Entre a tarrafa e o ruído, o futuro das entidades trabalhistas
Sindicatos que não assumirem transformação urgente e estratégica perderão relevância pública, capacidade de mobilização e presença efetiva nas disputas
O primeiro sindicato de trabalhadores de Macau, no Rio Grande do Norte, surgiu ainda na década de 1930. Foi lançado em 1938 e reconhecido oficialmente pelo Ministério do Trabalho em 1948. Chamava-se Sindicato dos Trabalhadores na Extração de Sal de Macau — também conhecido como Sindicato dos Operários Salineiros — e foi criado por meu avô, Venâncio Zacarias de Araújo, que anos depois se tornaria prefeito da cidade, em 1957. Macau consolidava-se como polo estratégico da salina brasileira. Sede da Salinor, líder nacional com mais de 40% da produção, a cidade explora um conjunto singular de fatores naturais — sol intenso, ventos firmes e geografia plana — que explicam por que o Rio Grande do Norte responde por cerca de 95% do sal produzido no país.
A atividade salineira de Macau remonta ao século XVII e moldou a economia local por gerações. No auge, entre as décadas de 1950 e 1960, o sindicato reunia milhares de associados, tornou-se uma das entidades mais fortes da região, lutou por direitos trabalhistas, criou o SESTIS (Serviço Social dos Trabalhadores da Indústria do Sal) e influenciou diretamente a política local. Cresci ouvindo relatos sobre greves, negociações coletivas e assembleias acaloradas. Minha familiaridade com o universo sindical não nasceu apenas da pesquisa acadêmica, mas da memória viva de casa.
Antes da consolidação do sindicato salineiro, o Rio Grande do Norte já registrava experiências organizativas relevantes. O Sindicato do Garrancho, fundado em 1933, organizou trabalhadores da extração e do assentamento de pedras e marcou um momento importante na articulação coletiva no estado. Essa mobilização ajudou a pavimentar o sindicalismo potiguar e antecedeu a criação do Sindicato dos Salineiros de Macau, em 1938, ampliando a luta por direitos na cadeia produtiva do sal e fortalecendo a consciência política em uma região historicamente desigual.
Hoje, como professor universitário e estudioso das organizações sociais de trabalhadores no Brasil, observo que os desafios mudaram de forma, mas não de essência. A luta por direitos permanece. O que se transformou radicalmente foi o ambiente em que essa luta se dá. Se no passado o sindicato precisava de sede física, jornal impresso e carro de som, agora precisa compreender algoritmos, métricas de engajamento e segmentação digital.
As eleições de 2022 revelaram um dado relevante para qualquer análise institucional: a dificuldade de converter capilaridade organizativa em presença digital coordenada. Diversas entidades buscaram estruturar comissões e brigadas digitais, com a meta ambiciosa de formar milhares de núcleos interligados. O resultado ficou muito abaixo do esperado. O problema não foi ausência de militância, mas falta de método, integração e planejamento sistêmico.
Predominaram redes fragmentadas, muitas vezes vinculadas a lideranças específicas ou a mandatos parlamentares isolados.
Do ponto de vista sociológico, isso expõe uma tensão contemporânea: instituições concebidas para ação coletiva enfrentando um ambiente tecnológico que privilegia personalização, velocidade e comunicação descentralizada. A cultura sindical, historicamente baseada em assembleias e decisões colegiadas, encontra dificuldade para se adaptar à lógica instantânea das plataformas.
A reflexão aqui não é partidária. É estrutural. A democracia contemporânea é atravessada por fluxos informacionais intensos. Quem não domina a lógica das redes perde capacidade de disputar narrativas públicas. Produzir conteúdo não é suficiente. Há abundância de posts, vídeos curtos, cards e declarações circulando diariamente. O gargalo está na arquitetura de distribuição.
Entre as propostas debatidas em círculos sindicais e acadêmicos está a criação de sistemas organizados no formato de “tarrafa”: um núcleo central articulando redes estaduais, setoriais e municipais. A imagem é precisa. A tarrafa só cumpre sua função quando cada nó está conectado. Na prática, isso significa coordenação de listas de transmissão, definição de horários estratégicos de envio e integração entre diferentes plataformas — WhatsApp, Instagram, Facebook, X e outras.
