Envelhecer em tempos digitais
Junho, mês de pensarmos sobre o novo envelhecer
Entre as inúmeras datas e comemorações do mês de junho (em especial em ano de Copa do Mundo) há uma em especial que não pode passar batida e que nos convida a olhar com mais atenção para uma das maiores transformações do nosso tempo: o envelhecimento da população. Celebrado em 15 de junho, o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa (instituído pela ONU e pelo INPEA) vai além do combate às diversas formas de violência - ele nos lembra que proteger a dignidade das pessoas idosas também significa prepará-las para viver em uma sociedade profundamente transformada pela tecnologia. Mas não é só sobre isso e nem é só esse aspecto que deve ser lembrando por nós. Cada vez mais ficaremos mais velhos. Cada vez mais soluções para prolongar a vida dos seres humanos com qualidade fisiológica nos serão apresentadas. Nunca fez tanto sentido o tal efeito Orloff (jovens, busquem referenciais!) quando devemos cuidar do “eu que sou você amanhã”.
O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Vivemos mais, somos mais longevos e, ao mesmo tempo, atravessamos uma revolução digital sem precedentes. Nunca tantas ações e decisões do cotidiano como conversar com a família, marcar uma consulta, acessar benefícios, movimentar a conta bancária, trabalhar ou buscar informação, dependeram tanto de uma tela, seja ela grande ou do tamanho da palma de uma mão.
Durante muito tempo, envelhecer foi um desafio biológico. Hoje, é também um desafio tecnológico.
Toda geração envelhece em um mundo diferente daquele em que nasceu. A novidade do nosso tempo não é apenas a velocidade das transformações, mas o fato de que aprender novas tecnologias deixou de ampliar oportunidades e passou a ser condição para exercer direitos, preservar a autonomia e participar plenamente da vida em sociedade.
Se, no passado, aprender era uma etapa mais concentrada na juventude, hoje tornou-se talvez o mais contínuo dos processos ao longo da vida. E esse é o lado iluminado dessa história aqui.
E também uma das maiores mudanças do século XXI: pela primeira vez, uma geração inteira envelhece enquanto precisa reaprender, continuamente, a viver em um mundo que se reinventa por meio da internet, dos smartphones e, agora, da inteligência artificial. O celular deixou de ser apenas um telefone. Tornou-se banco, carteira, álbum de fotografias, consultório, repartição pública, meio de transporte, espaço de convivência e, mais recentemente, interlocutor por meio da inteligência artificial.
Nesse novo cenário, a exclusão digital passou a ser também uma forma de exclusão social e cognitiva.
A inclusão digital da população idosa representa uma das mais profundas transformações sociais das últimas décadas. Se, em 2016, apenas 24,7% dos brasileiros com 60 anos ou mais utilizavam a internet, em 2023 esse percentual já havia alcançado 66%, segundo dados do IBGE. A conectividade deixou de ser exceção para tornar-se parte da rotina de milhões de pessoas idosas, que hoje dependem do ambiente digital para acessar serviços públicos, realizar operações bancárias, marcar consultas médicas, manter contato com familiares e participar da vida social. (Serviços e Informações do Brasil)
O desafio, contudo, é que a velocidade dessa inclusão não foi acompanhada, na mesma proporção, por um serviço de letramento digital. Muitos idosos passaram a utilizar tecnologias indispensáveis ao exercício da cidadania sem terem recebido orientação suficiente para identificar riscos, proteger seus dados ou perceber tentativas de fraude.
Essa vulnerabilidade tem sido explorada de forma crescente por organizações criminosas. Dados da Serasa Experian mostram que as tentativas de fraude contra pessoas com mais de 60 anos cresceram quase 12% em 2024, o maior aumento proporcional entre todas as faixas etárias. Os golpes mais frequentes envolvem falsas centrais bancárias, clonagem de aplicativos de mensagens, links maliciosos, pedidos urgentes enviados em nome de familiares, falsas promoções e investimentos inexistentes. Em praticamente todos esses casos, o elemento central não é a tecnologia em si, mas a manipulação da confiança e das emoções da vítima.
Além das fraudes financeiras, soma-se outro desafio igualmente relevante: a desinformação. O ambiente digital contemporâneo é marcado pela velocidade de circulação de conteúdos, algoritmos de recomendação e produção massiva de informações. Distinguir fatos de boatos tornou-se uma tarefa complexa para usuários de todas as idades. No caso da população idosa, esse desafio pode ser potencializado pelas próprias mudanças cognitivas esperadas do envelhecimento saudável, como a redução gradual da velocidade de processamento das informações, da atenção dividida e da memória de trabalho. Embora essas alterações não comprometam, por si só, a capacidade de decisão, elas podem tornar mais difícil avaliar rapidamente a credibilidade de mensagens, reconhecer padrões de fraude ou identificar tentativas de manipulação emocional, especialmente em um ambiente digital cada vez mais acelerado e sofisticado.
