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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Empatia ativa é a coragem que impede o próximo nome

Quando alguém é isolado injustamente, agir naquele instante pode evitar que a sequência avance até alcançar qualquer um de nós

Empatia ativa é a coragem que impede o próximo nome (Foto: Reuters)

Há cenas que duram dois minutos e nos acompanham por décadas. Esta é uma delas.

A sala de aula parecia comum. Segunda mesa. Casaco azul. O professor interrompe o fluxo morno da rotina e aponta: “Você aí. Qual é o seu nome?”. Cecília. Nome dito com a naturalidade de quem não imagina estar prestes a se tornar personagem de um experimento moral. “Saia da minha sala. Não quero vê-la nunca mais".

Não houve debate. Não houve explicação. Houve silêncio.

Cecília saiu carregando nos ombros não apenas a mochila, mas o peso invisível de uma expulsão sem causa. O som da porta fechando ecoou mais alto do que qualquer argumento. E o que ficou na sala não foi apenas o professor. Ficou algo mais denso: a cumplicidade muda de quem assistiu e permaneceu imóvel.

Então ele perguntou, como se abrisse um novo capítulo: por que existem leis? Para que servem? Ordem social. Proteção de direitos. Justiça. Confiança no governo. As respostas vieram corretas, quase acadêmicas. A turma dominava o vocabulário da civilização.

Mas havia fracassado na prática elementar da convivência.

“Foi injusto?”. Sim, foi. “Então por que ninguém protestou?”.

A pergunta deixou de ser pedagógica e tornou-se um retrato das sociedades atuais.

Há um descompasso brutal entre compreender a justiça e defendê-la quando custa alguma coisa. Entre repetir princípios e levantá-los como escudo quando o abuso acontece diante dos olhos. O que se revelou ali não foi ignorância. Foi cálculo. Cada estudante pensou, talvez sem formular: não é comigo. Não hoje. Melhor não me expor.

Assim nasce a engrenagem mais eficiente da opressão — a indiferença racionalizada.

Não foi apenas medo. Foi autopreservação convertida em silêncio. E o silêncio, quando coletivo, produz uma anestesia moral perigosa. Ele ensina o agressor que pode avançar. Ensina à vítima que está só. E ensina à plateia que neutralidade é prudência.

Não é.

Empatia ativa não é sentimento vago. É decisão concreta. Começa com uma pergunta interna simples e incômoda: e se fosse comigo? Prossegue com um gesto igualmente simples: interromper, questionar, pedir explicação, oferecer apoio. Às vezes basta uma frase — “Professor, isso não parece justo” — para quebrar a lógica da submissão. Outras vezes, exige algo mais: acompanhar quem foi expulsa até a direção, registrar o ocorrido, recusar-se a normalizar o abuso.

Empatia ativa também se treina. No cotidiano. Ao não rir da humilhação alheia. Ao não compartilhar a mentira conveniente. Ao não silenciar diante da exclusão discreta. Ela exige presença e custo. E por isso é rara.

Essa lição ecoa uma advertência histórica que atravessou o século XX. O famoso texto “Primeiro eles vieram buscar…” — em inglês First they came… — foi escrito por Martin Niemöller (1892–1984), pastor luterano alemão que inicialmente apoiou o nazismo, chegou a votar em Hitler em 1933 e, apenas depois, despertou para o abismo que ajudara a legitimar com o próprio silêncio. Em 1946, após o fim da guerra, redigiu aquelas palavras como uma confissão pública. Passara anos preso nos campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau.

No Brasil, o texto muitas vezes é atribuído equivocadamente a Bertolt Brecht. Não é dele. É de alguém que experimentou o custo real da omissão.

A versão mais fiel, adotada pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, diz:

“Primeiro eles vieram buscar os socialistas,

e eu fiquei calado — porque não era socialista.

Então vieram buscar os sindicalistas,

e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.

Em seguida vieram buscar os judeus,

e eu fiquei calado — porque não era judeu.

Foi então que eles vieram me buscar,

e já não havia mais ninguém para me defender".

A sala de aula daquela cena contemporânea é apenas uma miniatura dessa advertência histórica. Hoje expulsam Cecília. Amanhã o alvo muda. O mecanismo, porém, é o mesmo: fragmentar para dominar. Isolar para silenciar. Testar até onde vai a tolerância coletiva ao absurdo.

A injustiça raramente começa coletiva. Ela escolhe um nome por vez. Hoje foi Cecília. Amanhã pode ser qualquer outro. Sistemas injustos testam limites. E cada silêncio alarga o perímetro do aceitável.

Há quem acredite que coragem é atributo de heróis. Não é. Em sociedades que desejam ser maduras, deveria ser hábito cidadão. Porque quando alguém é expulsa sem motivo e ninguém reage, algo mais que uma estudante deixa a sala. Sai junto a ideia de comunidade.

Mas a pergunta permanece, atravessando a tela e alcançando quem assiste: quando a próxima Cecília se levantar sob o peso da injustiça, continuaremos sentados?

A resposta, desta vez, não poderá ser teórica. Porque a história já mostrou, com brutal clareza, o preço de cada silêncio.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.