Entenda por que vice de Trump ouviu “Yankee go home” antes de ir embora

"Acompanhada de frieza, mal-estar e até do velho slogan 'Yankee, Go Home', visita do vice Mike Pence confirma recusa dos brasileiros a participar da aventura imperial de Trump contra o governo Maduro, na Venezuela", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; lembrando a mobilização de tropas que a ditadura militar enviou a São Domingos, em 1965, para "combater um governo progressista, eleito pelo voto popular, PML explica que "soldados de uma guerra que o país nunca reconheceu como legítima encontraram a indiferença e mesmo a vergonha, na volta para casa, pois haviam combatido um movimento popular que resistia, de armas na mão, ao mesmo opressor externo que sustentava uma ditadura que perseguia, torturava e censurava no Brasil"

"Acompanhada de frieza, mal-estar e até do velho slogan 'Yankee, Go Home', visita do vice Mike Pence confirma recusa dos brasileiros a participar da aventura imperial de Trump contra o governo Maduro, na Venezuela", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; lembrando a mobilização de tropas que a ditadura militar enviou a São Domingos, em 1965, para "combater um governo progressista, eleito pelo voto popular, PML explica que "soldados de uma guerra que o país nunca reconheceu como legítima encontraram a indiferença e mesmo a vergonha, na volta para casa, pois haviam combatido um movimento popular que resistia, de armas na mão, ao mesmo opressor externo que sustentava uma ditadura que perseguia, torturava e censurava no Brasil"
"Acompanhada de frieza, mal-estar e até do velho slogan 'Yankee, Go Home', visita do vice Mike Pence confirma recusa dos brasileiros a participar da aventura imperial de Trump contra o governo Maduro, na Venezuela", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; lembrando a mobilização de tropas que a ditadura militar enviou a São Domingos, em 1965, para "combater um governo progressista, eleito pelo voto popular, PML explica que "soldados de uma guerra que o país nunca reconheceu como legítima encontraram a indiferença e mesmo a vergonha, na volta para casa, pois haviam combatido um movimento popular que resistia, de armas na mão, ao mesmo opressor externo que sustentava uma ditadura que perseguia, torturava e censurava no Brasil" (Foto: Paulo Moreira Leite)

Salvo as reverências inevitáveis de Michel Temer e Aloysio Nunes Ferreira,  a visita do vice presidente dos EUA ao país, Mike Pence, foi um fracasso memorável e nem tudo se deve ao ridículo da primeira potência mundial denunciar uma crise "humanitária" na Venezuela quando encarcera crianças longe dos pais em seu próprio país. 

Em busca de apoio para uma intervenção imperial destinada a derrubar o governo eleito de Nicolas Maduro Pence recebeu manifestações entre  indiferença e rejeição aberta. Esta reação se explica, em grande em parte, pela traumática experiência dos 4000 brasileiros enviados a Republica Dominicana, em 1965, para derrubar um governo progressista e instalar um regime subordinado a Washinton, como você poderá ler alguns parágrafos abaixo. Mas não é só.   

 "Não aceito intervenção militar nem por brincadeira. Por favor, volte para casa", reagiu ontem, nas redes sociais, o prefeito Arthur Virgílio, de Manaus, centro da visita, retomando a velha expressão dos muros da década de 1960: "Yankee, Go Home."

 Num sinal óbvio de que não gostaria de aparecer numa foto em companhia de uma autoridade capaz de prejudicá-lo aos olhos do eleitorado, Virgílio arrumou uma desculpa familiar para pular fora e não comparecer a recepção ao vice de Trump.  Alegou que Pence tinha viajado  em companhia da mulher, mas o protocolo da visita não permitiu que ele recebesse o vice dos EUA em companhia da sua. Já o governador Amazonino Mendes alegou que tinha um compromisso justo na hora  marcada para encontrar o enviado de Trump e também pulou fora. Coincidência, claro.

Nem mesmo o Padre Orlando Barbosa, coordenador da instituição destinada a receber um prometido -- mas não entregue -- cheque de 1 milhão de dólares anunciado por Pence, ficou satisfeito. "Ele trouxe um discurso imperialista. Não é só uma visita humanitária", relata a Folha, que, num esforço de cobertura,  escalou duas repórteres para cobrir a visita.

