Maria Luiza Falcão Silva avatar

Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

200 artigos

HOME > blog

Entre o crédito caro e a vida cara: o que está em jogo em 2026

Juros, endividamento e transporte como termômetro da eleição

Entre o crédito caro e a vida cara: o que está em jogo em 2026 (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Há algo de aparentemente paradoxal no Brasil que se aproxima das eleições presidenciais de 2026. Os indicadores macroeconômicos não sugerem uma crise clássica: o desemprego caiu, a inflação perdeu intensidade em relação aos picos recentes e o crescimento, ainda que modesto, se mantém positivo. E, no entanto, o humor social não acompanha essa melhora.

Essa dissociação entre números e percepção não é um detalhe — é, na verdade, o ponto central da disputa política que se desenha.

A economia pode estar melhorando nos relatórios. Mas, para milhões de brasileiros, a vida continua difícil. E é nesse descompasso que se definem eleições.

Três elementos, em particular, ajudam a explicar esse fenômeno: o nível elevado dos juros, o grau de endividamento das famílias e o custo dos transportes. Não são variáveis abstratas. São experiências cotidianas.

Comecemos pelo endividamento.

Dados recentes indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas gira em torno de 30%. Esse número, por si só, já diz muito. Não se trata apenas de quantas famílias estão endividadas — que são muitas —, mas de quanto da renda mensal está sendo drenado para o sistema financeiro.

É uma transferência silenciosa e contínua.

O salário entra, mas não permanece. Ele é rapidamente absorvido por parcelas, juros do cartão, crédito consignado, financiamento. O consumo se mantém, mas comprimido. A sensação de sufocamento financeiro se instala mesmo entre aqueles que estão empregados.

Esse é o primeiro posto-chave: o endividamento transforma renda em ilusão de renda.

A esse quadro soma-se o nível ainda elevado das taxas de juros. Mesmo com eventuais reduções, o custo do crédito no Brasil permanece entre os mais altos do mundo. Isso significa que cada parcela paga carrega, embutido, um peso adicional — invisível, mas decisivo.

Juros altos não aparecem na prateleira do supermercado. Mas aparecem na fatura.

Eles operam como um imposto não declarado sobre o presente e sobre o futuro. Travam o investimento, dificultam uma retomada mais robusta da economia e, sobretudo, ampliam o custo de viver.

O resultado é um cotidiano em que o dinheiro não rende — e, mais do que isso, parece sempre insuficiente.

Mas há um terceiro elemento que torna essa equação ainda mais sensível: o transporte.

Poucos preços têm impacto tão direto e imediato na percepção da economia quanto os combustíveis e as tarifas de transporte público. O aumento do diesel encarece alimentos. A gasolina pesa no orçamento das famílias. A passagem de ônibus incide diariamente sobre o trabalhador.

Diferentemente dos juros, que operam de forma difusa, o transporte é concreto, visível, inevitável.

Ele é pago todos os dias.

E, por isso, se converte em um dos principais formadores da chamada “inflação percebida” — aquela que não depende dos índices oficiais, mas da experiência direta das pessoas.

Mas há ainda um elemento adicional, frequentemente invisível no debate público, que agrava esse quadro: o impacto das tensões geopolíticas e dos conflitos internacionais sobre os preços da energia. Guerras e disputas no Oriente Médio, interrupções em rotas estratégicas e a própria revalorização geopolítica do petróleo pressionam os preços globais dos combustíveis. Esse movimento, no entanto, não é percebido como tal pela população. O que chega ao cotidiano não é a geopolítica — é o preço da gasolina e do diesel. A mediação entre esses dois planos simplesmente desaparece. E, na ausência dessa conexão, a alta dos combustíveis tende a ser atribuída diretamente ao governo, reforçando a percepção de deterioração econômica, ainda que suas causas sejam, em grande medida, externas.

É nesse ponto que os três fatores se encontram.

Juros elevados encarecem o crédito. O crédito caro alimenta o endividamento. O endividamento reduz a renda disponível. Ao mesmo tempo, o custo do transporte pressiona o orçamento diário e encarece toda a cadeia de consumo.

Forma-se, assim, um ciclo de compressão do bem-estar.

A economia cresce, mas a vida não melhora na mesma proporção.

E é exatamente esse tipo de situação que costuma produzir resultados eleitorais imprevisíveis.

O presidente Lula chega a 2026 com ativos importantes: recuperação do emprego, programas sociais fortalecidos, alguma estabilidade institucional após anos de turbulência. Mas enfrenta um desafio clássico de governos em contextos de juros altos: a dificuldade de converter melhora macroeconômica em sensação de progresso no cotidiano.

Esse é um terreno fértil para narrativas simplificadoras.

A extrema direita não precisa apresentar um diagnóstico sofisticado. Basta capturar o sentimento difuso de insatisfação e traduzi-lo em uma mensagem direta: “a vida piorou”.

E, quando a experiência cotidiana parece confirmar essa percepção, o argumento ganha força.

O risco, portanto, não está necessariamente em uma deterioração abrupta da economia, mas em algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: a persistência de um mal-estar econômico difuso, alimentado por fatores que atingem diretamente o bolso e a rotina das famílias.

Juros, endividamento e transporte não são apenas variáveis econômicas. São mediadores da percepção social.

E eleições, no fim das contas, são decididas exatamente aí.

Se o governo conseguir reduzir esse descompasso — aliviando o custo do crédito, enfrentando o peso do endividamento e estabilizando os preços que mais afetam o cotidiano —, poderá transformar estabilidade em apoio político.

Se não conseguir, corre o risco de ver uma economia razoavelmente organizada produzir um resultado eleitoral adverso e desastroso.

A história recente mostra que isso não é apenas possível.

É, muitas vezes, o que acontece.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.