Em Moscou, Ivan, o terrível, revela a Napoleão o que há ao fim do arco-íris

Reza a lenda que, ao olhar para trás enquanto sua coorte fugia como um corisco da praça Vermelha, Napoleão pôde discernir, entre a nuvem de fumaça que pairava sobre São Basílio, as feições de Ivan, o terrível, a receber os aplausos dos arquitetos da catedral

(Foto: Luanna Falcão)
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Na galeria Tretyakov, em Moscou, deparo, em maio de 2008, com o quadro Ivan, o terrível, e seu filho Ivan em 16 de novembro de 1581, do pintor russo Ilya Repin. 

No encarniçado jogo pelo poder envolvendo a alta aristocracia russa, a relação entre pai e filho bem podia ser revertida em duelo pelo trono. Do envenenamento a contar com cozinheiros como cúmplices à pena capital levada a cabo, pública e pedagogicamente, em plena praça Vermelha, o tsar e sua camarilha de aliados/traidores mostravam-se exímios leitores de Nicolau Maquiavel, que escrevia O príncipe, em Florença, enquanto Ivan, o terrível, assassinava seu filho, um (suposto) conspirador, no coração do Kremlin, em Moscou. 

Séculos depois, o tsar soviético Ióssif Stálin dizia entreouvir a voz de Ivan, o terrível, enquanto redigia o Cumpra-se, com lápis de colorir vermelho, para que todos e cada um dos filhos da Revolução Russa fossem fuzilados. (Quando o sol nasce, o paranoico é o único sobrevivente.)

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Em seu quadro, Ilya Repin logrou apresentar, com ímpeto radicalmente dostoievskiano, a tensão agônica no coração de Ivan: enquanto o terrível e maquiavélico tsar esmaga a (suposta) conspiração liderada pelo filho - o cetro com que o autocrata golpeara a cabeça do filho ainda treme em sua mão direita -, Ivan, o pai, chora e urra, vergado pela culpa, com o cadáver do filho em seus braços. (“Deus e o diabo estão em luta, e o campo de batalha é o coração do homem” - assim sussurrou Dmítri Karamázov, personagem do romance Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, ao pé do ouvido de Ivan, o terrível.)

Tempos depois, Ivan já passava por sobre os escombros do luto com seu cavalo de caça - para quem se arvora no trono, o remorso que pica a memória precisa ser enxotado como uma mosca que insiste em rondar a carniça da culpa. É quando o tsar terrível ordena aos mais talentosos arquitetos da Rússia que projetem aquela que entraria para a história como a catedral de São Basílio, uma verdadeira encarnação do arco-íris, ao lado do Kremlin, com sua linda e lúdica explosão de cores encimada por bulbos sinuosos, que mimetizam as chamas trêmulas das velas dos fiéis ortodoxos. 

A cerimônia de inauguração da catedral de São Basílio é realizada com toda a pompa que só o poder e a riqueza podem arregimentar. Os projetistas de um dos mais belos patrimônios arquitetônicos da humanidade recebem a mais alta comenda da autocracia das mãos do próprio tsar. Mas eis que, do cume da glória, os arquitetos logo se sentem tomados pela náusea da vertigem: tão logo Ivan, o terrível, deles se despede, as sentinelas do autocrata os cercam com suas espadas em riste e leem, pública e pedagogicamente, o mais novo decreto do tsar: “Para que a suma beleza da catedral de São Basílio pertença única e exclusivamente à Rússia e não possa ser replicada alhures para o deleite de outrem, ordeno que as mãos dos arquitetos, meus leais e talentosos súditos, sejam decepadas. Cumpra-se”. 

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No início da segunda década do século XIX, as tropas napoleônicas invadem a Rússia e chegam a Moscou. De dentro do Kremlin saqueado, Napoleão Bonaparte observa a capital russa ardendo em chamas. “Quem poderá entender a profundidade da alma russa?”, teria perguntado o generalíssimo francês. “Se Moscou não pode ser dos moscovitas, que ela então pereça pelas mãos de seus próprios filhos parricidas, aqueles que fazem o elogio do próprio naufrágio!”. 

 Mal sabia o imperador francês que os russos já estavam colocando em marcha a tática da “terra arrasada”, segundo a qual a aparente evacuação de territórios reduzidos a escombros visava impedir que os invasores pudessem se guarnecer das benesses fornecidas pelas cidades conquistadas. Enquanto as tropas napoleônicas, perplexas e famintas, se esgueiravam entre as labaredas que carbonizavam o coração de Moscou, as tropas russas, sob o comando do príncipe e marechal de campo Mikhail Kutuzov, se reuniam para uma contraofensiva tão furibunda e taliônica quanto Ivan, o terrível. 

Quando se dá conta de que o martírio em chamas de Moscou não passa de um véu de fumaça para o cerco iminente da cidade pelas tropas russas, um Napoleão Bonaparte radicalmente contrariado e irascível ordena que seus soldados batam em retirada antes que os inimigos os reduzam ao destino do escorpião encalacrado por um círculo de fogo, para o qual o suicídio com o próprio ferrão desponta como o último ato de liberdade. 

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Antes de escapulir de Moscou, Napoleão caminha pela praça Vermelha até chegar à frente da catedral de São Basílio. O clarão das chamas parece realçar a vivacidade de suas cores. Hipnotizado pelo belo, Napoleão ordena a seus generais que a catedral seja transportada de Moscou a Paris. Quando os oficiais se entreolham, perplexos, com medo de deduzir que a megalomania do imperador francês enfim ilhara sua razão, Napoleão dá de ombros e ordena: “Se São Basílio não pode se ajoelhar em Paris, ninguém mais verá sua catedral. Se o arco-íris não pode ser nosso, ninguém mais o contemplará. Bombardeiem a catedral agora, matem São Basílio já!”. 

Reza a lenda que os canhões napoleônicos engasgaram bem na hora dos disparos. (Talvez não tenha havido tempo para o canhonaço em meio ao alvoroço da fuga.)

Reza a lenda que, ao olhar para trás enquanto sua coorte fugia como um corisco da praça Vermelha, Napoleão pôde discernir, entre a nuvem de fumaça que pairava sobre São Basílio, as feições de Ivan, o terrível, a receber os aplausos dos arquitetos da catedral.

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