Escritora Martha Batalha diz que o momento é para se produzir mais Cultura

A jornalista Denise Assis entrevistou a escritora Martha Batalha, autora do “A vida invisível de Eunice Gusmão”, romance que deu origem ao filme do Brasil no Oscar. Ela critica o desmonte do governo Bolsonaro em áreas estratégicas. "O que o outro lado mais deseja é que a gente pare de produzir cultura, e isso vai acontecer, se as notícias ruins forem capazes de nos paralisar", diz

(Foto: Divulgação)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia  - “A vida invisível de Eunice Gusmão” é resultado da adaptação do romance de estreia de Martha Batalha, lançado em 2015, e deu origem ao filme de mesmo nome, em cartaz nos cinemas brasileiros desde novembro, com participação de Fernanda Montenegro, e estrelado por Júlia Stockler e Carol Duarte. Elas fazem as irmãs, cariocas, reprimidas pelo ambiente machista da década de 1940, que acaba por separá-las. As duas vivem em busca do reencontro. Indicado para representar o Brasil no Oscar de melhor filme internacional, “A vida invisível...” já recebeu o prêmio “Um Certo Olhar”, principal mostra paralela do Festival de Cannes e tem direção de Karim Aïnouz. 

Martha entrou na Literatura com o pé direito. Seu primeiro romance teve grande aceitação no exterior, antes mesmo de ser editado no Brasil. Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, além de ter os direitos vendidos para onze países. Martha é daquelas figuras obstinadas. Escreve todos os dias, pois encara a Literatura como o seu ofício. Jornalista de formação, nascida em Pernambuco, mas criada no Rio de Janeiro, mudou-se para Nova York em 2008, onde fez mestrado em Publishing, na NYU. Hoje, aos 46 anos, casada e com dois filhos, mora em Santa Mônica, na Califórnia, de onde respondeu às perguntas do 247.  

247 - Você esperava este sucesso? Como está convivendo com este momento?

MB - Claro que não. Decidir escrever ficção é sempre uma aposta. Durante os anos em que escrevi antes de publicar estava mais interessada em me permitir o risco que nos resultados. Mas é claro que o sucesso é gratificante, principalmente porque me permite continuar escrevendo.  

247 - Quando foi que o jornalismo deixou de preencher as suas expectativas, e você desembarcou, pegando o rumo da literatura?

MB - Quando eu era repórter uma das minhas atividades favoritas era ir até o setor de pesquisa dos jornais. Na época as edições antigas ainda não estavam digitalizadas, eu adorava abrir as pastas de arquivo e sentir a textura das reportagens recortadas, algumas já amareladas. A Maureen Dowd, uma jornalista de quem gosto muito, diz que o jornal é memória líquida, e remexendo as pastas era isso o que eu também sentia. Mas uma coisa sempre me incomodava nessas visitas: os repórteres que assinavam as matérias, há cinco, dez anos, haviam desaparecido das redações. Eram raros os nomes dos que se mantiveram. E eu me perguntava – para onde teriam ido aquelas pessoas? Que profissão era aquela, que parecia ser temporária? A pergunta seguinte era inevitável: se a tendência é deixar as redações, onde é que eu vou estar daqui a cinco, dez anos? 

É muito difícil manter por muitos anos uma vida de repórter. A jornada de trabalho é longa, os jornais demitem de modo cíclico. Então fui traçando um caminho para mim, diferente, mas que me permitiria continuar trabalhando com o texto, e abri uma editora, a Desiderata, para fazer o que eu gostava e me interessava: editar, publicar autores nacionais, ajudar a preservar a memória do país.  

247 - Mudar de país ajudou nessa busca nas gavetinhas internas, para tirar de lá essas “tias” dos anos 50? Que elementos da sua família você trouxe para o livro “A Vida invisível de Eurídice Gusmão”?

MB - Eu acho que em outro país a vida fica mais preto no branco. A minha atual realidade é completamente diferente daquela que me formou. Então me parece que fica mais fácil perceber as particularidades de onde eu vim. O exterior não me fez estrangeira ao Brasil, pelo contrário, reforçou os laços com o meu país. 

