Em defesa da bolsa cuidadores
'O Brasil precisa de um programa nacional de transferência de renda voltado a quem cuida. Um Bolsa Cuidar', defende o colunista Oliveiros Marques
Esta semana, ao praticar aquele ato que devemos sempre condenar - o de ficar rolando o feed de uma rede social -, parei em um vídeo em que um homem entra em uma casa e conversa com uma jovem de 24 anos. Moravam ali ela, o sogro, duas filhas pequenas e o marido, de 27 anos. Este, após um acidente vascular, vivia acamado, entubado, sobre uma cama instalada na cozinha.
A cena me tocou. Como tocaria até o mais duro dos corações. Imediatamente me peguei imaginando como seria o dia a dia daquela jovem. Ela dividia com o sogro a tarefa de cuidar do marido e das filhas. Trabalhar, como? Sua vida havia se transformado integralmente em cuidado.
Então me veio à mente que pessoas nessa situação - e em tantas outras, cuidando de idosos, de pessoas com deficiência, de dependentes químicos, de famílias atípicas - deveriam ter algum tipo de apoio do Estado para dar conta da tarefa que a vida lhes impôs.
Fui pesquisar e não encontrei nada estruturado. Algumas iniciativas isoladas, aqui e ali, mas nada que se apresentasse como política pública consistente. E então me pus a pensar em como algo assim poderia ser construído. E, como não tenho qualquer responsabilidade com a chamada “responsabilidade fiscal” ou com o tal “arcabouço fiscal”, que tantas vezes pesa apenas sobre os mais frágeis, cheguei à seguinte ideia.
Um programa nacional de transferência de renda voltado a quem cuida. Um Bolsa Cuidar. Uma política pública que reconheça que existe trabalho sendo realizado dentro das casas brasileiras - intenso, contínuo e absolutamente essencial -, mas que hoje não é remunerado nem contabilizado.
O Brasil tem entre 7 e 10 milhões de pessoas nessa condição. Em sua maioria, mulheres que deixam o mercado de trabalho ou sequer conseguem ingressar nele porque precisam dedicar seus dias a alguém que depende delas para viver. Sem esse cuidado, o impacto sobre o sistema público seria imediato: mais internações, maior demanda por instituições, aumento de custos hospitalares e sociais.
Ou seja, o Estado já se beneficia desse trabalho. Apenas não o reconhece.
A proposta é simples na essência: garantir uma renda básica para quem comprovar que exerce esse cuidado de forma contínua e que, por isso, tem sua capacidade de trabalho limitada. Um valor que possa ser ampliado conforme o grau de dependência do assistido ou o número de pessoas sob cuidado, voltado prioritariamente a famílias de baixa renda e, sobretudo, às mulheres que chefiam esses lares.
Diferente de outros programas, as exigências estariam diretamente ligadas ao cuidado: acompanhamento de saúde do assistido, atualização de cadastro e acesso a capacitações quando disponíveis. E mais importante: o programa não substituiria benefícios existentes, como o BPC, mas os complementaria - protegendo não apenas quem precisa de cuidado, mas também quem cuida.
Do ponto de vista econômico, há um argumento que não pode ser ignorado. Cuidar bem reduz custos. Um paciente assistido de forma contínua em casa tende a ter menos agravamentos, menos internações e menos necessidade de institucionalização. É uma lógica preventiva que, no médio prazo, representa economia para o sistema de saúde.
Portanto, não se trata apenas de gasto. Trata-se de reorganização inteligente do investimento público.
Mas há também algo que vai além dos números. Trata-se de reconhecer dignidade. De dizer a esses milhões de pessoas que aquilo que fazem tem valor, tem peso e merece ser visto.
Se o Estado brasileiro já depende desse cuidado invisível para funcionar, talvez tenha chegado a hora de assumir isso de forma clara e estruturada.
E se alguém das equipes econômicas dos governos quiser reagir com desconfiança a uma proposta como essa, apenas peço que não me chame de maluco. A minha função não é cuidar do cofre. É olhar para a vida real - e tentar fazer com que ela, ao menos uma vez, seja levada em conta.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



