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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Entre o choque do Petróleo e a cautela monetária: O dilema da super quarta

O petróleo voltou a superar a marca de US$ 100 por barril, o que adiciona pressão inflacionária global

Barril do petróleo (Foto: Reuters)

Hoje à tarde teremos decisões importantes de política monetária. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve deve anunciar sua decisão às 15h (horário de Brasília). A expectativa predominante é de manutenção dos juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%. Ainda assim, há incerteza quanto ao sinal que será dado sobre os próximos passos — especialmente em relação ao início de cortes de juros.

Dentro do Fed, há divergências relevantes. Alguns diretores já indicam preferência por iniciar um ciclo de cortes (possivelmente de 0,25 ponto percentual), enquanto outros defendem a manutenção da taxa atual. Esse dissenso interno revela um ambiente de elevada incerteza, agravado recentemente pelo choque nos preços do petróleo.

O petróleo voltou a superar a marca de US$ 100 por barril, o que adiciona pressão inflacionária global. Ao mesmo tempo, o índice de preços ao produtor (PPI) dos Estados Unidos veio acima do esperado, com alta mensal mais forte, reforçando o cenário de inflação ainda resistente. Vale destacar, no entanto, que esse dado ainda não incorpora plenamente o impacto recente da alta do petróleo.

Diante desse quadro, o mercado passou a revisar suas expectativas: o início do ciclo de corte de juros nos EUA, que antes era esperado para o primeiro semestre, agora já é projetado mais para o segundo semestre — possivelmente apenas no quarto trimestre.

Outro ponto importante da reunião do Fed é a divulgação do chamado “Summary of Economic Projections” (SEP), que traz as projeções dos diretores para juros, crescimento e inflação. Esse documento será crucial para entender a trajetória esperada da política monetária americana.

No Brasil, a decisão do Copom também ocorre hoje à noite. A expectativa majoritária do mercado aponta para um corte de 0,25 ponto percentual na Selic. Há algumas semanas, antes do choque do petróleo, discutia-se a possibilidade de um corte mais agressivo, de 0,50 ponto, mas esse cenário perdeu força.

A alta recente dos combustíveis elevou as expectativas de inflação, que já se aproximam de 4% para este ano. Além disso, há riscos adicionais, como a possibilidade de greve de caminhoneiros, o que torna o ambiente ainda mais delicado. Choques em gasolina e diesel têm efeitos disseminados sobre toda a economia, afetando cadeias produtivas e pressionando preços.

Diante disso, o Banco Central deve optar por uma postura mais cautelosa. O corte de 0,25 ponto parece o mais provável, possivelmente acompanhado de uma comunicação mais conservadora em relação aos próximos passos — sem sinalizar de forma clara a continuidade do ciclo de afrouxamento.

Outro destaque relevante é a atuação do Tesouro Nacional. Nos últimos dias, houve intervenções significativas no mercado, com recompras de títulos que já somam cerca de R$ 44 bilhões, além de novas operações anunciadas hoje, que podem chegar a mais R$ 20 bilhões. Trata-se de um volume expressivo, pouco comum em termos históricos.

Apesar disso, o impacto sobre a curva de juros tem sido limitado. As taxas futuras continuam pressionadas, indicando que o mercado segue exigindo prêmios elevados. Isso reflete o fato de que o Tesouro é, estruturalmente, um grande tomador de recursos, dado o elevado déficit nominal — fortemente influenciado pelo custo do pagamento de juros.

No setor de combustíveis, a Petrobras vem segurando repasses de preços, mas há uma defasagem relevante em relação ao mercado internacional, especialmente na gasolina. Isso cria uma espécie de “pressão acumulada”, que pode se traduzir em reajustes futuros e, consequentemente, em mais inflação.

Por fim, os indicadores de inflação implícita — medidos pela diferença entre títulos indexados e prefixados — também vêm subindo, sinalizando deterioração das expectativas.

Em síntese, o cenário ficou mais complexo:

– O Fed deve manter os juros hoje;

– O Banco Central brasileiro deve realizar um corte mais moderado, de 0,25 ponto;

– E o ambiente inflacionário global, impulsionado pelo petróleo, adiciona incerteza e cautela às decisões de política monetária.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.