Em defesa de Paquetá e da ECDR

Paquetá foi vitimada pela ganância do Consórcio CCR, que detém o monopólio do transporte de barcas na ilha - que não possui ligação com o continente que não seja marítima -, mediante concessão estadual

(Foto: Wikipédia)
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No Rio de Janeiro, é difícil uma barbaridade constituir surpresa. Diariamente, o povo fluminense se depara com os mais variados absurdos. Nos últimos dias, todos têm ouvido falar da água nojenta que sai nas torneiras, fruto de vários descasos no cuidado nascente. O Governador, numa realidade paralela ou achando que o povo está fora de si, diz que está tudo bem. E toca o gado.

Torneiras à parte, a nova aberração do Rio atinge a simpática e bucólica ilha de Paquetá. Reduto de intelectuais e artistas, atraindo turistas, no sábado passado Paquetá foi vitimada pela ganância do Consórcio CCR, que detém o monopólio do transporte de barcas na ilha - que não possui ligação com o continente que não seja marítima -, mediante concessão estadual.

Alegando prejuízos e "adequação do sistema", na verdade uma simples decisão unilateral para poupar tostões, a CCR reduziu drasticamente o número de viagens entre Paquetá e a Praça XV, causando prejuízo evidente a pelo menos três mil moradores da ilha, dentre eles estudantes, trabalhadores e profissionais da saúde, afora o funcionamento de creche em Paquetá. A escassez de horários aumenta nos fins de semana, incidindo diretamente em prejuízos para o turismo local, incluindo o comércio, bares e restaurantes. Uma decisão que atende somente os interesses da concessionária CCR.

Organizada, a população local tem feito várias manifestações. Neste fim de semana, a superlotação aconteceu em diversos horários, isso para um percurso marítimo que passa de uma hora. A promessa do Governador Witzel é de barcas extras, só que sem horário definido. Ou seja, ao sabor do acaso e a população que vá às favas.

Com suas ruas sem carros, crianças andando tranquilamente com suas bicicletas e zero violência, Paquetá é uma espécie de paraíso perdido que, nos últimos anos, tem atraído cada vez mais gente boa. A vida cultural da ilha é pulsante. Em novembro passado aconteceu a terceira FLIPA - Festa Literária de Paquetá. Mensalmente acontecem eventos sobre fotografia. A programação musical é permanente. Um verdadeiro exemplo de civilidade que está ameaçada por via de mão única, no caso a CCR, e é inaceitável que a ambição da concessionária se sobreponha ao interesse público.

Vindo de Paquetá, saltando na Praça XV e caminhando uns quinhentos metros, há outra barbaridade no coração da antiga Guanabara, agora com o dedo, ou melhor, os tentáculos do Governo Federal.

Há vinte anos, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro tem prestado serviços inesgotáveis à indústria cinematográfica brasileira, formando inúmeros profissionais da área e oferecendo diversos eventos a respeito. A ECDR ocupa um prédio na esquina das ruas Primeiro de Março e Alfândega, cedido em tese pelos Correios no ano de 2000. E por que tese?

O prédio é antigo e pertenceu ao Deutsche Bank, o banco estatal da Alemanha. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra com os aliados, Vargas botou a turma para correr e incorporou o prédio, que passou a ser administrado pelos Correios, mas sem a certeza absoluta de que realmente lhe pertença. Afinal, o prédio é ou não é oficialmente dos Correios? E por que desocupar logo ele?

Intimada em 2019 a deixar o endereço, a ECDR tem tentado negociar sua permanência no local com os Correios, sem sucesso. Como se sabe, a estatal é a bola da vez das privatizações e aí é que está o x da questão: a urgência de se colocar o prédio nos ativos dos Correios por ocasião da venda a troco de banana. Mais uma vez, o interesse público é pisoteado em favor de interesses particulares. Inimigo declarado do cinema, o Governo Federal vê os vinte anos de trabalho da ECDR como lixo irreciclável. E por tabela, o ódio a Darcy Ribeiro é mais do que natural na república dos terraplanistas.

As duas pautas, a de Paquetá e da ECDR, são bandeiras fundamentais da urbanidade do Rio de Janeiro. Por isso mesmo, contam com o desprezo dos governos estadual e federal, neste estranho 2020 onde tudo parece de cabeça para baixo - e está mesmo.

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