Urariano Mota avatar

Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

520 artigos

AI Gemini

Resumo premium do artigo

Exclusivo para assinantes

Síntese jornalística com foco no essencial, em segundos, para leitura rápida e objetiva.

Fazer login
HOME > blog

Episódio da história oculta da Copa do Mundo de 1970

Entre a ditadura e o futebol, militantes de esquerda viviam o dilema de torcer pelo Brasil na Copa de 1970 e acabaram tragados pela força das ruas

Pelé (Foto: Acervo Pelé/Divulgação)

A Netflix divulgou nesta semana as primeiras imagens de "Brasil 70 – A Saga do Tri", minissérie de ficção sobre a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1970. O teaser é "Brasil 70: A Saga do Tri | Teaser oficial | Netflix Brasil - YouTube".

Na mídia, as notícias sobre a minissérie afirmam que “a produção também vai abordar o período político do país na época”, o que é um modo suave de mencionar a ditadura brasileira em sua fase mais sangrenta.

O fato é que, na esquerda brasileira da época, havia o dilema de torcer contra ou a favor da Seleção Brasileira! Sim, isso aconteceu porque o ditador Médici capitalizava para si o sucesso do futebol. Esse dilema gerou episódios tragicômicos, como o que narro a seguir, que não estará na minissérie. Como João Saldanha iniciava os seus comentários, “meus amigos...”, assim foi.

No jogo da grande final da Copa do Mundo, em 21 de junho de 1970, o clima não era bom. Para os que andavam de mal com a ditadura, o tempo não estava bom, apesar de cair em um domingo.

Mário Sapo, Spinelli e Anael bem que procuraram ocupação mais digna do que ver a final da Copa do Mundo. Missão, como o título de um seriado da televisão da época, missão impossível. Havia uma final de Copa do Mundo escrita nas nuvens, no céu, no mar. O selecionado brasileiro de futebol estava em todas as coisas. Nos jornais, na televisão, no cinema, nas escolas, nas ruas, no amor, nas conversas. Aliás, outro assunto não era possível a partir de todo e qualquer tema. — E a seleção? Perguntava-se a troco de nada, e o rumo da conversa mudava.

Para complicar, havia um complicador, se nos permitem a complicação. Havia um complicador para o alheamento dos amigos àquela imensa alienação, àquela estupidez da alienação dos povos, àquele ópio dos ignorantes: a Copa do Mundo de 1970, assim mesmo, em maiúsculas, era a primeira Copa transmitida pela televisão. Ao vivo, como diziam. Do México, com imagens transportadas por um satélite. O que bem poderia ser dito por João Saldanha: “Meus amigos, toda realidade exterior ao futebol hoje está suspensa”.

Missão impossível para Mário, Spinelli, Anael e todos os militantes socialistas do Brasil. Em algum lugar deve haver uma lição da dialética que ensina: se as missões se tornam impossíveis, o melhor é conviver com a sua impossibilidade. Mas não sabíamos disso então. Esta página ainda nos era arrancada, ou devia estar escrita em sânscrito intraduzível. Ninguém nos disse. Mário, o mais velho de nós, teve um primeiro recuo tático.

— Olha, a massa está sendo manipulada. A ditadura está usando esse jogo para sair fortalecida... — Primeira parte do discurso, indispensável para não ser execrado. — ... Agora... — Segunda e problemática parte, a mais importante. — ... Agora, a gente não pode ser contra a massa. A gente não pode ser contra o povo. Se o povo está assistindo...

— Populismo, caralho. Se o povo está assistindo, nós também vamos assistir? É isso?! — cortava Spinelli. — A vanguarda repete a massa, é isso?

— Sim, Lênin — voltava Mário. — Sim, Lênin...

Ao que o magro Anael, sabedor por intuição e experiência de aonde levavam os argumentos de Mário (libação, álcool, que ninguém é de ferro), intervinha como um votante, porque democrático era o processo:

— Eu estou com Mário. O povo é quem sabe o rumo. — E adaptava um refrão: — Ruim com o povo, pior sem ele.

