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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Entre Vorcaro e Trump

A agenda que Flávio construiu nos EUA e o problema que deixou em Brasília

Flávio Bolsonaro (Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)
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A coincidência temporal é difícil de ignorar. No momento em que Flávio Bolsonaro passou a enfrentar desgaste político decorrente das controvérsias envolvendo sua associação com Daniel Vorcaro e o Banco Master, o senador desembarcou nos Estados Unidos para uma agenda que recolocou seu nome no centro do debate nacional sob uma nova perspectiva: o combate ao crime organizado.

O efeito político é evidente. De repente, parte da imprensa deixou de discutir Vorcaro para discutir Donald Trump. Deixou de discutir relações entre poder político e sistema financeiro para discutir PCC e Comando Vermelho. Deixou de discutir o passado recente do senador, para discutir seu suposto papel na cooperação internacional contra facções criminosas.

Em política, mudar de assunto costuma ser tão importante quanto vencer um debate. E talvez seja exatamente isso que esteja em jogo.

Mas antes de discutir Trump, soberania ou crime organizado, vale observar um fato político objetivo. Independentemente das intenções que motivaram a viagem, Flávio Bolsonaro já obteve um resultado concreto: mudou o foco do debate público nacional.

A vitória da mudança de agenda

Até poucos dias atrás, as manchetes eram dominadas pelas repercussões de sua associação com Daniel Vorcaro e pelas consequências políticas do caso Banco Master. Hoje, o debate gira em torno das facções criminosas, da cooperação com os Estados Unidos, da classificação de organizações criminosas transnacionais e dos impactos dessa decisão sobre a soberania brasileira.

Em política, essa mudança não é um detalhe. Controlar a agenda frequentemente vale mais do que vencer uma discussão. Quando um ator político consegue substituir um tema desfavorável por outro mais conveniente aos seus interesses, já conquistou uma vantagem importante.

Segurança pública sempre foi um dos terrenos mais confortáveis para o bolsonarismo. O escândalo do caso Vorcaro, ao contrário, colocava Flávio Bolsonaro numa posição defensiva, obrigado a responder perguntas incômodas sobre relações pessoais, políticas e econômicas com o banqueiro preso. Ao reposicionar o debate em torno do combate ao crime organizado, o senador voltou a atuar em uma arena onde acredita possuir maior capacidade de mobilização eleitoral.

Nesse sentido, a viagem pode ser interpretada como uma vitória tática. A questão que permanece em aberto é se ela também se transformará em vitória estratégica. Porque agendas políticas podem ser deslocadas, mas raramente desaparecem. Se novas revelações surgirem ou se as perguntas que ficaram sem resposta continuarem ecoando, o tema poderá retornar ao centro do debate com a mesma velocidade com que dele se afastou.

Uma nova manchete para um velho problema

A trajetória política de Flávio Bolsonaro tem sido marcada por controvérsias que frequentemente retornam ao debate público. O caso das rachadinhas permanece associado à sua imagem política, independentemente dos desdobramentos jurídicos. Agora, a proximidade com Daniel Vorcaro adiciona um novo elemento ao desgaste enfrentado pelo senador.

O problema não é apenas jurídico ou econômico. É sobretudo político.

Durante anos, o bolsonarismo construiu sua identidade em torno de uma promessa de ruptura com as velhas práticas da política brasileira. Apresentou-se como movimento anticorrupção, antissistema e moralizador. Quando figuras centrais desse campo político passam a ser associadas a empresários, banqueiros ou personagens envolvidos em controvérsias públicas, surge inevitavelmente uma contradição entre discurso e realidade.

É justamente nesse contexto que a viagem aos Estados Unidos ganha significado.

A agenda internacional oferece algo extremamente valioso para qualquer político sob pressão: uma nova narrativa.

O crime organizado que interessa

O combate ao crime organizado é um dos temas mais importantes da agenda nacional. As facções ampliaram sua presença territorial, fortaleceram redes transnacionais e desafiam diariamente o Estado brasileiro.

Mas o conceito de crime organizado não se limita às organizações armadas que dominam territórios ou controlam rotas do narcotráfico.

As economias ilícitas modernas movimentam bilhões de dólares por meio de estruturas financeiras sofisticadas, esquemas de lavagem de dinheiro, empresas de fachada, corrupção e redes de influência que muitas vezes operam longe das periferias e perto dos centros de poder econômico.

Existe o crime armado.

Existe também o crime financeiro.

Existe o crime visível.

Existe também o crime invisível.

Ao deslocar o debate exclusivamente para as facções, Flávio Bolsonaro procura atuar em um terreno politicamente favorável à direita. Segurança pública sempre foi um dos temas centrais do discurso bolsonarista.

