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Magide Vieira

Historiadora e mestranda em Relações Internacionais pela UERJ, compõe o Núcleo BRICS do PT e Coletivo de Relações de RI da JPT.

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Entre o heroísmo e a ilusão: o recrutamento de brasileiros para a guerra da Ucrânia

É preciso desmistificar a ideia de que participar de uma guerra estrangeira é, necessariamente, um ato de bravura ou compromisso moral

Militares ucranianos (Foto: REUTERS/Viacheslav Ratynskyi)
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A imagem de brasileiros na guerra da Ucrânia, empunhando símbolos nacionais em meio ao conflito, pode, à primeira vista, sugerir coragem, engajamento ou até heroísmo. No entanto, por trás dessa narrativa visual poderosa, existe uma realidade muito mais complexa e, sobretudo, perigosa.

Nos últimos anos, o recrutamento de estrangeiros para atuar no conflito ucraniano tem se intensificado, impulsionado pela necessidade de reposição de tropas diante de altas taxas de baixas e deserções. Nesse cenário, brasileiros têm sido alvo frequente de campanhas que transformam a guerra em uma espécie de missão global, apelando para valores como liberdade, justiça e pertencimento.

O problema é que essa construção simbólica simplifica, quando não distorce, a realidade. Jovens que decidem se alistar frequentemente o fazem movidos por uma combinação de fatores: idealismo, necessidade financeira e uma busca por sentido em suas próprias trajetórias. A guerra aparece, então, como uma oportunidade de reinvenção pessoal.

Mas essa promessa cobra um preço alto. As mortes de brasileiros no conflito, como as de Igor Amazonas, Kauan Victor da Silva e Bruno Gabriel Leal da Silva, este último um jovem de 24 anos, revelam isso. Ele não morreu em combate, mas dentro de uma base militar, após ser torturado. Segundo reportagem publicada pelo SBT News em 22 de fevereiro deste ano, a morte ocorreu após uma sessão de espancamento coletivo.

Situações como essas revelam que esses combatentes estão longe de viver qualquer experiência heroica. Ao contrário, enfrentam condições extremamente adversas, muitas vezes sem garantias básicas de segurança, direitos ou mesmo reconhecimento.

Relatos de violência interna, retenção de documentos e punições brutais indicam que há uma estrutura de controle que ultrapassa os limites do aceitável, mesmo em um contexto de guerra. Esses elementos raramente aparecem nos materiais de recrutamento, que preferem enfatizar valores abstratos e minimizar riscos concretos.

Há, ainda, um aspecto simbólico que merece atenção. A utilização de referências culturais brasileiras no contexto da guerra não é apenas um detalhe estético; é uma estratégia de comunicação. Ao inserir elementos familiares, essas campanhas criam uma ponte emocional que facilita o engajamento. No entanto, essa identificação é construída sobre a ilusão de que esses combatentes fazem parte de algo maior, quando, na prática, ocupam uma posição marginal dentro da estrutura do conflito.

O debate sobre a participação de brasileiros em guerras estrangeiras não pode se limitar à esfera individual. É necessário questionar as condições que tornam esse alistamento atraente e, ao mesmo tempo, refletir sobre os limites éticos e políticos dessa prática. O direito internacional já reconhece o caráter problemático do mercenarismo, justamente por entender que ele compromete princípios fundamentais, como a proteção da vida e a soberania dos Estados.

Mais do que isso, é preciso desmistificar a ideia de que participar de uma guerra estrangeira é, necessariamente, um ato de bravura ou compromisso moral. Em muitos casos, trata-se de uma escolha atravessada por desigualdades e por narrativas que romantizam um cenário essencialmente violento e desumanizador.

O desafio, portanto, é construir um debate público mais honesto e menos seduzido por imagens e discursos simplificadores. Porque, no fim das contas, entre o heroísmo e a ilusão, o que está em jogo são vidas reais e, muitas vezes, descartáveis.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.