Ele é covarde, mas é meu amigo - DJ Ivis (Feat: Tirulipa)

DJ Ivis é covarde, agressor de mulheres, feminicida em potencial, mas é amigo de Tirulipa e de muitos outros homens que, quando não se calam diante do fato, perdoam o “defeito” em nome da amizade

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Como se dizia em tempos arcaicos, quem sai aos seus não degenera. Para corroborar com o dito, o humorista Tirulipa herdou de seu pai, o também humorista Tiririca, o dom da amizade. Sucesso nos anos 90, a música “Ele é corno, mas é meu amigo”, produzida pelo saudoso Arnaldo Saccomani, trazia em sua letra debochada uma relação entre amigos que ia além dos defeitos e imperfeições que o outro pudesse ter. Como já disse Milton Nascimento, amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito.

O problema é que Tirulipa resolveu reproduzir o tema da canção composta e gravada por seu pai, num momento em que a amizade deveria ser posta de lado. Ao gravar um vídeo se posicionando de forma piedosa e compreensiva com o seu amigo DJ Ivis, preso por ter o "defeito" de agredir violentamente a própria esposa, o parceiro de dança de Luciano Hang, dono da Havan, demonstra muito mais cumplicidade com o fato, do que amizade com o autor do crime. Eu sei que a música de Tiririca diz que “um amigo é ‘pa’ acudir outro”, mas Tirulipa não deveria acudir um homem que bate em mulher.

Até porque, os tais “defeitos” do amigo que são citados no famoso hit, não imputam crime a ninguém. Ser corno, “veado”, “baitola” e fofoqueiro, não se iguala a quem se diz homem, mas age como um animal selvagem e irracional. Com todo respeito aos animais selvagens e irracionais, que não costumam agredir suas fêmeas. Para piorar, Tirulipa evoca Jesus Cristo para pedir misericórdia e uma nova chance para o DJ agressor. Ele também profetiza que Ivis sairá da cadeia “transformado” e um novo homem. Só faltou cantar:  "Ele é covarde, mas é meu amigo. Bate em mulher, mas é meu amigo. É filho da pátria, mas é meu amigo . Ele pode ser canalha, mas é meu amigo"

Amizade é a melhor coisa do mundo. Porém, não se deve tratar uma atitude criminosa de um amigo como um simples defeito. Tirulipa não deve estar ciente dos números que apontam o crescimento assustador da violência contra as mulheres no Brasil. Só em 2020, foram registrados oficialmente 1.338 casos de feminicídio, dos quais, 320 deles ocorridos no Ceará, terra de Tirulipa e do seu amigo Ivis. Computando a segunda maior taxas de assassinatos de mulheres no país. Não é admissível que isso continue a ser naturalizado ou relativizado pela sociedade.

O combate eficaz ao feminicídio, não passa pelo processo de tentar limpar a imagem dos homens que cometem esse crime, os apresentando à sociedade como pessoas boas que “apenas” tem o defeito de agredir e matar mulheres. Por sorte, a esposa de Ivis não faz parte da estatística. Mas poderia fazer. Ou será que devemos esperar o nosso amigo matar a mulher, para desfazermos a amizade com ele? DJ Ivis é covarde, agressor de mulheres, feminicida em potencial, mas é amigo de Tirulipa e de muitos outros homens que, quando não se calam diante do fato, perdoam o “defeito” em nome da amizade.

A amizade é a melhor coisa do mundo. Mas também pode ser a pior.

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