Mas a estratégia encontra um obstáculo: o eleitor pode perguntar por que o combate ao crime deve começar apenas pelos morros e pelas fronteiras, e não também pelos ambientes onde circulam grandes fortunas, influência política e poder econômico.

Trump entra em cena

A presença de Donald Trump acrescenta outra camada à história.

O bolsonarismo sempre cultivou uma relação simbólica com o trumpismo. Ambos compartilham linguagem política semelhante, estratégias de mobilização parecidas e uma visão de mundo marcada pela polarização permanente. Por isso, a imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump possui um valor eleitoral evidente. Ela procura transmitir força, relevância internacional e proximidade com o líder político mais admirado pela base bolsonarista.

O problema é que a cena também pode produzir leitura oposta.

Uma parte dos eleitores pode enxergar na aproximação não uma demonstração de liderança, mas um sinal de submissão política. Afinal, a eleição presidencial brasileira será decidida pelos brasileiros, não pela Casa Branca.

Quando um candidato ou grupo político parece buscar legitimidade externa para fortalecer sua posição doméstica, inevitavelmente surgem questionamentos sobre soberania e autonomia nacional.

A sombra da interferência

A discussão sobre a classificação de facções brasileiras como organizações criminosas transnacionais ou terroristas pelos Estados Unidos abre questões relevantes.

A cooperação internacional no combate ao crime é necessária e faz parte da realidade contemporânea. Mas existe uma linha delicada entre cooperação e influência política.

Não é difícil compreender por que integrantes do governo e especialistas em relações internacionais manifestam preocupação. O tema envolve não apenas segurança pública, mas também soberania nacional.

A preocupação não é teórica. Ela decorre de acontecimentos recentes. A própria administração Trump utilizou a narrativa do combate ao narcotráfico, ao narcoterrorismo e às ameaças transnacionais para justificar a escalada que culminou na captura de Nicolás Maduro em território venezuelano. Washington sustentou que estruturas ligadas ao poder venezuelano representavam ameaça à segurança dos Estados Unidos e associou o governo Maduro a redes criminosas internacionais. O resultado foi uma operação que ultrapassou todos os limites tradicionais da soberania latino-americana e abriu um precedente profundamente inquietante para a região.

É justamente por isso que a discussão atual sobre a classificação de facções brasileiras por autoridades americanas é mais delicada do que parece à primeira vista. Evidentemente, ninguém está sugerindo equivalência entre situações distintas. Mas a experiência recente demonstra como determinadas categorias políticas e jurídicas podem ser gradualmente ampliadas até servirem de fundamento para formas crescentes de pressão, sanções, intervenções ou ingerência externa. O que hoje aparece como cooperação internacional pode amanhã ser reinterpretado dentro de uma lógica de segurança hemisférica definida unilateralmente por Washington.

O assunto que Flávio gostaria de abandonar

É possível que a estratégia tenha funcionado. Pelo menos por enquanto.

As manchetes mudaram. Os programas de televisão mudaram de pauta. Os comentaristas passaram a discutir PCC, Comando Vermelho, terrorismo, soberania nacional e Donald Trump. Sob esse aspecto, Flávio Bolsonaro obteve uma vitória política relevante: conseguiu retirar do centro do debate um tema que lhe era profundamente desfavorável.

Mas existe um problema.

Assuntos políticos podem sair das manchetes. Perguntas sem resposta, não.

A viagem aos Estados Unidos não elimina os questionamentos sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Não elimina as dúvidas levantadas pela opinião pública. Não elimina o desgaste provocado por uma associação política que se transformou em um dos temas mais sensíveis da campanha eleitoral.

Pelo contrário. Talvez a própria necessidade de produzir uma mudança tão abrupta de agenda revele a gravidade do problema que se pretendia abandonar. Afinal, ninguém mobiliza uma operação política internacional para fugir de um assunto irrelevante.

A aposta do senador parece clara: substituir um debate desconfortável sobre suas próprias relações pessoais, políticas e econômicas por um debate mais amplo sobre crime organizado e segurança pública. É uma estratégia compreensível do ponto de vista eleitoral. Mas permanece a dúvida sobre sua eficácia de longo prazo.

Porque o eleitor brasileiro pode até acompanhar uma nova manchete. O que raramente faz é esquecer a anterior.

E, ao final da viagem, permanece uma constatação simples. Donald Trump entrou no debate. O PCC entrou no debate. O Comando Vermelho entrou no debate.

Mas Daniel Vorcaro não saiu dele.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.