Época recua diante da milícia bolsonarista

O Grupo Globo, que edita a ‘Época’, acovardou-se diante da gritaria da famiglia Bolsonaro e das suas milícias digitais. Num primeiro momento, a revista divulgou uma nota afirmando que a reportagem sobre a nora do “capetão”, casada com o filhote 03, não havia ferido qualquer princípio ético.

O Grupo Globo, que edita a ‘Época’, acovardou-se diante da gritaria da famiglia Bolsonaro e das suas milícias digitais. Num primeiro momento, a revista divulgou uma nota afirmando que a reportagem sobre a nora do “capetão”, casada com o filhote 03, não havia ferido qualquer princípio ético. Mas diante das ameaças – sabe-se lá de que teor –, o império global emitiu um segundo comunicado pedindo desculpas ao clã. Com o recuo, a diretora de redação Daniela Pinheiro, o redator-chefe Plínio Fraga e o editor Marcelo Coppola pediram demissão da revista. O clima no Grupo Globo é de revolta entre os jornalistas com um mínimo de dignidade.

Toda essa maluquice teve início com a matéria intitulada “O coaching on-line de Heloísa Bolsonaro: as lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador”, redigida por João Paulo Saconi e publicada na sexta-feira (13). A reportagem, meio anódina, até parecia promocional. Mas ela foi suficiente para deflagrar uma onda de ataques ao repórter, à Época e ao Grupo Globo. Eduardo Bolsonaro, o embaixador do hambúrguer que visita hospitais com a arma na cintura, disparou xingamentos na internet. Seu paizão, ainda hospitalizado, também tuitou contra a reportagem. Até o ministro Sergio Moro, que virou bagaço no laranjal bolsonariano, bajulou a famiglia do chefinho. Nas redes sociais, as milícias bolsonaristas babaram ódio e prometeram vingança.

Ainda na sexta-feira, a direção da revista divulgou uma nota altiva, sem se intimidar diante das agressões dos milicianos: “Época reafirma o respeito à ética e a retidão dos procedimentos jornalísticos que sempre pautaram as publicações da revista. A reportagem em questão não recorreu a subterfúgios ou mentiras para relatar de maneira objetiva, a bem do interesse do leitor, um serviço oferecido publicamente, com cobrança de taxas divulgadas nas redes sociais”. Essa postura corajosa, porém, não se sustentou por muito tempo.

Já nesta segunda-feira (16), após Eduardo Bolsonaro confirmar pelo Twitter que vai processar o jornalista e a revista, o Conselho Editorial do Grupo Globo divulgou uma nota pusilânime, desautorizando a sua redação. “Como toda atividade humana, o jornalismo não é imune a erros. Os controles existem, são eficientes na maior parte das vezes, mas há casos em que uma sucessão de eventos na cadeia que vai da pauta à publicação produz um equívoco. Foi o que aconteceu com a reportagem publicada na última sexta-feira. Época se norteia pelos Princípios Editoriais do Grupo Globo, de conhecimento dos leitores e das fontes desde 2011. Mas, ao decidir publicar a reportagem, a revista errou, sem dolo, na interpretação de uma série deles”.

Uma perda para o jornalismo

Diante de tamanha tibieza, até o site R7, da rival Record, aproveitou para tripudiar. “Três integrantes do alto escalão de revista Época pediram demissão na terça-feira (17) após a repercussão negativa de uma matéria sobre a atuação de Heloisa Wolf Bolsonaro, esposa de Eduardo, como coach e psicóloga. Publicada na última edição da revista, a reportagem foi duramente criticada pela família presidencial e por seus apoiadores”. Já o blogueiro Luis Nassif avalia que a demissão da direção da Época representa “uma perda para o jornalismo”.

Como ele observa, a reportagem sobre a esposa de Eduardo Bolsonaro “não foi desabonadora para a personagem, não rompeu o sigilo profissional – já que o sigilo é prerrogativa do paciente, não do psicólogo – e tinha interesse jornalístico, posto que a psicóloga é esposa de um personagem público que irradia preconceitos por todos os poros”. Por outro lado, ele lembra que “sob o comando de Daniela Pinheiro, do ponto de vista jornalístico, a Época deu um salto de qualidade. De um simulacro de Veja, transformando qualquer factoide em novela ficcional, tornou-se uma revista que passou a praticar jornalismo da melhor qualidade, a se empenhar em grandes reportagens”.

Agora, porém, essa linha editorial pode ser abandonada. “A dureza da nota da Globo pareceu, muito mais, um álibi para solução de conflitos internos, apelando para um estratagema sórdido: a desmoralização de seus próprios jornalistas. O pedido de demissão de Daniela Pinheiro, do redator-chefe, Plínio Fraga e do editor Marcelo Coppola mostra espinha ereta, típica dos grandes carácteres e à altura do jornalismo que praticavam. Mas os deixa vulneráveis às ações judiciais já anunciadas por Eduardo Bolsonaro, desmonta o pique jornalístico da revista e acende a luz amarela para todos os demais jornalistas, sobre os tênues fios de lealdade com que são tratados por seus empregadores”.

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