— Sim, mas — sentia-se encurralado Spinelli. — Sim, mas...

Mas, antes que entrassem em discussão as categorias do conhecimento — o que é o povo, o que é a massa, o que é a vanguarda, o tempo histórico e sua urgência e emergência —, Mário, o mais velho, propunha:

— Vamos discutir isso no Savoy.

O Bar Savoy, no Recife, era uma festa, sempre. Foi para ele que Carlos Pena escreveu “são trinta copos de chope / são trinta homens sentados / trezentos desejos presos / trinta mil sonhos frustrados”. Foi lá que a Jomard Muniz de Brito ocorreu que “o Recife é um chope”. Foi para ele que os personagens de Os Corações Futuristas estenderam os olhos mendigos de cerveja, porque ali se podia beber a felicidade em mesinhas de ferro. O Savoy era uma festa.

Os nossos amigos, os nossos, naquelas circunstâncias, heróis, sentaram-se a um canto, um pouco à margem do aglomerado que rodeava um dos televisores no Savoy. Diabo de Copa do Mundo; vieram ali para conversar sobre os próximos rumos do movimento e do Brasil. De costas para a alienação. Acintosamente alienados da alienação. No entanto, Mário, sempre o mais precavido dentre nós, sentou-se de frente para a televisão. Porque ver, o simples ver, não atrapalha, ou não devia atrapalhar, todo e qualquer desenvolvimento da argumentação, da mais reles matéria à metafísica.

— A gente aqui pode falar à vontade. Ninguém nos escuta — dizia Spinelli. E, por isso, retomava: — A Revista da Civilização é a melhor frente de esquerda hoje no Brasil. Vocês viram a deste mês?

— Eu prefiro a fonte. Eu prefiro o original — argumentava Anael, um tanto incômodo e angustiado pelo rumor às costas.

— É, é... — Mário ia respondendo, enquanto movia os olhos, pensativo, mui pensativo, a todo e qualquer encaminhamento da dialética que ouvisse.

— Não, rapaz, em relação a muita coisa, Nelson Werneck Sodré não é reformista, entende?

— Claro... É... — Mário ia respondendo.

Havia uma tensão no ar, uma carga explosiva que ia se acumulando, sem alarde. Um movimento surdo passando, que ninguém percebia, ainda que todos dele participassem. Um coletivo de gozo ou desespero a irromper. Então, de repente, como se por força de um comum desejo, no décimo oitavo minuto da exposição do destino dos povos, o povo mais próximo, no Savoy, explode:

— Gooool! Gol, gol, gol! Goool!

Mário, por estar mais integrado à massa, por esse motivo também se levantou:

— Gool! É gol, é gol...

Spinelli e Anael, como bons subversivos, escolados (“a primeira tarefa do revolucionário é não se denunciar”), por isso também se ergueram:

— Gol! Foi gol, cara... De quem, de quem?

E Mário, o flexível, o flexível atento, anunciou:

— De Pelé. De Pelé, porra!

— Ah, tinha que ser — reconheceu o mais sábio.

Os garçons do Savoy, mais atentos que todos os atentos, comemoravam e, em igual movimento de comemoração, enchiam as mesas de cervejas, e entre as mesas a dos nossos heróis. Que se achavam, à altura dos 20 minutos de jogo, os próprios terroristas disfarçados. Fantasiados de povo, a beber no Savoy, em jogo de Copa do Mundo. Mas não demoraram muito no disfarce, ainda que isto lhes parecesse uma eternidade. A máscara caiu aos 38, ainda no primeiro tempo da fantasia e da defesa.

— Gol... foi gol... Porra, que merda! Presta atenção, seu porra! Manda essa bola pra tua mãe... — ouviu-se, foi-se ouvindo, aqui e ali, às costas, à frente, de lado, do teto e das paredes, do chão e da Avenida Guararapes.

