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Adilson Roberto Gonçalves

Pesquisador científico em Campinas-SP

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Ele bagunçou o coreto da República

Bolsonaro foi o pior presidente da história do Brasil, o que menos trabalhou e o que autorizou o desmonte do Estado

Ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do deputado federal Alexandre Ramagem 06/10/2024 (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)
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Na semana passada contei aos leitores que participei de uma maratona de audiências e, graças ao trabalho de muita gente, conseguimos pagar noventa e um reclamantes, de um total de cento e nove audiências realizadas. 

O espírito conciliatório, que vem se perdendo espaço na Justiça do Trabalho, foi colocado de maneira quase central, no centro, em verdade, estão o Direito e a decisão do trabalhador; contei que encontrei colegas de várias gerações, ex-alunos que hoje são advogados de sucesso, além de amigos da vida toda.

Na semana que se seguiu almocei com um dos colegas, ele queria seguir o “papo”, especialmente porque quando ele me perguntou qual o legado do Bolsonaro na presidência eu disse: “nenhum, ele apenas bagunçou o coreto”, ele riu e não desenvolvemos, naquele momento, o significado da expressão.Durante o almoço, depois de falarmos que a PONTE PRETA perdeu, pelo menos, nove pontos em casa, o que é preocupante, definimos que "Bagunçar o coreto" é uma expressão coloquial que significa causar confusão, atrapalhar os planos ou arruinar algo. É uma forma informal de dizer que algo foi prejudicado ou que algo está fora de ordem.

Eu disse ao colega que o bolsonarismo e toda a lógica neofascista, teocrática e ultraliberal que ele representa, bagunçou o coreto e trouxe personagens desprezíveis para a ribalta da política nacional.

Hoje vemos idiotas nas redes sociais fazendo impensável sucesso, eles são vereadores, deputados, senadores, governadores, sem conhecimento dos movimentos e das demandas sociais verdadeiras, sem projeto para as suas cidades, estados e para o país, são pessoas que, como zumbis pútridos, atacam e ofendem pessoas, quando deveriam se opor a ideias e projetos ou, contrapô-las com outras ideias e outros projetos; as “pautas de costumes” são uma cortina de fumaça para a destruição da institucionalidade vigente e criação do Estado teocrático, neofascista e ultraliberal que o bolsonarismo representa.

Disse a ele que ninguém pode alegar surpresa, pois, num jantar com lideranças conservadoras em Washington, o já presidente Jair Bolsonaro, ainda no comecinho do seu desastroso mandato, disse aos presentes que o sentido de seu governo não era construir coisas para o povo brasileiro, mas desconstruir.

Ele disse ainda que, depois da etapa da desconstrução, pois, segundo ele, “... sempre sonhei em libertar o Brasil da ideologia nefasta de esquerda (...). O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”.

Ou seja, Bolsonaro é um néscio, forjado pela vida com vícios redibitórios, contaminado pela teoria do “inimigo interno”, pelo medo de um comunismo inexistente no Brasil (salvo nos debates acadêmicos e por meia dúzia de partidos histriônicos que não representam ninguém) e por fantasias sem qualquer fundamento na contemporaneidade, mas que o assombram.

Já escrevi a Constituição de 1988, de caráter social-liberal, não tem dado conta de manter o pacto político, que há evidente esgarçamento nas relações institucionais, contudo, um processo político dialético nos levaria, sem stress institucional, a outro pacto político, contudo, Bolsonaro (eleito na onda da (a) antipolítica (logo ele que vive desde 1989 da politica e que colocou seus filhos, suas ex-mulheres e esposa em cargos públicos); (b) das marchas de junho de 2013 (que ninguém entendeu bem o que eram, ou o que foram, aqueles movimentos que trouxeram a extrema-direita do esgoto para o protagonismo político e (c) a Lava-Jato, fraude que prestou serviços aos interesses das Big Oil e ao Departamento de Estado os EUA), bagunçou tudo com a ajuda dos falsos pastores, das redes sociais sem regulação, do mercado financeiro e, lamentavelmente, de parte da mídia.

Bolsonaro foi o pior presidente da história do Brasil, o que menos trabalhou e o que autorizou o desmonte do Estado, além, como sobredito, ter legado ao país zumbis malvados que transitam na ribalta política e o pior, tentou um Golpe de Estado.

“Qual a solução?”, perguntou o meu amigo.

Eu acredito que tenhamos que seguir críticos aos erros dos poderes e das instituições, não para “desconstruí-las”, como queria Bolsonaro, mas para aperfeiçoá-las; acredito que o único caminho é a Política, a ética e a honestidade nas nossas ações e palavras; acredito que o Estado deva continuar laico; que ele [o Estado] não existe para atender o “mercado”, mas à sociedade; acredito que o respeito à pluralidade de ideias é a essência do nosso pais e a nossa, o povo brasileiro, contudo, não podemos ser tolerantes com ideologias totalitárias e autoritárias, como o fascismo representado pelo bolsonarismo, saudoso da ditadura e simpático à tortura e à morte de adversários.

“Você apoia todas as ações do STF?”, perguntou o amigo.

Bem, o STF não precisa ser apoiado, mas a pergunta escondia o incomodo que o protagonismo do STF causa em alguns; o que posso dizer é que, como os partidos políticos, da esquerda à direita democrática, estão mais preocupados com as próximas eleições do que verdadeiramente com a democracia, coube ao STF colocar ordem na bagunça, mas passou da hora de o STF deixar a ribalta e dos partidos assumirem o protagonismo do debate.

Estávamos terminando o almoço - que foi no ÚNICO no Cambuí, que passou a ser meu restaurante favorito, que sob o comando do Chef Jurandir Meirelles é muito especial -, já havíamos pedido a conta, eu já havia falado muito, demais até, então eu disse a ele: “a solução é a PONTE ser campeã da Série C e voltar à série B, pois, esse é o meu mais genuíno desejo, ao lado do desejo de felicidade e saúde da minha família (especialmente da Isabela e da Clarice, minhas netas)”, rimos.

Essa é a historinha e essas são as reflexões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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