Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

386 artigos

HOME > blog

Entre Itaguaí e Washington, a frágil fronteira entre razão e loucura se desmancha

Quem examina os examinadores? Machado, Foucault e a política como doença mental. Eles revelam como o poder e a ciência são os maiores espetáculos da insanidade

Agentes do Serviço Secreto dos EUA na Casa Branca (Foto: Reuters/Tasos Katopodis)

Quem define a sanidade? O gênio que aponta o dedo ou o povo que ri da sua dança com a loucura? Em Itaguaí, um médico de bisturi afiado construía sua Casa Verde para catalogar desatinos, enquanto, na Casa Branca, um líder de cabelos rebeldes, em seu segundo mandato, comanda a nação como quem separa o certo do insano. A linha entre razão e loucura é muito tênue, e ambos, com suas certezas, parecem flertar com o delírio, deixando o mundo a gargalhar e a questionar: quem se atém à verdade?

Essa fronteira escorregadia intriga cientistas e filósofos há séculos. Neurologicamente, a razão vive no córtex pré-frontal, orquestrando lógica e decisões.

A loucura – de demências como Alzheimer a psicoses – surge quando esses circuitos tropeçam, seja por neurodegeneração ou desequilíbrios químicos. Estudos apontam que estresse ou traumas podem borrar essa linha, fazendo o cérebro oscilar.

Filosoficamente, Platão via na loucura um toque divino, enquanto Foucault a chamava de invenção do poder. Quem decide o que é louco? O dono do bisturi ou da tribuna?

Em Itaguaí, onde o sol ri com a poeira, o doutor Simão Bacamarte, de olhar aguçado e caderno bisbilhoteiro, resolveu dissecar a alma.

Sua Casa Verde, hospício com jeitão de laboratório, virou o coração da vila. “A verdadeira sabedoria está em duvidar da própria razão”, dizia, internando o padeiro que cantava ópera, a costureira de vestidos voadores e até o primo que via estrelas ao meio-dia.

“O que é a loucura senão um excesso de perfeição?”, proclamava, com ares de quem decifrou o cosmos. Itaguaí, entre risos e murmúrios, via Bacamarte reger seu circo de desatinos, onde todos eram peões num tabuleiro da sanidade. Machado de Assis, com sua escrita afiada, nos faz rir desse gênio que, caçando a loucura, talvez tenha virado seu parceiro.

Na Casa Branca, um líder de gestos largos brada: “ninguém entende melhor do que eu, acreditem!”. Ecoa Bacamarte, que jurava: “a ciência me guia, e eu guio a verdade".

Ele aponta para a mídia, rivais, até o internauta que “tuíta” fora da curva: “fake news! Tremenda loucura!” A Casa Branca, como a Casa Verde, é um palco onde a sanidade faz piruetas. “Vamos fazer tudo grande de novo!”, promete, enquanto o mundo, como Itaguaí, ri e se espanta.

Mas há quem questione sua sanidade. Em 2024, o psiquiatra Allen Dyer alertou que seus discursos erráticos e lapsos “sugerem comprometimento cognitivo progressivo”, recomendando exames. O neurologista Richard Cytowic notou que “fala desconexa e dificuldades de memória” indicam “deterioração cognitiva”. O psiquiatra John Gartner destacou “incapacidade de raciocínio coerente e explosões emocionais” como sinais de “demência precoce”. Tudo baseado em observações públicas, sem diagnóstico direto.

A história conhece líderes afastados por tais sombras. Calvin Coolidge, presidente dos EUA (1923-1929), após perder o filho, caiu em depressão profunda, tornando-se ausente. “A Grande Depressão talvez fosse menor se ele não estivesse paralisado”, disse o cientista político Robert Gilbert. Jorge III, rei britânico (1760-1820), com crises de porfiria, teve delírios que o levaram à regência do filho em 1811.

Na Casa Verde ou Casa Branca, a farsa da razão brilha. Bacamarte e esse líder, com certezas absolutas, dançam entre genialidade e delírio. Como diria Machado, a loucura é a razão com um chapéu chamativo, espalhafatoso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.