Enquanto o mundo se divide entre amor e ódio por Trump, aqui na Alemanha quase todos anseiam por comemorar a sua queda

Nestes momentos de incerteza e apreensão é confortante saber que há potências mundiais que abominam este cidadão e anseiam por sua decadência

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Uma vez que neste meu artigo ainda não posso oficialmente celebrar o desmoronamento de Trump – algo com o qual sonho há quatro anos – decidi trazer ao leitor e à leitora uma imagem de como está o ambiente com relação a este tema na Alemanha.

Como país que encabeça a União Europeia, sua opinião pública com relação aos EUA é de suma importância para o mundo inteiro. Por isso, é com satisfação que posso lhes comunicar que por aqui, fundamentalmente falando, quase todos possuem verdadeira repugnância a Donald J. Trump.

Tal realidade me é clara desde 2015, durante a asquerosa campanha eleitoral do nova-iorquino, e mostrarei a vocês como esta não somente se manteve, mas se potencializou ao longo dos últimos quatro anos. Mas antes gostaria de traçar um panorama acerca da imagem que possui o povo da Alemanha com relação aos EUA como um todo, independentemente de Trump.

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Bem, essa imagem nunca foi favorável, primeiramente por motivos históricos, afinal os EUA estão entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Após a vitória, os estadunidenses se instalaram em Berlim e em outras cidades e até hoje pode-se notar os resquícios dessa presença, que continua a estampar o retrato de uma época que ainda atinge muito profundamente a psique do alemão. Além disso, há – não somente na Alemanha, mas em toda a Europa ocidental – o típico sentimento eurocentrista que considera o americano fútil, vazio, consumista, produtor de um capitalismo selvagem que o autodevora e de uma cultura descartável vendida em enlatados. É postura prepotente e arrogante por parte do europeu, confirmando seu esteriótipo? Sim. Mas que a crítica aos ianques é – ao menos em grande parte – real, também é verdade.

Mas além do “alemão alemão”, há também todos os outros habitantes da Alemanha (sejam cidadãos ou não), de ascendência estrangeira, que correspondem a cerca de um quarto da população. Entre estes, o mais presente é o povo de descendência turca, seguido dos russos e eslavos de modo geral. E todos esses povos possuem motivos históricos e contemporâneos (religião, guerras, imperialismo etc) para desgostar dos EUA.

Assim, os estadunidenses são a princípio malvistos aqui desde sempre. Porém há uma clara flutuação nesta temática. Lembro-me de grande aprovação de Obama por aqui e recuperei uma pesquisa de 2013 intitulada ‘In Germany, they still love Obama’ (“Na Alemanha eles ainda amam Obama”, Pew Research) que indica que de 2008 a 2013 a confiança do alemão em Barack variava entre 88% e 93%.

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Pois bem, com Trump a história é simplesmente oposta. O mesmo instituto de pesquisa publicou em janeiro deste ano dados de diversos lugares do mundo. De toda a Europa ocidental, a Alemanha é o país em que há menos confiança no cidadão em questão, 13%. E mais interessante ainda é a enquete atual (instituto Civey), feita durante três meses e concluída exatamente em 3/11, dia das eleições nos EUA. Perguntados sobre como avaliam a presidência de Trump, 77,4% dos que responderam afirmaram considerar “péssima”, enquanto 8,2% assinalaram “ruim”. Somente 14% escolheram as opções “boa” ou “muito boa”.

E os números não mentem: a extrema-direita alemã constitui justamente este valor, com poucas variações. Estipula-se, graças a muito frequentes pesquisas e constantes análises sociais, que entre 10% e 15% da população alemã seja ultradireitista e/ou neonazista. Segundo os mais recentes resultados (uma média de pesquisas de diversos institutos), o AfD – partido neonazi de roupagem contemporânea – conta com o apoio de 10,7% do povo.

Ou seja, não há dúvidas de que ao menos em terras alemãs, o “mais perigoso presidente da história”, como o caracterizou Bernie Sanders, é realmente detestado pela absoluta maioria. Inclusive, nos dias que antecederam as eleições, um dos inesquecíveis (e que entrará para a História) protestos artísticos anti-Trump se deu justamente em Berlim. A equipe da unidade alemã do museu de cera mais famoso do mundo, o inglês Madame Tussauds, simplesmente e corajosamente ignorou quaisquer protocolos, jogou a estátua de Trump em uma lixeira e expôs ao público. Esta, além de lotada de sacos de lixo que rodeavam o “clown de cera”, possuía placas que diziam ‘Fake News’, ‘You are fired’ (“Você está despedido”, referência ao jargão utilizado por ele em seu programa de televisão) e ‘I love Berlin’ (“Eu amo Berlim”). Abaixo do nome e do logotipo do museu, saltava aos olhos a mensagem ‘Dump Trump – Make America Great Again’ (“Despeje Trump – Faça a América grande novamente”) se utilizando ironicamente de seu próprio slogan.

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Enfim, nestes momentos de incerteza e apreensão é confortante saber que há potências mundiais que abominam este cidadão e anseiam por sua decadência. Espero muito que possamos comemorar em breve aqui na Alemanha e em diversos outros locais do mundo a queda deste cidadão que abriu a Caixa de Pandora em nossos tempos. O país que passou pelo Nazismo sabe muito bem diagnosticar quando um novo projeto de Führer anda pela Terra. Queira então o destino que estejamos a testemunhar seus últimos passos em qualquer posição de poder e suas últimas oportunidades de disseminar e legitimar o ódio no planeta.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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