— Gol, foi gol...

Um carrasco de nome Boninsegna havia driblado o nosso goleiro, o verdadeiro herói lá na televisão, e, sem piscar, enfiou o empate da seleção da Itália. Mário, o tático, assumiu então as suas características de sapo, porque inflou as bochechas e mal olhava agora para a pequena tela, como se estivesse na iminência de coaxar. Anael o seguia, com movimentos na bochecha, à sua imagem e semelhança. Na verdade, à direita, à esquerda, acima e abaixo da ditadura, todos no Savoy ficaram meio sapo, de papo inchado, carrancudos, raivosos. Spinelli, ao ver a geografia humana ao redor, susteve a frase na garganta — “futebol é alienação” — e achou mais prudente, e natural, ficar em terra de sapo, de cócoras com ele. Em silêncio, todos danaram-se a beber, que os garçons do Savoy serviam bem na alegria e na desgraça. Mercenários, tiravam partido da pátria em qualquer circunstância.

Acabado o primeiro tempo, quase todos no Savoy tiveram a mesma ideia, porque se aglomeraram no banheiro. Ambiente para lá de carregado, elétrico. Spinelli, magro e desengonçado, entra no círculo ácido do mijo. E até hoje ele não sabe por que razão, e até hoje ele oculta dos seus o momento raro do perigo que passou, e que soubemos depois do abismo. Na volta do banheiro, em um corredor estreito e infernal, ele esbarra em um popular irado, nervoso e tenso. Esbarrou por acaso, por maldito azar, mas o popular, essa categoria ótima para uma tese, mas bem arisca ao vivo, assim não entendeu.

— Tá cego? — e empurrou o nosso amigo contra a parede.

Spinelli, alto para os padrões do Recife, lutador de judô em aulas clandestinas, porque assim faria a segurança nas passeatas, reagiu ao empurrão. Ou seja, empurrou o popular de volta, como quem cumprimenta e vai embora. (Não era sua intenção saber o valor prático das aulas orientais que recebera, naquela hora e em outras.) Que faz, que fez? O popular lhe responde com um mais vigoroso empurrão. Spinelli volta, como se a parede do estreito corredor fosse um elástico que lhe desse um exemplo da terceira lei de Newton. E volta com o impulso de sua pequena massa inercial, somente para dar um instante breve de resposta ao segundo empurrão. Nisso, e como prova insofismável de que a toda desgraça corresponde outra maior, surge um indivíduo tão alto quanto o nosso amigo, porém mais volumoso em carnes, vontade de brigar e músculos. Que vinha a ser o amigo do popular irritado. E lhe diz, a Spinelli:

— Ei, magro, é briga, é?

Spinelli olhou de cima a baixo, e da direita para a esquerda, o homem-guarda-roupa. Sabemos nós, à distância, que os manuais de filosofia ensinam que só se deve correr quando houver possibilidades de espaço e circunstância. Mas o que não se encontra em nenhum manual, nem nos melhores livros, foi a resposta de gênio que achou o nosso amigo naquela hora de angústia, agonia, desespero e aflição. Acreditem e creiam, porque, em pleno intervalo do jogo final da Copa do Mundo, o nosso amigo gritou, com os braços erguidos:

— Viva o Brasil!

O amigo do popular, espantado com aquele golpe baixo, de gênio, reagiu como bom patriota. Abraçou Spinelli como se abraça um companheiro de torcida.

— Viva! Viva o Brasil!

Com as costas ainda a estalar nos ossos, o nosso amigo voltou ao abrigo de nossa mesa. E todos nós assistimos ao final de Brasil e Itália. De frente para a pequena tela, para melhor integração. E comemoramos, e pulamos, e gritamos gol. Sem remorso e sem dor na consciência. E saímos de lá abraçados e bêbados rumo ao Zumbi, onde morava Mário Sapo. Felizes a cantar. Afinal, estávamos todos metidos em nossa face legal. A de patriotas, no país de calções e chuteiras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.