Efeméride: Povo libanês derrota pela 2ª vez os agressores israelenses

A Resistência libanesa foi capaz de vencer, apesar dos criminosos bombardeios da aviação israelense durante 33 dias em julho e agosto de 2006

Combatentes fincam no terreno as bandeiras do Líbano e do Hezbollah, marco da vitória contra os agressosres israelenses
Combatentes fincam no terreno as bandeiras do Líbano e do Hezbollah, marco da vitória contra os agressosres israelenses (Foto: Reuters)


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Por José Reinaldo Carvalho, 247 - O dia 14 de agosto de 2006, quando começou a vigorar o cessar-fogo estabelecido pela Resolução 1701 do  Conselho de Segurança da ONU, entrou na história como mais uma vitória do povo libanês sobre o Estado sionista de Israel, que durante 33 dias perpetrou um massacre contra o Líbano, em mais um episódio em que as forças armadas desse regime genocida cometeram crimes de guerra e de lesa-humanidade. A data assinala uma derrota do Estado agressor de Israel e dos seus sustentáculos e financiadores, o imperialismo estadunidense. Os Estados Unidos foram obrigados a recuar, devido ao seu isolamento internacional. Dias antes da decisão do organismo multilateral, a então secretária de Estado, Condoleezza Rice, tinha dado declarações contrárias à suspensão dos bombardeios, alegando que se tratava do nascimento do novo Oriente Médio. O assassínio de libaneses pelos aliados israelenses dos EUA eram, na opinião da responsável pela execução da política externa, "as dores do parto de um novo Oriente Médio". Ela dizia que era "muito cedo para um cessar-fogo sustentável", porque "Israel está apenas exercendo o seu direito à autodefesa e os Estados Unidos apoiam este direito".

Mais uma vez, apesar do massacre e da posição estadunidense, os libaneses venceram uma guerra contra Israel, graças à resistência nacional encabeçada pelo Hezbollah. 

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A guerra 

Em julho de 2006, alegando represália a ações de militantes do Hezbollah, Israel lançou uma campanha militar maciça contra o Líbano, usando bombardeios aéreos e terrestres que causaram devastação em áreas civis, incluindo infraestruturas vitais como estradas, pontes, hospitais e instalações elétricas. Esses ataques indiscriminados resultaram em um número alarmante de mais de 1.200 mortos e centenas de feridos entre a população civil. Foi uma violenta e devastadora guerra que abalou a região do Oriente Médio. A comunidade internacional testemunhou mais uma vez os horrores da guerra e a flagrante violação dos direitos humanos e da soberania nacional do Líbano por Israel.

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Na época, foram intensamente denunciadas por amplas forças democráticas em todo o mundo as graves violações perpetradas por Israel, incluindo o uso de munições cluster (fragmentação) em áreas densamente povoadas, que continuaram a representar uma ameaça para os civis mesmo após o término do conflito. Essas ações flagrantemente desrespeitaram as normas internacionais que proíbem ataques indiscriminados e visam a proteção de civis durante conflitos armados.

Além dos ataques diretos à população civil, a soberania nacional do Líbano foi severamente comprometida durante o conflito de 2006. Israel não apenas violou o espaço aéreo e terrestre do Líbano, mas também impôs bloqueios marítimos, prejudicando gravemente a economia do país. Essas ações desrespeitaram os princípios fundamentais do direito internacional que garantem a soberania e a integridade territorial de cada nação.

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A segunda guerra israelense contra o Líbano deixou um rastro de destruição e sofrimento que ainda afeta a região até hoje.

A tragédia de 2006 é uma lembrança sombria da necessidade de buscar soluções pacíficas para os conflitos regionais e de proteger os direitos humanos e a soberania nacional de todos os povos.

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A agressão israelense ao Líbano durante os meses de julho e agosto de 2006 não pode ser compreendida apenas como um conflito convencional entre duas nações. Ela carrega características que remetem a práticas imperialistas e genocidas, lançando uma luz perturbadora sobre os motivos subjacentes e os impactos devastadores dessa ação militar. Desde a sua fundação, Israel busca a hegemonia na região do Oriente Médio, como cabeça de ponte do imperialismo estadunidense. A ofensiva militar de 2006 contra o Líbano se enquadra nesse padrão, já que Israel não apenas alvejou posições do Hezbollah, mas também lançou ataques massivos contra alvos civis e infraestruturas vitais do Líbano. 

A postura da então Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, em relação à resolução do conflito é intrigante. Sua declaração sobre o "nascimento do novo Oriente Médio" foi uma clara tentativa de justificar e promover os interesses geopolíticos dos EUA e de Israel na região. Essa visão é uma reiteração de concepções e práticas imperialistas, buscando redesenhar a região de acordo com os interesses estratégicos dos EUA. 

