Eleições: o copo meio cheio ou meio vazio, a realidade em números e a esperança chamada Boulos

Sempre soubemos que as eleições de 2020 seriam o grande mostrador de onde estamos politicamente em termos de força de resistência

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por Jean Goldenbaum

Chegamos finalmente ao meio do caminho. Meio mandato bolsonarista, distopia estruturada, dezenas de milhares de corpos mortos, em um país liderado por psicopatas, obscurantistas que encabeçam o Neonazifascismo no planeta. Já perdemos o controle de todas as alucinações que ocorrem no Brasil diariamente e há a impressão de que agora muitos seguem em frente “em piloto automático”, lutando enquanto e como possível, esperando que um novo capítulo se mostre.

Sempre soubemos que as eleições de 2020 seriam o grande mostrador de onde estamos politicamente em termos de força de resistência. Qual é o tamanho e o poder da Esquerda após todos os golpes meticulosamente deferidos a ela? Essa era a pergunta de ouro – ao menos para muitos de nós. 

Este novembro foi inspirador. Fomos de certa forma alentados pelas eleições estadunidenses, nas quais – ame-se Biden ou não – Trump foi realmente derrotado e agora se humilha através de seu doentio comportamento diante até mesmo de seus antigos aliados, a mídia corporativa e mainstream. Nos entusiasmamos também ao assistir Evo retornar à Bolívia acompanhado de Alberto. Faltava só algo muito positivo no Brasil.

Passados dois dias das eleições, ao que me parece as impressões das pessoas da Esquerda são bastante variadas. É aquela velha metáfora do copo meio cheio ou meio vazio, guiada muitas vezes por otimismo ou pessimismo de cada um que a aborda. Trago então à cara leitora e ao caro leitor a minha análise a respeito dessa questão toda, na esperança de contribuir para com o desenvolvimento da compreensão das complexidades políticas em um país sobretudo labiríntico como o Brasil.

Pois bem, caras e caros, não encarem como pessimismo crônico, mas em minha opinião essas eleições provaram que continuamos a perder a guerra de maneira contundente. Deixo claro que meus estudos políticos são intimamente ligados às ciências estatísticas e à análise dos números que, ao meu modo de ver, devem vir antes de quaisquer concepções e óticas pessoais. Apresento aqui então os dados que fundamentam minha análise.

Primeiramente esclareço que para lidarmos com a ideia de Esquerda, temos de delimitar alguns valores que muitas vezes são subjetivos. Por isso pode-se haver variações entre as delimitações de diferentes analistas. No momento em que vivemos, entendo que dentro do espectro da Esquerda (leia-se Centro-esquerda, Esquerda e Extrema-esquerda) contemplamos cinco partidos, a seguir elencados em ordem de quantidade de filiações: PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL. Antes que me indaguem com relação à Rede Sustentabilidade, já esclareço que não a incluí neste rol graças à prepotente (e irreal) declaração de Marina Silva em 2013 de que o partido não é “nem direita, nem esquerda, estamos à frente”. Também deixei de fora outros partidos esquerdistas, como PCB, PCO, UP e PSTU, que são pequenos demais para fazerem qualquer diferença numérica, pois mal elegem vereadores.

Posto isso, vamos à matemática, afinal esta não mente. Primeiramente falemos da vereança. O bloco esquerdista possuía 11287 cadeiras espalhadas pelo país, e perdeu 1523, chegando ao número de 9764, uma perda de 13%. Se levarmos consideração as dez mais populosas cidades do país (todas elas capitais de seus estados), averiguaremos também uma queda, ainda que menor em relação ao país como um todo: de 112 cadeiras o bloco foi a 106.

Como vimos, estes são dados negativos e desanimadores. Mas há algumas positividades a serem celebradas. Uma delas é o fato de que em quatro das maiores cidades brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre, o bloco em questão chegou a aumentar em algumas cadeiras, ainda que timidamente. Mas a melhor notícia que tivemos diz respeito à diversidade das pessoas que comporão as novas câmaras municipais das capitais. Segundo o jornal Gênero e Número, 44% das cadeiras serão ocupadas por negras e negros. (Não entrarei no mérito dos partidos destas pessoas, porque não possuo estes dados no momento, mas registro aqui a minha posição de que a presença de pessoas negras em partidos direitistas caracteriza um imenso desfavor a esta comunidade, da mesma forma que o fez a absoluta minoria de negros que votou em Trump.) Mas seguindo no assunto diversidade, podemos também comemorar a eleição de quinze pessoas trans (sendo 11 por partidos de Esquerda, um de Centro e – pasmem – três de Direita), segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais.

Vamos então às prefeituras. Os cinco partidos em questão possuíam exatamente 1078 prefeituras sob sua liderança. Perderam nessas eleições 295 delas, caindo ao número de 783, o que configura um prejuízo de 27%. É verdade que o segundo turno ainda não ocorreu – falaremos sobre isso mais à frente – mas em termos numéricos ele não tem o poder de gerar grandes alterações, afinal dos mais de 5500 municípios brasileiros, somente 57 serão definidos em 29 de novembro.

Bem, sobre as prefeituras precisamos também falar sobre as 100 mais populosas cidades do país. Nestas a situação já era terrível antes das eleições, ao passo que somente 15 eram governadas por partidos de Esquerda (sendo que nenhuma destas 15 o era pelo PT). Destas 100 somente 43 já tiveram seus prefeitos definidos no primeiro turno, enquanto outras 57 o terão no segundo. Destes 43 somente um único é esquerdista, do PDT. Há esperanças de conseguirmos bons resultados em 29 de novembro? Claro, sempre carregamos conosco esta que é “a última que morre”. Mas ao falarmos de esperança, certamente deposito a minha maior em um único personagem: Boulos.

