Entre Ramos e Espinhos

Esta semana, dita Santa, não fará sentido nenhum enquanto não houver sobriedade, enquanto o sentimento de justiça e a própria justiça estiverem aprisionados, enquanto o símbolo máximo de prosperidade brasileira chamado Luís Inácio Lula da Silva for mantido no cárcere político em que se encontra

Entre Ramos e Espinhos
Entre Ramos e Espinhos (Foto: Stuckert)

Mesmo não sendo mais católico, levei minha mãe (77 anos), hoje, para participar da Missa de Ramos que inicia a Semana Santa. Confesso que vivi alguns momentos de catarse, os quais conseguiram-me marejar os olhos. Um deles foi a leitura do julgamento e assassinato de Jesus pelas pessoas de bem e religiosos da época. Outro, o canto de comunhão. Experimentei um misto de tristeza e raiva ao mesmo tempo.

Durante a leitura do julgamento de Jesus e, em consequência, sua morte, dois juízes, Pilatos e Herodes, em não vendo crime algum cometido, queriam absolvê-lo. Insistiam nisso. Contudo, a população raivosa babava por sua morte e libertação de um, nada menos, incitador do povo contra o império e assassino, o tal do Barrabás. Por mais que os juízes insistissem, o coro fazia o mesmo e em tom cada vez mais crescente. Deu no que deu: um inocente morto.

Durante a comunhão, o canto “Eu vim para que todos tenham vida” e, não apenas isso, que todos tenham vida plenamente, retrata Jesus se dirigindo aos fiéis se colocando no lugar de cada pessoa que sofre, que tem fome, que está preso, que, por alguma razão, a vida não lhe é favorável, conclamando aos “irmãos” que, ao dizerem que o amam, que o amem na figura do próximo. Me emocionou, principalmente, quando Jesus se referia aos irmãos com fome: “Onde está o irmão com fome, eu estou com fome nele”.

Interessante notar que, uma semana antes, exatamente o objeto de hoje “Domingo de Ramos”, Jesus entra de forma triunfal em Jerusalém, acolhido por todos aos gritos e honrarias para, após sua prisão, exigir sua tortura e morte na cruz. Com toda a certeza entre eles estavam aqueles a quem ele curou, trouxe conforto, dignidade, esperança. Onde foi que Jesus errou com essas pessoas? Alguns dirão: “ele veio para cumprir com sua missão de ensinar o amor até as últimas consequências”. Será que foi bom professor? Todos aprenderam?

Dois mil anos após, percebe-se que tudo continua tal e qual. Se Jesus voltasse hoje, provavelmente seria morto novamente. O que talvez mudaria seriam os requintes de crueldade.

Embora na narrativa do julgamento os juízes tentaram, de todas as formas, libertar o prisioneiro por não ver nenhum crime em sua conduta, hoje vemos juízes que conspiram para que a justiça não seja feita. O que vale é o projeto de poder, principalmente o do capital.

O sistema político ainda é o mesmo. Os ricos são os mesmos, os poderosos são os mesmos, os pobres e desgraçados são os mesmos, porém em número exponencial. Tantos quantos queiram mudar isso serão expostos a todo tipo de perseguição e morte. Jesus não foi o primeiro, nem será o último. Ao longo da História da humanidade um sem número de pessoas passaram pelo calvário porque ousaram levar um pouco de vida plena para as pessoas. Esses tiveram suas coroas de espinhos, foram presos, torturados e, muitos, mortos.

No Brasil causa escândalo que os intitulados cidadãos de bem, cristãos, religiosos, que se dizem apegar à Bíblia - que seriam igualmente chamados por Jesus de sepulcros caiados - não se sensibilizam com a dor, com o sofrimento, com a fome e, muito menos, com a justiça ou a falta dela. Uma legião de pessoas que não aprenderam nada do mandamento do amor e que sabem, apenas, odiar. Muitos desses até há poucos anos estavam (e voltarão) nas estatísticas da pobreza e, tantos outros, da miséria. A vida melhorou, mas a pobreza e miséria humana a que estavam acostumados não lhes abandonou.

É assim que vemos hoje um presidente que fez tanto bem ao país e suas pessoas, independente de cor, riqueza, status social, preferência sexual e origem, sequestrado numa solitária e, tal qual Jesus, se cometeu algum crime foi o de mostrar para o povo que outra vida era possível, que ser feliz era possível, que amar era possível. E assim foi o Brasil durante 13 anos: vivo e altivo, feliz, rico, cheio de amor. O ódio que sempre pairou, que nas palavras de Bertold Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”, não era forte suficiente para vencer um povo feliz, permanecendo no armário esperando.

Abriu-se, não apenas o armário, mas a caixa de Pandora. A felicidade deu lugar à tristeza, a riqueza à pobreza, o amor ao ódio. Um ódio nutrido pelo capital e difundido pela grande mídia de tal modo que, até mesmo muitos daqueles que deveriam levar o amor às pessoas através das palavras de Jesus, saíram às ruas transformando as mãos que deveriam ser objeto de afeto, aliança, fraternidade e cura em símbolo de morte. Obviamente há aqueles que se insurgiram contra, mas acabaram vencidos.

Esta semana, dita Santa, não fará sentido nenhum enquanto não houver sobriedade, enquanto o sentimento de justiça e a própria justiça estiverem aprisionados, enquanto o símbolo máximo de prosperidade brasileira chamado Luís Inácio Lula da Silva for mantido no cárcere político em que se encontra.

Por fim, esse domingo de ramos e a semana seguinte se não proporcionarem uma profunda reflexão na sociedade, serão, apenas gestos que os cidadão de bem, ditos cristãos, farão apenas para cumprir um rito que, após o “ide em paz” ficará ali, inerte, esperando o próximo ano. Enquanto isso os espinhos crescerão suficientemente para fazer novas coroas que farão sangrar, ainda mais, o verdadeiro povo sofrido de Deus.

#LulaLivre #LulaNobelDaPaz

 

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