"Este gesto do governo Trump está longe de ser humanitário. Remete-nos a uma política de controle e colonialismo", diz uma nota pública assinada por três entidades pastorais que atuam na região amazônica. 

A reação à visita de Mike Pence não é surpreendente e ocorre num ambiente de desconfiança, que inclui comandantes militares da ativa, a começar pelo general Vilas Boas Corrêa, comandante do Exército. 

A principal experiência de tropas brasileiras na preservação do domínio norte-americano na América Latina, motivação indiscutível para uma intervenção na Venezuela, é um desastre inesquecível.

Em 1965, numa retribuição pelo auxílio providencial na deposição de João Goulart, o governo Castelo Branco enviou 4 000 soldados para intervir na República Dominicana, onde uma Junta Militar havia deposto um governo progressista, eleito pelo voto popular, sete meses antes.

Numa semelhança notável com o projeto que Washington tenta colocar de pé em 2018, a intervenção em São Domingos contou com tropas de cinco países. Com exceção do Brasil, as demais eram nações de peso diplomático secundário, com governos muito dependentes da ajuda externa, comandados por autoridades capazes de topar qualquer serviço: Paraguai, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica.   

Desmobilizados em 1966, depois que os Estados Unidos conseguiram empossar um presidente de  confiança, escolhido em eleições realizadas em clima de cemitério, os brasileiros retornaram para casa sem direito ao prestígio e às honrarias  asseguradas aos pracinhas que  lutaram na Segunda Guerra, o que é bastante compreensível.

Criada num momento em que a entrada do Brasil na guerra contra o nazismo era uma causa que produzia mobilizações de rua, a FEB fez parte de um projeto de inserção do país no novo mundo que se desenhava após a derrota dos países do Eixo. Nos bastidores, os governos de Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas negociavam um papel relativamente destacado para o Brasil na formação da ONU. As tratativas chegaram a incluir até a possibilidade do país possuir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da organização, ideia abandonada após a morte do presidente norte americano e a queda de Vargas. 

Já as tropas da Força Armada Interamericana Brasileira, também chamada de FAIBRÁS, eram parte de um puro projeto imperial norte-americano. A origem era o interesse exclusivo de proteger, em nome de seus interesses hegemônicos, uma área de domínio contra governos empenhados na defesa da maioria da população -- como Goulart em Brasília,  Juan Bosch em São Domingos, e outras lideranças que tombaram no ciclo de ditaduras militares do Continente, nos anos 1970 e 1980.  

Em vez de combater soldados do nazismo e do fascismo, motivação que possui um valor indiscutível, os brasileiros desembarcaram na América Central para atacar e eliminar integrantes de um movimento popular que resistia -- de armas na mão -- a um opressor externo, o mesmo que agia no Brasil e havia colocado de pé uma ditadura que perseguia, torturava e censurava. 

"Em vez de preservamos a paz, tivemos que combater os rebeldes, expondo nossa própria vida, num clima extremamente hostil", recordou José Carlos Teixeira, um dos integrantes da FAIBRÁS, em entrevista ao portal BBC Brasil (25/5/2015).

O saldo dessa operação, chamada "Power Pack" pelo governo de Lyndon Jonhson, foi a indiferença e mesmo a vergonha, na volta. Soldados de uma guerra que o país nunca reconheceu como legítima, pois não tinha a menor relação com valores reconhecidos pela população, mas apenas com uma troca de favores do comando de uma ditadura com Washington, os veteranos de São Domingos sequer têm direito a desfilar nas paradas de 7 de setembro com o mesmo destaque assegurado aos veteranos da FEB. Pior.

Décadas depois, lutando pelas pensões e aposentadorias que fazem parte das obrigações de uma nação com todo soldado que arriscou a vida em nome da pátria, não conseguiram ser incluídos no projeto que garantiu benefícios aos integrantes da FEB, na Constituinte, em 1988.

Fizeram uma nova tentativa em 2001, que acabou rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara, com o argumento de que não havia motivo real para pagamentos. A explicação é didática: "benefícios que tem caráter de indenização" devem estar reservados a quem "tem o reconhecimento da pátria por relevantes serviços prestados". A mensagem foi esta. Se a luta contra o fascismo na Europa deve ser recompensada, a atuação como massa de manobra do anti-comunismo da Guerra Fria não merece recompensa. Não envolveu "relevantes serviços prestados" e não merece "o reconhecimento da pátria". 

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