A campanha de Boulos foi impressionante desde o início. A presença carismática e histórica, dada a sua idade, de Erundina concedeu à jornada o toque especial que o membro do MTST precisava. A imagem de Boulos é hoje muito forte – inclusive muito mais forte do que o seu próprio partido, que coleciona o irrisório número de quatro prefeituras no Brasil. Este, ainda que componha interessantemente algumas das principais câmaras municipais do país, tem na cada vez maior figura de Boulos a sua essência.

Bem, e o que significaria uma vitória de Boulos? Ao meu modo de ver, isto mudaria totalmente o cenário pessimista que descrevo nesse artigo. Um político de fato progressista no comando da maior cidade da América Latina no momento em que o Brasil está sendo governado pelo Fascismo, seria algo que teria realmente potencial para começar a virar o jogo. Boulos não largaria a prefeitura para disputar a presidência (ele deixou isso muito claro), algo que deixaria toda a concentração da Esquerda em 2022 direcionada a Haddad (provavelmente ele, certo?). A Esquerda se consolidaria com uma tríade fortíssima: Boulos prefeito de SP, Haddad candidato forte à presidência, e Manuela (que não deve vencer em Porto Alegre) como sua vice, unindo – ao menos de certa forma – PT, PSOL e PCdoB.

Mas, dito tudo isso, é possível Boulos vencer? Possível é, mas vejam, alguns “astros” precisam se alinhar para que isto ocorra. Primeiramente França tem que decidir sair do seu cômodo território da isenção e apoiá-lo, como já sinalizou seu próprio partido e o PDT, seu partido vice. Em segundo lugar, precisamos “torcer” para que os eleitores de candidatos alinhados ao Fascismo (Russomanno, do Val e Hasselmann) não votem em Covas. É certo que eles detestam o Time Dória, do qual Covas faz parte, mas o desejo de não deixar um “comunista devorador de criancinhas” ganhar a eleição pode ser fator encorajador para que eles ajudem o tucano. A dúvida maior existe ao redor do apoio dos eleitores de Russomanno, que farão o que o cidadão que preside o país ordenar. Os eleitores dos outros dois se julgam superiores demais para apoiar qualquer outro candidato, e devem se abster.

Jilmar Tatto agiu de maneira corretíssima ao ser o primeiro a apoiar Boulos logo após a apuração dos resultados. O apoio do PT, reiterado por Haddad, é essencial para que o psolista mantenha suas chances. Há muitas discussões sobre o quão favorável ou quão prejudicial seria a imagem de Lula ao lado de Boulos nesse momento? Sim, há, e nem entrarei nesse mérito. Acredito que, feitas as equações, esta seria mais salutar do que nociva. E há a mesma discussão acerca da presença de Bolsonaro ao lado de Covas (ainda que somente através de um possível apoio de Russomanno). São as complexidades do jogo político.

Enfim, se Boulos vencer, poderemos comemorar sua vitória como comemoramos outros grandes feitos políticos em nossas vidas. Mas sinceramente não acredito que vá acontecer. Então a Esquerda brasileira de fato sai dessas eleições ainda menor do que entrou.

Então, já me encaminhando ao final, devo propor a pergunta: quem na realidade venceu as eleições? Bem, felizmente o Bolsonarismo também sofreu enorme golpe e perdeu muito espaço. A princípio, o Fascismo em si foi enfraquecido, mas não há o que celebrarmos, por duas razões: primeiramente, Bolsonaro ainda está no poder e enquanto estiver, o Fascismo segue muito vivo. E em segundo lugar, ainda que não tenha sido a “clássica Ultradireita bolsonarista de 2018”, a verdadeira vencedora foi simplesmente a Direita. Sim, a conservadora e tradicional Direita que, diga-se de passagem, não se acanha absolutamente em apertar as mãos dos fascistas, se necessário. E mais uma vez somos obrigados a averiguar os números: dos dez partidos que mais cresceram em números de prefeituras no país, todos os dez são direitistas. Os três primeiros são: Democratas, PP e Republicanos, que cresceram juntos xxx prefeituras e a partir de 2021 governarão xxx.

Em suma, pouco importa se PSDB e MDB decaíram. O establishment, o sistema, não dá a mínima a essas legendas, contanto que o status quo se mantenha intacto, ou seja, que nunca mais um Lula ou uma Dilma presidam o país. Desde que o velho coronelismo liderado por homens brancos ricos heterossexuais volte a reinar e mantenha a elite sendo elite e o pobre sendo pobre, pode ser qualquer legenda partidária. E assim, chegamos à conclusão derradeira de que essas eleições foram tudo o que Moro, Huck e cia. podiam sonhar. É o cenário perfeito para que eles ascendam ao poder em 2022 e normalizem a situação do Brasil-casagrande-senzala. E ainda se vangloriarão – sem nenhuma vergonha da hipocrisia – de serem aqueles que venceram a grosseria do Fascismo bolsonarista.

Encerro por aqui, mas não antes sem lamentar ainda mais um fato: o de quase um terço do país ter se esquivado de praticar a Democracia, se abstendo ou votando em branco ou nulo. Assim fica realmente difícil. Inconsciência política e ignorância eleitoral é tudo o que os opressores desejam. E ultimamente eles têm atingido todas as suas metas. Quatro anos desde o Golpe, dois anos desde a vitória daquele que faz arminha com a mão, dois dias desde a eleição em que só quem cresceu foi a Direita. Ou o Brasil reage já, ou não reage mais.

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