Nesse contexto, inclusão digital não significa apenas ampliar o acesso à internet. Significa desenvolver competências para interpretar criticamente informações, reconhecer tentativas de fraude, proteger dados pessoais e exercer a cidadania digital com segurança, autonomia e confiança. É como instalar rampas, corrimãos, assentos preferenciais e outros mecanismos de acessibilidade: eles não existem porque a pessoa idosa seja incapaz, mas porque o ambiente deve se adaptar às características naturais do envelhecimento, preservando sua autonomia, segurança e dignidade. O mesmo raciocínio deve orientar o ambiente digital.
Mas atenção!
Enxergar a presença da pessoa idosa na internet apenas sob a perspectiva dos riscos seria um equívoco. A literatura científica tem demonstrado que o uso ativo de tecnologias digitais está associado a benefícios importantes para o envelhecimento. Estudos apontam associação entre o uso da internet e melhores indicadores de cognição, maior participação social, manutenção de vínculos afetivos e redução do isolamento, um dos principais fatores de risco para piora da saúde física e mental na velhice. Embora esses estudos não permitam afirmar uma relação direta de causa e efeito, eles reforçam que permanecer conectado pode contribuir para um envelhecimento mais ativo e participativo.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que ler notícias, assistir a vídeos educativos ou de puro entretenimento, buscar informações sobre saúde, acompanhar cursos, conversar com familiares, participar de grupos de interesse, comentar conteúdos e até produzir publicações próprias são atividades que estimulam a participação social e fortalecem o sentimento de pertencimento. Mais do que entretenimento, a internet tornou-se um espaço de aprendizagem contínua, exercício da cidadania e preservação da autonomia.
É justamente por essa razão que a discussão sobre envelhecimento deixou de se restringir à saúde e à assistência social. À medida que a vida cotidiana migra para o ambiente digital, proteger a pessoa idosa significa também garantir condições para que ela possa exercer seus direitos nesse novo espaço com segurança, independência e dignidade.
Essa mudança já começa a aparecer no próprio ordenamento jurídico. Em 2025, a Lei nº 15.163 aumentou as penas para os crimes de abandono e maus-tratos contra pessoas idosas, reforçando que o cuidado deixou de ser apenas um dever moral para se consolidar também como uma responsabilidade jurídica.
Ao mesmo tempo, projetos de lei em tramitação propõem incluir o letramento digital entre os direitos assegurados à pessoa idosa. É um reconhecimento de que, no século XXI, saber navegar com segurança na internet, identificar golpes e utilizar serviços digitais deixou de ser um diferencial. Tornou-se parte do exercício da cidadania.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da próxima década. Quando falamos em inteligência artificial, o debate costuma se concentrar na substituição de empregos ou na automação de tarefas. Para a população idosa, porém, a pergunta parece ser outra: de que forma a IA pode ampliar capacidades humanas e contribuir para um envelhecimento com mais autonomia? Ainda bem!
As possibilidades já começam a aparecer no cotidiano. Sistemas inteligentes conseguem lembrar horários de medicamentos, monitorar padrões de mobilidade, identificar riscos de quedas, auxiliar no acompanhamento de sintomas de ansiedade e depressão, simplificar videochamadas com familiares e tornar interfaces mais acessíveis para pessoas com limitações visuais ou cognitivas.
É claro que a lógica de um presencial insubstituível também se aplica aqui: nada do que citei substitui o afeto, a convivência ou a presença da família. Mas pode reduzir barreiras, prolongar a independência e preservar algo extremamente valioso durante o envelhecimento: a autonomia. E eu desconfio que autonomia seja uma das expressões mais concretas da dignidade humana.
Mas como nada nessa vida vem de graça (nem almoço!), envelhecer, no século XXI, também significa aprender continuamente. E isso demanda um esforço e dedicação contínuos. E eu aposto na geração prateada! Nasceram antes da internet e muitos até antes do primeiro computador. Eles são dispostos a se integrar e se incluir e os números mostram isso. Mesmo que sem o devido letramento, eles se fazem presentes no mundo online.
No fim das contas, a inteligência artificial não será medida apenas pela sofisticação dos modelos que desenvolvermos, mas pela capacidade de tornar a vida mais humana, mais sustentável e de ampliar a agência das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.
Se conseguirmos utilizar a tecnologia para preservar a autonomia, fortalecer vínculos, ampliar a segurança e garantir dignidade às pessoas idosas, então estaremos inovando naquilo que realmente importa.
Porque envelhecer não deveria significar ficar para trás - é naturalmente estar à frente de todos pela experiência e sabedoria adquiridos ao longo de nossa jornada.
Essas questões são apenas um dos aspectos do envelhecimento do planeta e não é “dos outros”. Não é do seu futuro e nem do seu vizinho. Não é somente do Japão ou da Inglaterra. É de tudo e de todos.
Afinal, olhando para o copo meio cheio, esse é o cenário que queremos e devemos esperar para nós. A outra única opção possível a essa, que eu saiba, ninguém quer escolher.
Lutemos por esta causa.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




