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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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Entre a percepção e a realidade: como o camaleonismo político captura a insatisfação social

Ao canalizar sua insatisfação em direção a projetos que aprofundam desigualdade, parte significativa da população acaba votando contra seus próprios interesses

Ciro Gomes e Aécio Neves (Foto: Agência Brasil)

O camaleão é um réptil que por sua estrutura biológica altera sua aparência para se adaptar ao ambiente e garantir sua sobrevivência. De modo análogo, certos políticos mudam várias vezes de partido e relativizam o discurso conforme as circunstâncias, adaptando suas posições não por convicção, mas por conveniência. Ciro Gomes insere-se nessa categoria de comportamento político essencialmente oportunista. 

Contudo, há uma diferença fundamental. O camaleão altera sua aparência como um mecanismo natural de sobrevivência, uma resposta instintiva e necessária para preservar a própria vida diante de ameaças do ambiente. Já no caso de certos políticos, a exemplo de Ciro Gomes, essa mudança de posicionamento não decorre de uma necessidade vital, mas de um cálculo estratégico orientado por um desmedido projeto de poder. Enquanto o réptil se adapta para continuar existindo, o político adapta seu discurso e suas alianças por conveniência, muitas vezes a qualquer preço, visando manter ou ampliar sua influência no cenário político.

Nesta semana, o PSDB voltou ao noticiário. O deputado Aécio Neves convidou o contraditório Ciro Gomes a considerar uma candidatura à Presidência. Aécio justificou o convite como um apelo para que Ciro lidere um caminho "liberal na economia e inclusivo no social". Trata-se de uma formulação populista que esconde ambiguidades profundas, tentando conciliar um projeto de mercado que historicamente amplia desigualdades com promessas de justiça social.

Essas razões são apenas uma construção discursiva para suavizar contradições estruturais. Ao mesmo tempo em que privilegia o capital, o discurso reivindica um compromisso social que suas próprias diretrizes econômicas tendem a inviabilizar. Em síntese, é uma falácia neoliberal que se sustenta mais na aparência do equilíbrio do que na viabilidade concreta da justiça.

Nesse ambiente marcado por oportunismos, surge um personagem cuja trajetória recente é definida por uma crescente descredibilidade. Desde 2018, Ciro constrói um percurso permeado por inconsistências ideológicas. Sua longa peregrinação passando por PDS (herança da ditadura), PMDB, PSDB, PPS, PSB, PDT e retornando agora ao ninho tucano evidencia uma adaptação meramente ajustada às conveniências do momento, e não um amadurecimento político.

Em eleições presidenciais anteriores, apesar de manter uma pequena fatia resiliente do eleitorado, Ciro se sustentou por meio de um discurso desenvolvimentista que, à primeira vista, aparentava consistência. No entanto, seus resultados eleitorais revelaram limites claros, pois jamais ultrapassou 12,47% dos votos válidos e, em 2022, obteve apenas 3,4%. Esse desempenho decrescente não pode ser dissociado de sua inconstância política. Para agravar o quadro, em 2025 buscou aliança com o PL no Ceará, partido associado ao bolsonarismo, explicitando a elasticidade de seus princípios frente ao desejo de poder. Ao manter uma indecisão calculada sobre o convite de Aécio, Ciro preserva capital em múltiplas frentes, convertendo o dilema ético em instrumento de autopromoção. Sua candidatura, caso se concretize possivelmente acirrará mais ainda a corrida eleitoral. 

O quadro se agrava ao se constatar que os demais candidatos da direita e extrema direita estão profundamente alinhados a agendas neoliberais, ultra privatistas e submissos a interesses estrangeiros. É alarmante que figuras como Flávio Bolsonaro apareçam nas pesquisas de intenção de voto, com pontuações elevadas, beirando um empate técnico com Lula, apesar de uma trajetória marcada por denúncias de "rachadinhas", patrimônio incompatível com a renda e uma postura política submissa e entreguista a interesses externos, especialmente aos Estados Unidos.

É nessa materialidade que se aprofunda o contraste entre a proposta progressista de reeleição e a alternativa da extrema direita. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória transcende o plano interno e se projeta internacionalmente como a de um estadista. Além desses atributos, seu governo tem se projetado por um desenvolvimento econômico sustentável, com indicadores relevantes traduzidos por níveis consistentes de emprego, controle inflacionário dentro de parâmetros administráveis e retomada de políticas redistributivas, com maior incidência tributária sobre as camadas mais ricas.

Do outro lado, emerge o legado do bolsonarismo, que fragilizou instituições e deteriorou a economia. Esse estilo deletério de governar desdobra-se em figuras como Romeu Zema. Sua atuação em Minas Gerais foi marcada pelo enfraquecimento de políticas para grupos vulneráveis e cortes na saúde e educação, enquanto ampliava gastos com publicidade.

