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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Educação profissional no Brasil: o papel estratégico dos Institutos Federais (parte 2)

A perspectiva gramsciana nos ajuda a entender que o “Estado educador” não age de forma neutra.

Ensino profissional (Foto: Marcelo Camargo /Ag.Brasil)

Uma análise das políticas de educação profissional no Brasil recente revela projetos em conflito, cada um representando diferentes concepções de Estado, trabalho e formação humana

A perspectiva gramsciana nos ajuda a entender que o “Estado educador” não age de forma neutra. Ele organiza e dissemina concepções de educação que mediam as relações entre os interesses do capital e as demandas das classes trabalhadoras.  Nesse contexto, a educação profissional se torna um campo privilegiado para observar como essa mediação se estrutura. O Estado educador, portanto, é um instrumento de luta política. A classe dominante usa-o para manter a hegemonia, enquanto Gramsci propõe a disputa dessa função para construir uma nova hegemonia popular.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), consolidou-se um projeto de educação profissional fortemente influenciado por organismos multilaterais, como o Banco Mundial.  O Programa de Expansão da Educação Profissional (PROEP) e o Decreto nº 2.208/1997 materializaram uma visão baseada na formação por competências, na empregabilidade e na polivalência.  A ideia era estruturar uma educação voltada ao “aprender a fazer”, priorizando habilidades gerais, as comunicacionais, as cognitivas e de resolução de problemas, que permitissem aos trabalhadores se adaptarem às flutuações do mercado de trabalho na virada dos anos 1990.

Esse modelo separou o ensino médio da educação profissional, reforçando uma formação fragmentada e instrumental.  Nesse contexto, a função da escola era preparar uma força de trabalho flexível, ajustada às demandas técnicas da produção.  Trata-se de um projeto de formação e requalificação profissional alinhado à lógica de reprodução do capital, em que a educação é usada como instrumento para adequar os indivíduos às exigências do sistema produtivo, sem enfrentar as desigualdades no acesso ao conhecimento.

Só a partir dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010), houve uma inflexão importante nesse cenário.  Ainda que não haja uma ruptura total com os fundamentos anteriores, houve um deslocamento significativo na orientação das políticas públicas. O governo Lula partiu desses pilares para transformá-los e ampliá-los em uma perspectiva desenvolvimentista, na qual a educação profissional passou a ser vista como dimensão estratégica de um projeto de desenvolvimento nacional com inclusão social.

A revogação do Decreto nº 2.208/1997, por meio do Decreto nº 5.154/2004, reabriu a possibilidade de integração entre ensino médio e educação profissional, trazendo de volta a formação integral.  Nesse cenário, a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, em 2008, marcou um ponto de virada.  Mais do que aumentar o número de vagas, os Institutos Federais propõem uma nova visão da educação profissional, que integra ensino, pesquisa e extensão, tendo o trabalho como base educativa.

Os cursos técnicos integrados ao ensino médio se tornam fundamentais nesse projeto, buscando superar a antiga dualidade educacional brasileira. A formação deixa de ser vista apenas como treinamento técnico e passa a incluir dimensões científicas, culturais e críticas.  Isso permite que os estudantes compreendam os fundamentos sociais e tecnológicos da produção, e não apenas executem tarefas.

Essa mudança também deve ser vista em relação às transformações demográficas que o Brasil passou na primeira década dos anos 2000.  O país vivia o chamado bônus demográfico, com a maior parte da população entre 15 e 59 anos, ou seja, em idade economicamente ativa.  Nesse contexto, o Estado precisava formar e qualificar muitos trabalhadores para atender às demandas produtivas, ao mesmo tempo em que aumentavam as oportunidades de inclusão social.

Ao comparar os dois períodos, fica claro que a educação profissional no Brasil não pode ser vista apenas como política educacional, mas como reflexo de projetos de sociedade em disputa. De um lado, um modelo focado na adaptação da força de trabalho às demandas do capital; de outro, uma tentativa de afirmar a educação como direito e instrumento de desenvolvimento, integrando trabalho, ciência e formação humana.

Diante desse cenário, fica evidente que a educação profissional no Brasil vai além de uma política setorial: ela expressa, em última análise, o projeto de sociedade que se busca construir. A disputa entre uma formação subordinada às demandas imediatas do capital e uma educação comprometida com o desenvolvimento nacional e a formação integral dos indivíduos permanece atual e crucial.

No entanto, a continuidade e o aprofundamento dessa experiência não são garantidos.  Sua manutenção depende de decisões políticas concretas, como financiamento adequado, valorização dos profissionais da educação, expansão da rede e, principalmente, a defesa de um projeto educacional que não limite a formação humana às demandas imediatas do mercado.

Mais do que formar trabalhadores para ocupar postos específicos, o objetivo é formar indivíduos capazes de compreender, intervir e transformar a realidade em que vivem.  É nesse ponto crucial que se define o futuro da educação profissional no Brasil e, consequentemente, o próprio projeto de país.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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