Educar para a democracia ou para a obediência?
O papel histórico dos militares e a disputa pela formação da sociedade civil brasileira
A presença dos militares na vida política brasileira jamais foi um acidente histórico. Desde a proclamação da República, em 1889, as Forças Armadas passaram a ocupar um lugar central na organização do Estado nacional e na arbitragem dos conflitos políticos. Em diferentes momentos da história brasileira, setores militares assumiram para si a condição de intérpretes da nação, como se lhes coubesse uma espécie de tutela permanente sobre a sociedade civil.
Poucos autores brasileiros compreenderam tão profundamente esse processo quanto Nelson Werneck Sodré. General do Exército, historiador marxista e intelectual nacionalista, Sodré dedicou grande parte de sua obra à análise da formação social brasileira e do papel político dos militares. Em livros como História Militar do Brasil, A História da Sociedade Brasileira e Formação Histórica do Brasil, ele demonstra que o Exército brasileiro nasceu e se desenvolveu profundamente vinculado às classes dominantes e aos interesses de conservação da ordem social.
Sodré rejeitava a ideia romântica de neutralidade militar. Para ele, as Forças Armadas eram produto da própria estrutura econômica e política do país. Em História Militar do Brasil, afirma que os militares não poderiam ser compreendidos fora das relações de classe que organizavam a sociedade brasileira. O Exército imperial, por exemplo, consolidou-se muito mais como instrumento de manutenção da unidade territorial e repressão interna do que como força voltada exclusivamente à defesa externa.
Basta recordar a repressão brutal a movimentos populares como Canudos, a Revolta da Chibata, o Contestado e diversas greves operárias da Primeira República. Em todos esses episódios, os militares atuaram como braço armado das oligarquias e do Estado contra setores subalternos da população. Sodré via nessa trajetória uma herança profundamente autoritária da formação brasileira.
Ao mesmo tempo, a própria história militar brasileira também produziu movimentos contraditórios no interior das Forças Armadas. O tenentismo dos anos 1920 expressou parte dessa tensão. Jovens oficiais insurgiram-se contra a República oligárquica, denunciando fraudes eleitorais, corrupção e o domínio das velhas oligarquias agrárias. Embora marcado por limites políticos e forte influência do pensamento positivista, o movimento revelou um setor militar inconformado com a ordem vigente e identificado com a ideia de modernização nacional. Dali emergiram figuras que marcariam profundamente a história política brasileira, como Luiz Carlos Prestes, cuja trajetória atravessaria o nacionalismo, o socialismo e a luta popular, transformando-o em uma das maiores lideranças políticas do século XX e do Partido Comunista do Brasil até o informe de Nikita Kruschev, causando a ruptura que gerou duas alas: uma reformista, alinhada a Moscou e à coexistência pacífica; e uma radical, que resultou na criação do PCdoB em 1962 e no consequente abandono da chamada “via pacífica".
A Coluna Prestes, ao percorrer milhares de quilômetros pelo interior do Brasil, expôs o abandono social do país profundo e simbolizou, naquele momento, a possibilidade de aproximação entre setores militares e demandas populares. Nelson Werneck Sodré enxergava nessas experiências as contradições de um Exército que, embora vinculado estruturalmente às elites, também refletia conflitos presentes na própria sociedade brasileira.
Talvez por isso seja possível pensar determinados segmentos militares como uma espécie de casta contemporânea. Evidentemente, não se trata de castas formais como na Índia, mas de grupos corporativos fortemente fechados em si mesmos, portadores de privilégios específicos e de uma visão de mundo frequentemente apartada da sociedade civil. Há um ethos próprio que se reproduz institucionalmente e que alimenta a percepção de pertencimento a uma elite moral destinada a conduzir a nação.
Sodré ajuda a compreender que esse fenômeno não nasce apenas da caserna. Ele decorre da própria formação histórica brasileira, marcada por escravismo, concentração fundiária, modernização conservadora e recorrentes interrupções autoritárias da vida democrática. Em uma sociedade civil historicamente frágil, elites econômicas e setores militares frequentemente se aproximaram para conter processos de democratização social.
Nesse sentido, o debate sobre as escolas cívico-militares torna-se profundamente revelador. Afinal, qual concepção de sociedade está presente na ideia de militarizar parcialmente a educação pública? O que significa educar jovens civis sob valores centrados na disciplina rígida, na hierarquia e na obediência?
A comparação com Esparta ajuda a iluminar o problema. A educação espartana era orientada para formar soldados disciplinados e servidores absolutos do Estado. A vida coletiva subordinava-se à lógica militar. Já Atenas, apesar de suas limitações históricas e exclusões sociais, legou à modernidade uma tradição fundada no debate público, na filosofia, na política e na formação humanista.
A escola pública democrática não pode abdicar dessa herança civilizatória. Sua função não é produzir obediência automática, mas formar sujeitos críticos, capazes de interpretar a realidade, participar da vida pública e conviver com a diversidade social e política.
Nelson Werneck Sodré compreendia que a democratização brasileira dependia do fortalecimento da sociedade civil e da superação das estruturas oligárquicas herdadas do passado. Talvez esse continue sendo um dos grandes desafios nacionais. Educar para a civilização significa justamente afirmar a política, a cultura, a ciência e a cidadania acima da lógica tutelar das armas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

