Entre o ideal político e a realidade prática da política

O desafio para a esquerda é ao mesmo tempo em que ela resiste ao neoliberalismo enquanto ideologia, ela deve criar novos valores, novas dinâmicas sociais e novas alternativas econômicas

Candidato à Presidência da França, Emmanuel Macron. 17/04/2017 REUTERS/Christian Hartmann
Candidato à Presidência da França, Emmanuel Macron. 17/04/2017 REUTERS/Christian Hartmann (Foto: Marilza De Melo Foucher)

« Ô mois des floraisons, mois des métamorphoses Mai qui fut sans nuage et Juin poignardé Je n'oublierai jamais les lilas ni les roses Ni ceux que le printemps dans ses plis a gardés. » ( Les lilás et les roses – poeta Louis Aragon)

 A taxa de abstenção da eleição legislativa francesa chegou a quase 52%, a maior depois de 1958. Somente este fato, deveria levar o governo Macron a refletir sobre o significado de sua esmagadora maioria parlamentar, tendo em vista, que na realidade o partido “Em Marcha”não tem a adesão da maioria dos franceses. No primeiro turno legislativo (11 de junho) o número de eleitores que exerceram sua cidadania é menor que o número de eleitores que não se expressaram.Há nos resultados deste primeiro turno uma crise política e um turbilhão de incertezas que afetam não só a esquerda, mas todo o mundo político francês.

O constato é amargo, principalmente para a esquerda. A dita esquerda governamental submeteu-se às regras do pensamento neoliberal que reduz o ser humano a seu status Homooecomicus, foi incapaz de buscar sua emancipação. Na realidade durante anos a chamada esquerda governista adaptou-se à "realpolitik" formatada pelo neoliberalismo. Eles optaram pela política da oferta, priorizaram a eficiência econômica e deixaram os déficits sociais e políticas se acumularem. Para justificar o afastamento das idéias de esquerda, ela criou a governabilidade pragmática abandonando o que restava da social democracia optando pelo social-liberal. François Hollande disse explicitamente que o papel do Estado era de ajudar as empresas a competir na economia de mercado para apoiar o mercado de trabalho. Hoje o PS paga o preço do desengajamento de suas promessas eleitorais. O ex Presidente Hollande foi eleito pela esquerda, porém cumpriu a agenda da direita. Daí o seu fracasso estar mais ligado à execução de um programa político de direita, à sua confusão ideológica, que ao fracasso da própria esquerda francesa. Os parlamentares realmente de esquerda deixaram de apoiar as medidas governamentais de direita. Temos que reconhecer que os governos de direita na França sempre foram coerentes em cumprir com a agenda política da direita e sempre agiram para satisfazer os desejos e exigência dos eleitores da direita e extrema direita, ao contrario, do governo de Hollande que, eleito pela esquerda, adotou políticas de direita em nome do pragmatismo político.

Se hoje a maioria dos franceses de camadas populares desistem do direito cívico de votar é porque os partidos políticos principalmente os de esquerda se distanciaram das camadas populares e de suas aspirações.

Vale ressaltar que os partidos políticos esqueceram que a política concerne a todos e, por esta razão, a vida democrática dentro de um partido deveria ser mais aberta e mais participativa. Um partido político deveria federar os cidadãos em torno de um projeto coletivo, entretanto, não existe participação para construção conjunta visando reinventar o modo de fazer política. As iniciativas participativas dos cidadãos sempre foram barradas pela cultura predominante do verticalismo presente nos partidos. Basta relembrar a campanha presidencial de Ségolène Royal pelo Partido Socialista. Ela tentou inovar trazendo para dentro do partido a democracia participativa para construir seu programa de governo, mas, em vez de receber apoio da direção do P.S., recebeu hostilidade. Sua derrota foi atribuída à falta de envolvimento na direção do P.S., presidido na época por François Hollande, ex companheiro dela. A fidelidade parece não integrar o seu modo de vida! 

A cada derrota as tendências políticas se disputam, mas o mea-culpa coletivo para mudar a estrutura vertical de funcionamento dos partidos sempre é um debate adiado. Aliás, a reflexão intelectual, o aprofundamento dos debates políticos assim como a formação de seus quadros e militantes foi substituída pelos think-tanks, ou seja, os dirigentes dos partidos políticos confiaram o futuro da política aos think-tankers que disputam o mercado de ideias e produzem instrumentos de como fazer política. O novo modo de fazer política se baseia principalmente em questões atuais e na comunicação para convencer a opinião pública. Em geral, eles fazem uso de uma linguagem formatada para produzir impacto mediático. Os think-tankers oferecem suas expertises, tanto para a esquerda como para a direita. Os partidos políticos criaram suas fundações, seus laboratórios de idéias, grupos de reflexão que encarnam este novo espírito de uma nova concepção política. São os thinktankers que moldam o pensamento dos partidos políticos impondo o pensamento dominante. São eles o termômetro pra medir a reação da opinião pública sobre determinado assunto. Os representantes dos partidos políticos eleitos raramente se apresentam nos bairros, nos municípios que foram eleitos, as visitas são realizadas somente em períodos eleitorais. Eles parecem não terem mais tempo para escutar seus eleitores e discutir sobre os projetos que pretendem apresentar no parlamento. Há mais de uma década que os partidos políticos na França entraram na nova era da política insossa, sem sonhos, sem ideal. Hoje a política é reduzida a uma visão de curto prazo, no imediato, em função das sondagens e dos estudos realizados pelos tecnocratas da vida política. Esta é a arte neoliberal de governar que é dominada pela cultura dos resultados e pelo desaparecimento de identidades políticas. Implica também em provocar a clivagem entre o velho e o novo, ou reciclam o velho para virar novidade. Certamente a “macromania” deve ter sido forjada em um desses laboratórios do novo pensamento político, ou seja, a mensagem política de guerra às ideologias, os novos adeptos do “nem esquerda e nem de direita” ou de “direita e esquerda”. 

