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Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br

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Enquanto Bolsonaro recebe atendimento em hospital de ponta, Adélio fratura a mão e presídio nem deixa engessar

Os dois se cruzaram em 2018, um encontro violento que mudou a história do Brasil, e cada um vive hoje numa prisão, mas em situações muito diferentes

Jair Bolsonaro e Adélio Bispo (Foto: Reprodução | Ricardo Moraes/Reuters)

Enquanto Jair Bolsonaro, condenado, recebe tratamento VIP de saúde, Adélio Bispo de Oliveira, a 1.100 quilômetros de Brasília, permanece solitário em uma cela de poucos metros quadrados, e reclama de dores devido à fratura recente na mão.

“O Tuca (apelido de Adélio em família) disse que estava sentindo muita dor, mas o único remédio que o presídio deu foi dipirona, para cinco dias”, afirmou Maria das Graças Ramos de Oliveira, referindo-se à última visita que fez ao irmão, há cerca de um mês. 

Segundo ela, por razões de segurança, a mão de Adélio nem chegou a ser engessada. A fratura teria ocorrido durante o banho de sol, quando os presos circulam algemados. Com gesso, a algema não poderia ser colocada durante essa saída da cela.

A visita de Mari das Granças foi virtual: ela, na Defensoria Pública da União, em Montes Claros; ele, no presídio federal de Campo Grande. Adélio completará, em setembro, oito anos na cadeia, embora não tenha sido condenado.

Ele foi preso em 6 de setembro de 2018, sob acusação de dar uma facada em Bolsonaro durante um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Adélio confessou o crime e foi defendido por um advogado que se apresentou logo depois e que tinha no currículo a defesa de acusados de crimes de grande repercussão, entre eles o dos assassinos da missionária Dorothy Stang.

Por iniciativa do advogado, que pagou do próprio bolso um laudo médico, Adélio foi submetido a um exame de sanidade mental e diagnosticado com Transtorno Delirante Persistente. Mais tarde, esse diagnóstico foi confirmado por uma junta médica designada pelo juiz.

Também por iniciativa de Zanone, ele foi transferido para um presídio de segurança máxima, longe de sua cidade natal, Montes Claros.

O advogado também pediu o enquadramento do cliente na então vigente Lei de Segurança Nacional, o que impediu que o processo fosse remetido à Justiça Estadual de Minas Gerais.

“Com um advogado como este, a justiça não precisa de promotor para acusar. A ‘defesa’ faz o serviço completo”, disse um colega de Zanone, sob condição de anonimato.

Na última visita, Maria das Graças voltou a ouvir do irmão que Zanone o trancou na cadeia e jogou a chave fora. O próprio Adélio pediu o afastamento do advogado, em carta enviada à Justiça em Juiz de Fora e à Defensoria Pública da União em Campo Grande.

O defensor público Welmo Rodrigo assumiu a causa e trava, na Justiça, uma batalha para que Adélio seja transferido para uma unidade de saúde em Montes Claros, a fim de ficar perto da família.

Adélio cumpre medida de segurança, mas, pelo entendimento do próprio Supremo Tribunal Federal, pessoas nessa situação não poderiam permanecer em presídio; ele deveria receber atendimento médico especializado.

Desde que foi preso, Adélio não concedeu entrevistas e só falou sobre o que ocorreu em Juiz de Fora com advogados e policiais. Nem sequer prestou depoimento em juízo. Sua única manifestação foi na audiência de custódia, um dia após o evento em Juiz de Fora.

O deputado estadual Paulo Reis, do PT de São Paulo, tentou uma audiência com a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, mas o encontro foi desmarcado no próprio dia, quando ela soube que o parlamentar havia me convidado para cobrir a reunião.

Adélio está em um limbo institucional, em uma situação jurídica e de saúde que não comove as autoridades. Exceto o defensor público Welmo Rodrigo, a família e os advogados desta — Edna Teixeira e Alfredo Marques —, hoje ninguém mais lhe dá atenção.

Por isso, já dura três anos o processo aberto por Maria das Graças em Campo Grande para ser curadora do irmão, sem que haja sentença.

Enquanto isso, Adélio tem um curador provisório, vinculado ao sistema de Justiça estadual em Campo Grande, mas que, ao que se sabe, nunca conversou com o curatelado.

Não sabe, por exemplo, das dores que Adélio sentiu por conta da fratura recente. Quem ouviu foi a irmã, mas ela não tem poderes de tutela. Quer tê-los, mas a Justiça em Campo Grande tem protelado a decisão.

Adélio? Para as autoridades, esse é um nome proibido. Adélio não vem ao caso.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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