Estudos sobre comportamento digital indicam que a simultaneidade de postagens amplia o alcance orgânico. Quando milhares de perfis replicam uma mensagem em curto intervalo, os algoritmos identificam relevância e ampliam visibilidade. Essa lógica exige disciplina — algo que sempre foi virtude das organizações trabalhistas —, mas que precisa ser traduzido para o ambiente virtual.
Outro elemento central é a segmentação de público. Trabalhadores na ativa têm demandas distintas das de aposentados. Jovens sindicalizados interagem de forma diferente em comparação a dirigentes históricos. Ferramentas de Big Data e inteligência artificial permitem personalizar mensagens. Contudo, seu uso deve respeitar rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados. Bases públicas como RAIS e SIDRA oferecem subsídios estatísticos, mas dados pessoais só podem ser utilizados com autorização expressa. Estratégia sem ética compromete legitimidade.
O Brasil possui dezenas de milhares de dirigentes sindicais espalhados pelo território. Se cada um operar como ponto de rede, compartilhando conteúdos em listas próprias e redes sociais, o potencial de difusão é expressivo. Mas isso não se constrói por improviso. Exige formação continuada, definição clara de responsabilidades e acompanhamento permanente de resultados.
Há também um risco evidente: acreditar que tecnologia substitui legitimidade.
Redes bem estruturadas ampliam alcance, mas não substituem propostas consistentes nem diálogo real com a base.
A confiança permanece sendo o ativo central de qualquer organização social.
Quando recordo as histórias de Macau e da entidade fundada por meu avô, percebo que o elemento decisivo sempre foi organização. Na década de 1930, estruturar uma entidade de trabalhadores exigia coragem diante de um Estado ainda centralizador e de relações laborais assimétricas. Nos anos 1950, ampliar direitos significava enfrentar resistências econômicas e políticas locais. Hoje, o cenário mudou, mas a necessidade de método e visão estratégica permanece.
O século XXI impõe às organizações trabalhistas um duplo movimento: preservar sua identidade histórica e incorporar competência tecnológica.
A assembleia física continua relevante, mas precisa dialogar com a assembleia digital. O panfleto tornou-se post; o jornal mural, feed; a palavra de ordem ecoa agora em timelines.
Como pesquisador, vejo que a capacidade de coordenação será determinante para o futuro das organizações sociais de trabalhadores no Brasil. Não se trata apenas de disputar eleições, mas de manter presença qualificada no debate público. Comunicação deixou de ser acessório; tornou-se infraestrutura.
Entre as salinas potiguares e o universo dos algoritmos, há uma linha contínua: a organização coletiva como instrumento de dignidade. Sem método, há dispersão. Com método, há voz. A história demonstra que trabalhadores organizados transformam realidades — não por retórica, mas por estrutura, método e continuidade. O ambiente mudou de forma vertiginosa; a exigência de coordenação, contudo, permanece intacta. E agora é imperativo elevá-la de patamar. Não há espaço para inércia institucional.
Água parada acumula lodo; organização que apenas reage, que se acomoda à rotina burocrática ou se fecha à inovação, degrada-se silenciosamente. Sindicato desmotivado, refratário à mudança e desmobilizado perde relevância, perde base, perde voz. No mundo dos algoritmos e da disputa permanente por atenção, quem não circula, não articula e não se renova, evapora.
A nova organização sindical mais adequada ao tempo atual não pode ser um edifício vertical com salas isoladas, mas um sistema nervoso distribuído, no qual cada dirigente funciona como neurônio ativo, capaz de receber, processar e retransmitir informação em sincronia com o todo. Se o modelo antigo era a praça pública cercada por paredes físicas, o modelo contemporâneo precisa assemelhar-se a uma constelação interligada por fibras invisíveis: cada estrela mantém sua identidade própria, mas só produz orientação quando conectada às demais. Sem conexão, há pontos de luz dispersos; com conexão, forma-se o mapa que guia a travessia coletiva.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
