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Helder Salomão

Deputado federal (PT-ES), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara Federal e professor de Filosofia licenciado

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Entre a vida e a economia

Esta discussão não é um mero conflito de opiniões trazido pela pandemia do Covid19. Trata-se de um dilema da humanidade que perpassa todos os tempos

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É tolice discutir o que é mais importante, se a vida ou a economia?

Claro que não! Esta discussão não é um mero conflito de opiniões trazido pela pandemia do Covid19. Trata-se de um dilema da humanidade que perpassa todos os tempos.

Somos seres históricos em permanente mudança e falamos de um lugar social concreto. Nossas opiniões, teses, crenças e práticas são influenciadas de várias maneiras: pela convivência familiar, pelas realidades culturais, pelas concepções filosóficas, religiosas, científicas, pelos meios de comunicação e, hoje, mais do que antes, pelas redes sociais.

Então, o debate sobre esta dicotomia é importante porque revela a pluralidade do pensamento humano, as concepções ideológicas que orientam as práticas sociais e políticas e que dominam as relações humanas em todos os cantos do planeta.

Para aqueles que dão centralidade à vida em sua caminhada terrena, é inadmissível que num momento tão grave de pandemia do coronavírus, alguém possa cogitar a possibilidade de colocar os interesses da economia, do dinheiro e do lucro acima da saúde e da preservação da vida.

Mas, como temos visto, não são poucas as pessoas que colocam os objetivos mercantis e econômicos em primeiro plano. No Brasil, o próprio presidente da República dissemina este discurso e uma parcela da sociedade brasileira faz coro a esta orientação, mesmo num momento em que o país e o mundo atravessam uma crise sanitária que pode ceifar milhões de vidas.

O que faz uma pessoa colocar a própria vida em risco e especialmente a vida de milhões de outras pessoas para salvaguardar seus próprios interesses?

Esta não é uma pergunta que tem resposta fácil e simples, mas esta realidade certamente tem relação direta com o modelo de sociedade criado por nós humanos: onde o que mais conta não é o que se é, mas o que se tem. Onde o individualismo, o consumismo e a competição substituem o companheirismo, a sustentabilidade e a cooperação, e a concentração de renda e de riqueza são virtudes celebradas nos palcos do mercado; ao passo que a pobreza e a miséria são vistas como consequências naturais do processo civilizatório.

Mas essa não é a regra. Há muitas experiências do Bem Viver espalhadas por muitos lugares. Precisamos voltar o nosso olhar para o que acontece na periferia do mundo e nas iniciativas populares que estão gestando um novo modelo de sociedade que tem como base o associativismo, a cooperação e a economia solidária, e que mostram que um outro mundo é possível.

Precisamos remar contra a lógica do capital e, juntos, desenharmos uma nova nova ordem mundial fundada nos princípios basilares do amor, da justiça, da equidade, da democracia, do diálogo, da diversidade, do respeito, da tolerância, da solidariedade, do cuidado e do afeto, onde a vida seja sempre o motivo primeiro das nossas ações e a economia esteja à serviço da coletividade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.