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A solidariedade internacional ao Líbano 

Após a entrada em vigor do cessar-fogo, o Líbano estava diante de uma tarefa hercúlea: reconstruir não apenas as infraestruturas danificadas, mas também restabelecer a vida normal para suas comunidades devastadas. Nesse contexto, o Hezbollah, com o apoio do Partido Comunista Libanês, a Tribuna da Unidade Nacional, o Movimento do Povo e a Rede das Associações, organizou entre os dias 16 e 19 de novembro, a Conferência Internacional de Resistência e Reconstrução, que reuniu uma variedade de participantes globais. A conferência foi notável por sua diversidade de participantes. Organizações políticas, sociais e não governamentais de diferentes partes do mundo, incluindo representantes progressistas de comunidades judaicas, reuniram-se para discutir os desafios da resistência e da reconstrução. A presença de grupos de várias origens, linhas políticas e ideologias demonstrou o desejo de buscar soluções e perspectivas multidimensionais para os problemas enfrentados pelo Líbano.

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A conferência não se limitou a discutir os aspectos militares da resistência. Em vez disso, focou-se na resistência como um conceito amplo, incluindo a resistência cultural, econômica e política. Além disso, a discussão sobre reconstrução abordou não apenas a infraestrutura física, mas também a necessidade de reconstruir comunidades e relações sociais.

A iniciativa de organizar uma conferência internacional após a guerra de 2006 ofereceu uma perspectiva alternativa sobre o conflito e suas consequências. Enquanto o foco midiático se concentrou em grande parte nos combates e nas ações militares, a conferência destacou o papel das organizações não governamentais e da sociedade civil na construção de um futuro mais resiliente e sustentável para o Líbano.

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A Conferência Internacional de Resistência e Reconstrução enfatizou a importância da resistência em suas várias formas, além da reconstrução das comunidades afetadas. Neste Encontro Internacional participaram mais de 400 pessoas representando cerca de 130 organizações, como partidos políticos comunistas e progressistas, sindicatos, organizações e redes de variados tipos provenientes do Oriente Médio, Europa, América Latina e Ásia, personalidades e organizações internacionais relevantes como o Conselho Mundial da Paz. Dentre os partidos políticos presentes destaca-se a participação de vários partidos comunistas e progressistas provenientes da Bélgica, Brasil, Chipre, Índia, Itália, Grécia, Jordânia, Palestina, Portugal, Síria, Sudão, República Tcheca, Turquia, entre outros. 

Tive a honra de participar, como dirigente nacional do Partido Comunista do Brasil, na época seu secretário de Política e Relações Internacionais, e diretor do Cebrapaz - Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz. 

Da tribuna do Encontro, declarei, certo de refletir o sentimento de milhões brasileiros, que estava ali para "manifestar a solidariedade à resistência do povo libanês, vítima da guerra e de ações agressivas feitas com falsos pretextos que, na verdade, obedeciam aos ditames do expansionismo israelense e do plano de reestruturação do Oriente Médio, concebido pelo imperialismo norte-americano”. Enfatizei ainda que a agressão israelense significava o desrespeito aos direitos do povo. “Foi uma guerra que, além de golpear a soberania libanesa e causar a perda de vidas humanas e imensos danos econômicos e materiais, constitui uma violação flagrante ao direito internacional”.

Nos dias 18 e 19 de Novembro os representantes internacionais visitaram os bairros de Hared Heorik e Bir Al-Abed nos subúrbios a Sul de Beirute e todo o Sul do Líbano, designadamente as cidades de Saida e Tir e as vilas de Canaa, Rmaich e Bent Jbail, locais quase integralmente destruídos pela agressão israelense e onde se pode constatar os massacres perpetrados pelas forças armadas do Estado sionista. Foram rematados crimes de guerra e de lesa-humanidade. 

O Encontro Internacional foi uma grande demonstração de solidariedade com a resistência do povo libanês e demais povos do Oriente Médio. Adotou uma Declaração final que reafirma a solidariedade dos participantes para com os movimentos que prosseguem corajosamente a resistência contra as agressões, pressões e ingerências imperialistas e sionistas na região. 