A esquerda francesa no seu conjunto heterogêneo, deveria se questionar sobre essa maioria silenciosa que a cada eleição desiste de sua cidadania. Assim como a falta de estratégia para entender a crescente despolitização e a tática utilizada pela ideologia neoliberal em apagar identidades políticas para ganhar o poder. Existe hoje uma clara evidência da dicotomia entre o ideal político e a prática da governabilidade da esquerda. A realidade não muda a política, é a política que deve mudar a realidade. 

O desafio para a esquerda é ao mesmo tempo em que ela resiste ao neoliberalismo enquanto ideologia, ela deve criar novos valores, novas dinâmicas sociais e novas alternativas econômicas. A esquerda tem por obrigação estimular a participação do maior número de cidadãos nas decisões políticas, porque não podemos inovar a política, transformar o mundo sem os principais atores da política, sem inteligência coletiva. Reconquistar os territórios perdidos e a maioria silenciosa hoje descrente da política e de seus representantes. A esquerda deve entender suas contradições para agir em conformidade. As ideias podem realmente mudar o mundo, desde que elas estejam em conformidade com o discurso e os atos.

Não é a primeira vez que se decreta a morte da esquerda, porém para reacender sua chama das cinzas ela deve reconquistar os territórios onde se encontram os invisíveis da república francesa, os eleitores que desistiram da cidadania por decepção da política. Os partidos de esquerda devem buscar entender porque os símbolos fortes da república francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) perderam o sentido nesses territórios que hoje acumulam pobreza, desemprego e desesperança. Daí o descontentamento e desencanto político só tendem a aumentar a cada eleição. Quando uma maioria pensa que o voto é uma formalidade que não muda o quotidiano de todos os dias, a democracia está em perigo! Para reconstruir os elos quebrados não se faz com think-tanks, mas, com contatos direto com a realidade. Os poucos deputados de esquerda que serão eleitos vão ter que voltar ao terreno da ação política há anos abandonada, e com seus habitantes, com os atores da sociedade civil representados pelo mundo associativo, pelos grupos que promovem iniciativas de cidadania, pelos novos movimentos sociais, pelos representantes das micro e pequenas empresas para restabelecer o diálogo, pois será com eles que os novos eleitos de esquerda terão que construir seus projetos legislativos.  

O que assistimos nessas últimas eleições não é a morte da esquerda, ou melhor, da ideias que ela deveria encarnar, o que estamos presenciando é o fim inevitável de um partido político que traiu a própria social democracia e seu ideal político. Todavia, não podemos condenar todos os integrantes desse partido (P.S.) que se consideram de esquerda e nem tão pouco seus militantes que também se sentem traídos. A esquerda sempre foi plural e é na sua diversidade que ela é aglutinadora de forças. Nesse momento que a “macromania” se ampara da direita e centro esquerda para impor uma democracia por decreto, as esquerdas devem se somar e não alimentar divisões, ela deve apaziguar suas diferenças diante dos eleitores desorientados por cinco anos hollandisme. As contradições do PS e PC devem ser analisadas e conjuntamente buscar entendê-las para ultrapassá-las. Soprar sobre as cinzas para atiçar as chamas das divisões e decretar a morte definitiva dos partidos históricos não é uma boa tática, isso apenas fortalece a supremacia de um partido único que, pelo passado, sempre foi maléfico para a democracia, pois impede a pluralidade que sempre existiu nas tendências políticas de esquerda. 

Nota:

Segundo estudos feitos pelo laboratório Francês de ciências políticas-Cevipof, os candidatos a deputados pelo partido Macronista, A República em Marcha, pertencem às classes sociais superiores (68,9%) o que representa uma falha na chamada renovação política francesa. As classes médias representam apenas 23% sobre o total dos candidatos que participam dessa eleição legislativa. As ditas classes populares não representam mais que 8,5%. Em detalhe, a República em Marcha indicou apenas 0,2% de trabalhadores operários e 0,9% dos empregados assalariados. O setor agrícola conta apenas com 2,3% dos candidatos. Os gestores do setor privado estão mais bem representados por mais de 20% dos candidatos investidos. Os líderes empresariais também estão em uma boa posição constituindo cerca de 17% dos candidatos.

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