Educação forma profissionais, mas quem forma mentes livres?
Nunca houve tantos diplomas e tão pouca coragem de pensar. Sem filosofia no centro, a escola entrega certificados, mas não autonomia
A palavra filosofia carrega, em sua própria origem grega, uma tomada de posição. Philo, amor. Sophia, sabedoria. Não é detalhe filológico; é um programa civilizatório. Num tempo que exalta desempenho, riqueza e vitória retórica, escolher amar a sabedoria desloca o eixo da vida pública e privada. Muda a hierarquia das ambições.
Comecemos por uma constatação incômoda: somos cada vez mais escolarizados, mas não necessariamente mais sábios. A educação contemporânea, estruturada para responder a métricas, rankings e exigências de mercado, costuma ensinar o que pensar sobre economia, política ou ciência. Raramente dedica o mesmo empenho a ensinar como pensar. A distinção é decisiva. Transferir conclusões produz conformidade eficiente. Cultivar julgamento produz autonomia.
Essa crítica não vem de nostálgicos do passado. A filósofa norte-americana Martha C. Nussbaum, professora da Universidade de Chicago e uma das vozes mais influentes do debate público contemporâneo, alerta há anos que democracias precisam de cidadãos capazes de raciocínio crítico e imaginação moral. Em obras como Sem fins lucrativos, ela sustenta que sistemas educacionais excessivamente orientados para o lucro correm o risco de formar “máquinas lucrativas” em vez de seres humanos capazes de examinar o mundo com independência.
Essa independência intelectual tem raízes antigas.
No século V a.C., em Atenas, Sócrates caminhava pela ágora interrogando certezas. Não oferecia cartilhas; oferecia perguntas. Sua convicção era simples e perturbadora: a sabedoria não pode ser depositada na mente como conteúdo bancário. Precisa ser despertada pelo confronto com as próprias contradições. É um método exigente, porque desloca o aluno da posição confortável de receptor para a posição inquieta de examinador.
Ao longo dos séculos, essa tradição de vigilância do pensamento foi reafirmada em contextos dramáticos.
Hannah Arendt, filósofa alemã do século XX que analisou o totalitarismo após a experiência do nazismo, advertiu que a ausência de reflexão crítica abre espaço para a banalização do mal. Para ela, pensar é manter um diálogo rigoroso consigo mesmo, recusando a obediência automática. Filosofia, nesse sentido, torna-se autodefesa intelectual.
Não se trata de abstração acadêmica. Hoje, inúmeras vozes disputam nossa crença a cada minuto, em redes sociais, plataformas digitais e discursos oficiais. Sem treino filosófico, a mente tende a ceder à autoridade carismática ou à repetição incessante.
Com esse treino, aprende a perguntar: qual é o argumento? Quais premissas o sustentam? São justificáveis? Esse hábito altera a posição do indivíduo no espaço público.
É aqui que uma metáfora me vem à mente.
Numa época de tempestade informacional, a filosofia funciona como a caixa-preta de um avião atravessando turbulência severa. Ela não impede a turbulência, mas registra, analisa, organiza dados e permite correção de rota. Sem essa estrutura interna de análise, qualquer ruído pode parecer direção. Com ela, mesmo sob pressão, há critério.
Já no século IV a.C., Aristóteles definia educação como cultivo do julgamento — a capacidade de discernir o verdadeiro e o bom. Julgamento não se memoriza; exercita-se. Exige prática contínua de argumentação, escuta e revisão de posições.
Por isso, estudar filosofia não é luxo fútil e superficial, de quem não tem mais o que fazer. Bem ao contrário, trata-se de assumir responsabilidade pela própria mente.
A maior liberdade não é apenas política ou econômica. É cognitiva: a liberdade de pensar com clareza, examinar evidências e escolher conscientemente. E essa liberdade, indispensável numa sociedade plural e complexa, começa quando decidimos aprender a pensar — e não apenas o que pensar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
