Entre a pastoral e a panfletagem
A instrumentalização da fé por lideranças religiosas e seus vínculos com agendas políticas conservadoras
Notícia veiculada no jornal O Estado de Minas, em 19/04, registra movimento na coordenação da candidatura da extrema-direita de Flávio Bolsonaro para uma aproximação com frei Gílson, mais um clérigo internético católico, fruto do fenômeno das redes digitais, com projeção nacional, por desfrutar de uma vasta audiência pelas transmissões ao vivo do “Rosário da Madrugada”.
Visto como mais um representante de setores conservadores, no período eleitoral de 2022, Gílson realizou várias transmissões que ficaram conhecidas como “lives patriotas”, nas quais conduzia suas orações com forte conotação política, incluindo pedidos à Virgem de Fátima para que o Brasil não se transformasse em uma nova Rússia.
No último dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o frei proferiu uma “exegese”, fundada em uma leitura fundamentalista do livro do Gênesis, com a qual critica o conceito contemporâneo de empoderamento feminino. Para ele, “as mulheres foram criadas para serem auxiliares dos homens; devem abdicar de poder e autonomia. Deus concedeu ao homem a liderança e o papel de chefe do lar. Mas a mulher tem o desejo de poder, não o de serviço”.
Em nosso artigo publicado em 23/05/2022, “Cristãos herodianos”, já chamávamos atenção para uma passagem de Jesus de Nazaré com sua práxis libertadora e do cuidado para com aquelas pessoas mais vulnerabilizadas pelo sistema de poder imperial romano. Para Jesus, o rei Herodes, tetrarca da Galileia, não era visto como uma personagem qualquer, mas como uma raposa que salteia galinheiros, ataca desamparados, explora desguarnecidos e despreza os abandonados (Lc 12:32). Não há, nos relatos evangélicos, qualquer postura na qual Jesus, supostamente visando a conveniências ou conchavos que o favorecessem em sua missão profético-religiosa, tenha se deixado enganar e, tampouco, compactuar com o poder herodiano.
Um dos conceitos atuais envolvendo os riscos de manipulação de determinadas catequeses digitais de massa é desenvolvido pelo doutor em educação e filosofia Gabriel Perissé, em seu livro “Abuso Espiritual: A Manipulação do Invisível” (Paulus Editora, 2024). Trata-se de uma obra corajosa e necessária que disseca as engrenagens psicológicas e teológicas de uma das formas mais sutis e devastadoras de violência: aquela praticada em nome de Deus. A fé, que deveria ser um instrumento de libertação, torna-se uma algema invisível nas mãos de líderes narcisistas ou sistemas institucionais autoritários.
Diferentemente da agressão física, que deixa marcas no corpo, o abuso espiritual ataca a identidade, a vontade e a consciência do indivíduo.
No abuso espiritual, se um pastor ou padre fala em nome de Deus, questioná-lo torna-se, na mente da vítima, o equivalente a questionar o próprio Deus. Nesse curto-circuito mental, a manipulação se instala por meio do qual o agressor anula a capacidade crítica do fiel, em vez de desenvolvê-la.
Jesus de Nazaré, ao falar do Espírito de Deus – Ruah –, coloca em evidência a sua liberdade. Ele diz solenemente a Nicodemos: “O vento (Ruah) sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8). O vento é a única coisa que não pode ser encaixotada, engarrafada. Ele é livre! Procurar engarrafar o Espírito em conceitos, definições, teses ou tratados, como às vezes o racionalismo moderno procurou fazer, significa perdê-lo, também no campo eclesiástico, que consiste em desejar trancar o Espírito em cânones, instituições e definições. O Espírito cria e anima as instituições, mas ele próprio não pode ser institucionalizado, coisificado. O vento sopra onde quer, assim o Espírito distribui os seus dons como quer (Papa Francisco, Audiência Geral, 05/06/2024).
Perissé identifica algumas características comuns a estruturas abusivas.
Primeiramente, ele destaca a infalibilidade do líder, o qual se apresenta como um ungido, o mediador da verdade. Em seguida, destaca-se a cultura do medo, por meio da utilização de ameaças espirituais, como castigos divinos, maldições e perda da salvação, para garantir a obediência do fiel. Há ainda o distanciamento social, pelo qual os fiéis são incentivados a se relacionar apenas com os membros da mesma comunidade religiosa, gerando uma espécie de dependência emocional daquela comunidade “espiritual”. Por fim, registra-se a gramática da culpa, mediante a qual o fiel é levado a acreditar que sofrimentos e dúvidas são frutos da própria falta de fé e de pecados não revelados.
Gílson, em suas manifestações digitais, deixa entrever aspectos bastante evidentes de sua metodologia: foco no combate ao pecado, por meio da oração vigilante e do sacrifício, enfatizando a realidade do inferno, do demônio e da necessidade de conversão urgente e radical; uso intensivo de lives e redes sociais para criar um grande movimento de oração, tendo ele como guia e mestre, fonte de interpretação da realidade para os seus fiéis; ortodoxia do ensinamento tradicional católico, sem concessões ao pensamento moderno, podendo gerar diversos sintomas de sectarismo.
Por fim, vale realçar que, ao misturar no mesmo espaço-tempo religião e política, ao condenar a Rússia durante suas pregações da madrugada, utiliza-se um mecanismo clássico de manipulação espiritual, qual seja, a leitura apocalíptica da história. Ao transformar países e ideologias escolhidas como encarnações do Mal metafísico, frei Gílson retira o debate do campo relativo da política (onde há argumentos, vozes, teorias e contradições) e o joga no campo absoluto da guerra espiritual.
Noutras palavras, se Rússia ou o comunismo são agentes do “demônio”, qualquer oposição a eles e a seus defensores passa a ser vista como vontade de Deus. Criam-se militantes violentos e beligerantes, além de gerar uma cegueira diante dos males praticados pelos sistemas capitalista e neofascista, por exemplo. A omissão sistemática de críticas ao neofascismo ou às desigualdades brutais do capitalismo revela um alinhamento ideológico de frei Gílson, instrumentalizando as suas madrugadas de oração.
E, ao silenciar sobre o bolsofascismo, a metodologia catequética de Gílson acaba por oferecer uma “sacralização” dessa ideologia. Daí o interesse de Flávio Bolsonaro em tê-lo em suas hostes. O fiel, que crê em Gílson, é levado a crer que o catolicismo é incompatível com a igualdade defendida como direito humano pelos setores da esquerda política brasileira e mundial, mas, inexplicavelmente, harmonizável com a violência autoritária de um mundo desigual defendido pela extrema-direita.
Gabriel Perissé presta um serviço público ao iluminar os porões das instituições religiosas e oferecer palavras para sentimentos que foram silenciados sob o pretexto da vontade de Deus. A obra conclui indicando que a manipulação do invisível só cessa quando o indivíduo decide olhar, com olhos de ver, para o visível: para sua própria dor e a dor de seus semelhantes, para os direitos fundamentais e para a beleza de uma fé que não exige o aprisionamento da inteligência. É um convite ao despertar. Lembrando que, se o sagrado é liberdade, como afirmou o Papa Francisco, qualquer coisa que use o medo para governar é uma simulação, uma mentira descarada, uma perna cabeluda.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