Entre os pontos práticos do encontro estão a abordagem, no âmbito jurídico, das gestões necessárias para levar Israel à Corte Penal Internacional, defender as vítimas das ações militares israelenses e realizar um Tribunal dos Povos, nos moldes do Tribunal Russell. Além disso, foram tomadas diversas decisões visando à reestruturação do país, dadas a escala de destruição e as necessidades da população. Um ponto ressaltado pelo documento é a criação de uma rede árabe coordenada como forma de unir os árabes na resistência contra o imperialismo. O documento lembra ainda que o encontro tem por meta criar as bases de um processo dentro do marco político da reação à guerra. Embora não tenha caráter conclusivo, o encontro possibilitará a criação de ferramentas para o trabalho permanente do movimento libanês. “O objetivo é melhorar a capacidade de resistência frente o novo ataque imperialista e dar um passo mais adiante,saltando de uma ação de coordenação a uma ação efetiva”, ressalta o texto.

“A agressão colocou na ordem do dia o modelo que o novo imperialismo tenta estabelecer nos âmbitos político, econômico e social. É o modelo mais forte de hegemonia, que desrespeita todas as normas que organizam as relações sociais e o poder. É a selva”, alerta o texto dos organizadores.

Além disso, os libaneses ressaltam que “os Estados Unidos da América anunciaram que a guerra do Líbano teria como objetivo criar um ‘novo Oriente Médio’. Anteriormente, Washington havia declarado que sua guerra no Iraque iria estabelecer um ‘grande Oriente Médio’. Para dominar o Iraque, os EUA fizeram o possível para desmembrar o país, produzindo uma guerra civil e o banho de sangue de que somos testemunhas”, completando que, “ao mesmo tempo, o governo estadunidense desenvolve estratégias que complementam as ações militares para provocar sanguinários enfrentamentos internos que levam ao caos e à desintegração do Líbano”.

O documento diz que, frente à “maquinaria de guerra tão bárbara e brutal”, a resistência do povo libanês consiste na “não submissão daqueles que viram cair milhares de bombas sobre suas cabeças, na eficácia da força combativa da resistência que fez o agressor sofrer grandes perdas apesar de sua superioridade armamentista; e na presença de uma ampla corrente política e popular que compartilha dessa visão e que se mostrou coesa e coordenada, apesar de estar composta por forças de grande diversidade intelectual e ideológica”. Por fim, os organizadores lembram que “os libaneses, independentemente de suas convicções políticas, conheceram um orgulho particular porque seu pequeno país pôde fazer frente a esta máquina de guerra esmagadora e conseguiu frustrar seus planos”.

Merece registro destacado o pronunciamento do secretário-geral do Partido Comunista Libanês, Khaled Hadade, marcado pela emoção e entusiasmo. Interrompido em diversas oportunidades por estrepitosos aplausos, o camarada Khaled  lembrou que não foram poucos os líderes políticos libaneses que acusaram de aventureirismo a Resistência e apelaram pelo desarmamento, mas que, em contraste, não foram poucos os líderes revolucionários, inclusive alguns dirigentes de partidos comunistas irmãos que vieram se somar ao povo libanês no momento em que o país estava sendo bombardeado e disseram ao povo libanês: “Vocês vencerão". 

Khaled Hadade também se referiu às relações do PC com a religião islâmica: ” Os comunistas libaneses, e em todo o mundo árabe, estavam antes em conflito com os religiosos islâmicos e não faltaram mesmo dirigentes de esquerda que se prestaram a se aliar aos imperialistas norte-americanos para combater o fundamentalismo islâmico. Mas a resistência libanesa mostra outro cenário – que é possível a união para lutar e derrotar o imperialismo, união sobre bases democráticas e sem discriminações mútuas.”

O dirigente comunista demonstrou que a base dessa união não poderia ser outra senão a luta: “O PCL respeita e venera o sangue derramado pelos comunistas na anterior guerra civil e também nesta última guerra, durante a resistência aos ocupantes e agressores israelenses. Orgulhamo-nos também de ter derramado o nosso sangue lado a lado com os combatentes do Hezbolháh”.  Na opinião de Khaled Hadade, não só os imperialistas norte-americanos e os sionistas israelenses foram derrotados, mas também os regimes árabes antidemocráticos e o próprio regime confessionalista e comunitarista libanês, baseado na representação das comunidades religiosas nos poderes nacionais.

A diplomacia solidária de Lula e Amorim

Registro também que dias antes da decisão do Conselho de Segurança da ONU, o chanceler Amorim visitou o Líbano levando ajuda humanitária doada pelo governo brasileiro às vítimas da agressão:  2,5 toneladas de medicamentos. 

Já o presidente Lula endereçou cartas a autoridades do Egito, da Síria e da Turquia, além do secretário-geral da Liga dos Estados Árabes, e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, oferecendo o apoio aos esforços diplomáticos pela cessação dos bombardeios, o fim imediato das hostilidades e a obtenção de uma "paz negociada, justa e duradoura entre Israel e Líbano".  

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