veículos, que num pool, coletam e divulgam os dados da pandemia. Como o mal, se não cortado pela raiz se fortalece e se ramifica, ontem os jornalistas convocados para a coletiva viram, em ato solene, com a presença de todo o corpo gerencial da pasta, o resultado desta omissão.

Só não foram chamados de “canalhas”, cara a cara, como costuma Bolsonaro, mas ouviram que a função da categoria não é “interpretar”, mas repassar fatos, como uma correia de transmissão. Sonho de qualquer um que assume cargo de relevância no governo. Não ter de lidar com os jornalistas de opinião, os analistas políticos.

Num espetáculo de quase esquizofrenia (aqui peço desculpas aos portadores da enfermidade, ciente da gravidade do quadro que enfrentam), Eduardo Pazuello abandonou o “submisso” e incorporou o censor, formulando a si mesmo perguntas que, supôs, serem as que fariam os colegas, sobre o assunto que lhe cabia discorrer. Do mesmo modo que não é médico – e por isto não deveria, no auge de uma pandemia, estar à frente de uma pasta de tamanha responsabilidade, a da Saúde -, também não é jornalista. Não sabe fazer as perguntas necessárias, imprescindíveis, em uma situação como esta.

Ao se recusar a falar com a mídia que ele mesmo convocou, ao ser instado pela própria situação a fazer um balanço do cenário atual da doença no país, e ter de se posicionar sobre o Plano Nacional de Imunização – que até o Supremo Tribunal Federal já exigiu, com todo o poder de que dispõe para isto -, Pazuello falou apenas o que quis. E saiu de cena, evitando ouvir o que não queria.

Ao ser aberto o microfone para os jornalistas dirigirem as perguntas aos que restaram na mesa para atendê-los, ao primeiro repórter caberia perguntar: “o que aconteceu com o ministro, que não pôde estar aqui para responder aos nossos questionamentos?” A segunda: “por que convocou uma coletiva, se não tinha disposição para nos atender?”

O ministro, no melhor estilo dos covardes, em vez de enfrentar as questões dos profissionais de imprensa, antes de deixar a mesa, preferiu repassar o esporro que recebeu de cima e não digeriu. Perdeu a chance de esclarecer, não à mídia, mas ao país, que quer saber: a quem ele vai obedecer? À urgência do povo brasileiro, em receber a vacina, ou ao chefe que o obriga, em uma live, falar mal do remédio aguardado ansiosamente? 

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