Educação dilacerada

Podemos considerar normal que mais da metade dos estudantes do Estado mais rico do País tenham medo de caminhar nas proximidades dos locais onde estudam? Ou aceitar passivamente que um vereador invada salas de aula a fim de constranger professores e submetê-los a patrulhamento ideológico, como fez Fernando Holiday (MBL/DEM)?

Volta �s Aulas na rede estadual de ensino. Cr�dito: Osvaldo Afonso/Imprensa MG Data: 06-02-2012 Local: Escola Estadual Leon Renault
Volta �s Aulas na rede estadual de ensino. Cr�dito: Osvaldo Afonso/Imprensa MG Data: 06-02-2012 Local: Escola Estadual Leon Renault (Foto: Beth Sahão)

"Estou dilacerada". Este foi desabafo da professora Márcia Friggi, agredida a socos por um estudante, após encaminhá-lo à direção da escola onde leciona, na cidade de Indaial, em Santa Catarina. A agressão ocorreu no dia 21 de agosto e a imagem de seu rosto desfigurado pela violência percorreu o Brasil, provocando um misto de comoção e revolta na sociedade.

À primeira vista, pode parecer um exercício de obviedade questionar as razões pela qual esse caso obteve enorme repercussão. Afinal, as marcas da violência na face da professora Márcia falam por si.

Poderíamos, porém, tentar analisar o caso para além de seus aspectos individuais. Antes de Márcia Friggi, quantas centenas (para não dizer milhares) de professores e professoras não foram vítimas de diferentes formas de violência neste país, dentro e fora da sala de aula?

Nossa sociedade, que agora, de maneira correta, indigna-se ante a violência covarde sofrida por uma educadora, tem sistematicamente feito vistas grossas ao massacre diário a que os profissionais do magistério e estudantes são submetidos.

Dados obtidos em questionários respondidos por professores de português e matemática do 5º ao 9º ano, de escolas que participaram da Prova Brasil em 2015, revelam que 51% desses educadores já presenciaram agressões físicas ou verbais de estudantes a funcionários.

Os números mostram que 9% dos professores disseram ter sofrido ameaças de algum aluno. Além disso, 71% deles relataram ter conhecimento de agressões físicas ou verbais cometidas por estudantes a outros alunos.

Em São Paulo, de 2014 a 2016, foram registradas 5.677 agressões físicas ou verbais contra alunos, professores ou funcionários de escolas estaduais, o equivalente a 5,1 casos por dia. Observe-se que estamos diante apenas de situações que constam no Registro de Ocorrências Escolares, da Secretaria Estadual de Educação, que reúne informações fornecidas por cerca de 5 mil instituições de ensino paulistas.

Podemos supor, portanto, que são grandes as chances de essa forma de violência ser subnotificada, já que nem todas as agressões ocorridas dentro ou nos arredores das escolas chegam ao conhecimento das direções e do corpo docente.

Isto se torna mais claro quando analisamos a sensação de insegurança da comunidade escolar. Pesquisa de 2013 realizada pelo Instituto Data Popular em parceria com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) mostra que 26% dos docentes que atuavam em bairros centrais não se sentiam seguros nas escolas onde trabalhavam. Entre os estudantes, esse índice chegava a 56%.

Quando foram ouvidos os professores e alunos das escolas da periferia, a sensação de insegurança alcançava 41% e 60%, respectivamente. Da época em que a pesquisa foi feita até agora, é pouco provável que esses números tenham melhorado no Estado ou no País.

Muito antes de a professora Márcia Friggi ser covardemente agredida dentro de uma escola, a educação pública paulista já se encontrava dilacerada. Com o agravante de que muita gente preferia ignorar o problema.

Podemos considerar normal que mais da metade dos estudantes do Estado mais rico do País tenham medo de caminhar nas proximidades dos locais onde estudam? Ou aceitar passivamente que um vereador invada salas de aula a fim de constranger professores e submetê-los a patrulhamento ideológico, como fez Fernando Holiday (MBL/DEM)?

E o que dizer dos R$ 25 bilhões (R$ 40 bi, em valores atualizados) que o Governo de São Paulo desviou da educação, entre 2010 e 2016, para cobrir o rombo do Fundo de Previdência dos Servidores Públicos (SPPREV), caso este que foi denunciado pelo Ministério Público de Contas do Estado? Pensemos ainda na penúria que atingirá nossas escolas por conta da Emenda Constitucional 95, que limita drasticamente as despesas dos governos pelo período de 20 anos.

Em São Paulo, para parafrasearmos o antropólogo Darcy Ribeiro, o desmonte da educação não é resultado de uma crise, mas sim de um projeto do governo tucano, que está há mais de 20 anos no poder.

Aprovação automática, congelamento dos salários dos professores, fechamento de salas de aula, desvio de recursos da merenda escolar. Estes são alguns dos legados de nosso "eterno" governador Geraldo Alckmin na área da educação.

Para resgatar nossas escolas dilaceradas, precisamos, antes de mais nada, dar um basta ao modelo implantado pelos tucanos no Estado, que trata educação como gasto a ser extirpado, e não como um investimento fundamental para a sociedade. Somente com essa mudança de paradigma teremos condições de valorizar os profissionais do magistério e oferecer condições dignas de aprendizagem às nossas crianças e adolescentes

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