247 - O seu jeito de contar é muito particular, tem um ritmo cadenciado, ágil e claro. Esta foi uma preocupação, ou simplesmente foi acontecendo?

MB - Aprendi muito fazendo jornalismo. Aprendi a dizer o que importa logo no começo de um texto, a editar, a escrever rápido e sob pressão. Eu tive um chefe no Globo (Gustavo Alves), que quando me via chegar na redação olhava para mim lá de longe com aquela pergunta nos olhos –cadê o lead, o lead, me diga o que aconteceu de mais importante na sua entrevista/apuração! Eu ficava nervosa e sempre gaguejava, mas com o tempo aprendi a identificar o mais importante numa história. Escrever literatura é diferente, claro, existe algo intuitivo, de formação de estilo que a gente aprende fazendo, refazendo e lendo. 

247 - O seu segundo romance, finalista nos prêmios São Paulo e Jabuti, “Nunca houve um castelo”, cobre de 1904 a 1968. Isto demandou muita pesquisa? Como foi desenrolar esta saga, de um cônsul sueco, desde o início do século 20, até desembocar nos conturbados anos da ditadura?

MB - Este livro é fruto de outros dois que me marcaram profundamente. “Ela é Carioca, uma enciclopédia de Ipanema”, do Ruy Castro, e “1968, o ano que não terminou”, do Zuenir Ventura. Foi no livro do Ruy que eu aprendi sobreo o Castelo de Ipanema, e como tenho verdadeira obsessão pela falta de memória do brasileiro, decidi começar a história neste castelo que quase ninguém sabia que existiu. O livro do Zuenir fala sobre a efervescência cultural da Zona Sul naquele final da década de 1960, mas eu sempre tive a impressão de que certos avanços culturais e comportamentais passaram ao largo da classe média. Então eu criei esta família carioca, que permaneceu intocada por certas transformações sociais e acontecimentos históricos. A Estela, protagonista da segunda parte do livro, está mais preocupada com o que acontece dentro do apartamento do que fora. Dentro do apartamento ela não consegue superar preconceitos que impedem com que seja feliz. Enquanto isso, fora do apartamento, o bairro se deteriora, aos poucos. 

247 - Qual o significado da ditadura, para uma pessoa jovem, que talvez tenha dela apenas uma vaga lembrança?

MB - Era sobre o que os meus pais falavam quando o assunto era Brasil, tomando uma cerveja no fim do dia. Falavam com um sentimento de perda muito grande. Eles eram muito jovens (em torno de 35 anos), e eu me lembro muito do meu pai me explicando como os “milicos” entregaram o país para os americanos. Engraçado, contando isso agora para você, eu consigo vê-lo com os olhos muito tristes e perdidos, já pelo terceiro copo de cerveja, falando Entregaaaaram. Entregaaaaram. É uma cena que eu, aos nove anos, gravei para nunca mais esquecer, e a ferida deles se tornou a minha, muito antes de eu poder entender historicamente o que havia acontecido. Meu pai votou pela primeira vez para presidente comigo, eu com 16 anos, ele com 40. Votamos no Brizola. 

247 - Como você está vendo a tentativa de “desmontagem” de toda a história construída, desses tempos, por um governo de ultradireita, que tenta reescrevê-la a seu modo?

MB - Acho que é importante não se desesperar ou deprimir, não ficar grudado nas redes sociais e nas notícias ruins. É preciso encontrar um balanço entre se informar, protestar de modo efetivo e continuar produzindo. O que o outro lado mais deseja é que a gente pare de produzir cultura, e isso vai acontecer, se as notícias ruins forem capazes de nos paralisar. 

247 - Ter todo este reconhecimento, imagino, seja uma alegria indescritível. Ao mesmo tempo, a próxima pergunta que você talvez se faça é: e daqui, para onde vou? Há um novo romance engatilhado? Você teme esse tipo de cobrança? Como convive com ela?

MB - Eu escrevo todos os dias. É meu trabalho. Não tem resfriado, dia ruim, dor de cabeça, bloqueio, piti, nada. É arriscado, monótono e às vezes frustrante. Mas é o caminho que escolhi, e eu tenho o privilégio do tempo. 

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