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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 61 anos de idade e 35 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Éramos 5

Na sala escura os 5 sortudos conheceram a intimidade de um gigante da MPB

Lupicínio Rodrigues (Foto: Reprodução)
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Sextou na Augusta. Isso quer dizer que o rebuliço de gente, de carros, de bares está mais atiçado que o normal.

A multidão brota do metrô, do ônibus, da vizinha Paulista e desce a rua para festejar o fim. O fim do expediente, o fim de tarde alaranjado, o fim de semana.

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Entre bêbados e loucos, sóbrios e sábios, um boêmio me acena com tímida discrição.  O convite é para trocar a balbúrdia pela magia de uma boa história. Coisa de cinema, garante.

O danado tem sorriso doce, olhar de poeta e as duas mãos ocupadas: na canhota, copo com cigarro entre os dedos e na direita, o microfone.

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O convite do boêmio é fantasia de cronista, já o cinema é de verdade. O filme chama-se Lupicínio Rodrigues, Confissões de um Sofredor.

Eu e minha namorada entramos na sala miúda do cinema de rua.

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As luzes se apagam. Nós dois, mais um espectador solitário e dois amigos, que entram atrasados e agachados tentando não atrapalhar nossa visão, formávamos a plateia.

5 privilegiados a conhecer a vida do menino pobre,  irmão de 20, que saiu do bairro de Ilhota, em Porto Alegre, para entrar mais cedo no quartel. Único jeito de garantir o charque do almoço.

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capa-birinaites-catiripapos-borogodó
Capa do livro Birinaites, Catiripapos e Borogodó, de Luís Cosme Pinto(Photo: Reprodução)

 O samba se impôs e não deixou que Lupicínio Rodrigues se tornasse sargento ou capitão. No máximo tocou na banda da tropa.

Uma inacreditável habilidade de traduzir sentimentos em palavras, mais talento e persistência resultaram numa carreira maiúscula. A genialidade do músico e as contradições do homem vão da primeira à última cena do filme.

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Roteiro. Fotografia. Direção. Edição. Tudo brilha no documentário de Alfredo Manevy. A produção é uma homenagem também ao cinema, à nossa música e ao país que o Brasil já foi ou poderia ser.

O racismo está na história de Lupi e o filme acompanha a luta da família para refazer a genealogia dos Rodrigues. Como os mais antigos foram escravos, os nomes deles foram tragicamente apagados. Preto e pobre, Lupicínio viveu a exclusão que persiste até hoje em nossa terra.  

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A pesquisa investigativa do diretor Alfredo Manevy e sua equipe se aprofunda na infância humilde, revela boletins escolares, descobre o primeiro amor do compositor; também surgem programas de TV, entrevistas de rádio, jogos de futebol, um acervo encantado sobre aquele que se tornaria o mestre da dor de cotovelo. Dos dias de hoje, aparece uma festa da enorme família Rodrigues e jovens músicos que interpretam as canções de Lupicínio. Mais uma prova de que a boa música é eterna.

Em pouco mais de 90 minutos, mergulhamos na vida de um gigante da MPB.

Suas paixões, tristezas, sucessos, bebedeiras, nada escapa. Com emocionante simplicidade, Lupi conta que fazia seus sambas em apenas uma noite, enquanto bebia e paquerava. Trata obras primas como se fossem conversas de botequim. E, de certa forma, eram.

Documentários não têm elenco, não são interpretados por atrizes ou atores. Nesse caso, é diferente. Vozes colossais reverenciam Lupicínio.  E são muitas. Elza Soares, Nelson Cavaquinho, João Gilberto,  Maria Bethânia, Macalé e Gal Costa; e ainda Cazuza, Gil, Caetano, Linda Batista, Ney Matogrosso; sem esquecer de Francisco Alves, Cyro Monteiro, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto e Jamelão.

Lupicínio cantou o amor. Também amou os amigos e as mulheres que teve, que perdeu, ou que sonhou. Com fiéis parceiros assinou músicas que a gente jamais vai esquecer: Volta, Nunca, Se acaso você chegasse, Nervos de Aço. São dele também Cadeira Vazia, Vingança, Brasa, Esses Moços e o hino do Grêmio. Compunha como se conversasse e falava como se cantasse. Pelos botecos nasceram frases como: “Todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas ninguém sabe os tombos que eu levo”.

“Cada amor que eu perco é um samba que eu ganho.”

“Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou é boêmio.”

Nós, os 5 sortudos que assistimos o documentário, esperamos até o último dos créditos. Vimos os agradecimentos, a lista das músicas, os apoios culturais e então as luzes se acenderam. Com os pés a alguns centímetros do chão, voltamos a nos perder na sexta-feira da rua Augusta e dos seus pobres moços.

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