Esse cenário tornou-se ainda mais preocupante diante de declarações públicas que colocaram em xeque marcos históricos e direitos básicos. Ao relativizar a existência da ditadura militar no Brasil, tratando-a como uma “questão de interpretação” e afirmando desconhecimento sobre o tema, Zema evidenciou não apenas lacunas significativas em sua formação política, mas também um discurso que tangencia o revisionismo histórico. Seu plano de governo, caso seja eleito para presidir o país, propõe mudanças estruturais no STF. Fica clara sua intenção de "fazer média" com o eleitor em meio a críticas recorrentes à instituição, potencializadas pela mídia corporativa no sentido de descredibilizar o STF junto à opinião pública. Também prevê a anistia a Jair Bolsonaro, a privatização absoluta das empresas públicas e aprofundamento das reformas trabalhista e previdenciária. 

Na mesma direção, outras lideranças desse espectro político, como Ronaldo Caiado (PSD), historicamente vinculado a interesses do latifúndio e a uma agenda conservadora, privatista e de redução de gastos com políticas públicas. Durante seu governo foi alvo de acusações de nepotismo e marcado por índices elevados de letalidade policial, elementos que reforçam um padrão de gestão associado à violência institucional e à fragilização de mecanismos de controle democrático. Caiado também promete, entre suas propostas de governo, a anistia ampla, geral e irrestrita não apenas a Jair Bolsonaro, mas a todos os envolvidos em tentativas de ruptura institucional. Fica visível sua pretensão de angariar votos da ala bolsonarista.

Nesse sentido, a comparação entre trajetórias, capacidades de governança e compromissos históricos expõe diferenças substantivas que não podem ser obscurecidas por estratégias eleitorais, pela desinformação disseminada em larga escala ou por discursos calculistas que se alimentam da instabilidade e da confusão social.

Ao retomarmos os dados mais recentes dos institutos de pesquisa, observamos que os avanços do atual governo não estão se refletindo automaticamente em estabilidade eleitoral, especialmente diante de uma guerra de narrativas digitais impulsionada pela oposição. Diante desse fenômeno, surge uma indagação recorrente acerca do crescente distanciamento político entre os jovens e segmentos da classe média brasileira. Não se trata de um fenômeno superficial, mas de um sintoma claro de desgaste na relação dessas parcelas da sociedade com a política institucional. 

No caso da classe média, a insatisfação está fortemente associada ao custo de vida, ao endividamento e à inadimplência, fatores que se mantêm mesmo diante de sinais de recuperação da renda, produzindo um sentimento difuso de frustração. Soma-se a isso o impacto de variáveis externas, como tensões geopolíticas que pressionam preços estratégicos, e a manutenção de taxas de juros elevadas no Brasil, que corroem o poder de compra e empurram famílias para mecanismos de crédito oneroso, como o rotativo do cartão e o cheque especial. Esse conjunto de fatores gera uma percepção contraditória: ainda que indicadores macroeconômicos apresentem melhora, o orçamento doméstico segue pressionado, diluído por dívidas acumuladas. 

Entre os jovens, o quadro é igualmente preocupante. Pesquisas indicam que mais de 70% da chamada geração Z não se sente representada pelos políticos tradicionais, o que alimenta apatia, descrença e afastamento do processo eleitoral. Diferentemente de gerações anteriores, observa-se uma tendência maior de identificação com posições de centro ou até de direita, acompanhada por um ceticismo crescente à medida que avançam na vida adulta. Esse deslocamento está diretamente relacionado à percepção de um futuro incerto, no qual a necessidade de trabalhar por mais tempo, a instabilidade previdenciária e o enfraquecimento de garantias sociais projetam um horizonte de insegurança permanente.

Todavia, o ponto crítico, reside no fato de que essa insatisfação vem sendo instrumentalizada por forças políticas que oferecem respostas fáceis para problemas complexos, ao mesmo tempo em que defendem agendas que aprofundam exatamente as condições que geram esse mal-estar. Há, portanto, um evidente descompasso entre a causa da insatisfação e a direção do voto de parte do eleitorado.

É nesse panorama que a escolha eleitoral assume um caráter decisivo. Trata-se de uma disputa entre propostas antagônicas de sociedade. De um lado, um projeto progressista que, ainda que sob fortes pressões internas e externas, busca recompor políticas públicas, reduzir desigualdades e preservar instrumentos de proteção social. De outro, um projeto neoliberal que, sob o discurso de eficiência e modernização, promove o desmonte do Estado, a privatização de direitos com a transferência sistemática de renda para uma minoria privilegiada financeiramente.

A contradição é evidente. Ao canalizar sua insatisfação em direção a projetos que aprofundam a desigualdade, parte significativa da população acaba votando contra seus próprios interesses materiais. E é justamente aí que reside o risco maior. 

Ao contrário do que sugerem as promessas de mudança apoiadas no ideário de mercado, a evidência empírica recente indica que tais orientações não produzem alívio distributivo, mas tendem a aprofundar assimetrias exponenciais. Diferente do camaleão, que muda de cor para se proteger do predador, o camaleonismo político muda de discurso para predar a esperança de quem está insatisfeito. A experiência argentina sob Milei prova que ajustes radicais não produzem alívio, mas precariedade perversa. 

Diante disso, a escolha que se impõe não se circunscreve ao plano estritamente político eleitoral, mas na continuidade da busca de qualidade de vida dos brasileiros. Ou se fortalece um projeto comprometido com inclusão, redistribuição de renda e desenvolvimento social, ou se aprofunda um modelo que transforma a frustração presente em precariedade permanente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.