Espiritualidade dos povos africanos frente aos vírus instalados nos poderes da República brasileira

A influência africana no Brasil não é nada secundária como há muito tempo se apregoou. Contudo, devido à sujeição do escravizado, tentou-se invisibilizar seus elementos culturais

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A contribuição dos povos da diáspora negra para o Brasil não se resumiu apenas na força de trabalho escravizada que edificou o país tornando-o rico e ao mesmo tempo condenado pela divisão internacional do trabalho efeito do modelo de colonização insustentável, aplicado pelos colonizadores, e arrastado até os dias de hoje, motivado pela ganância rapinadora. 

Há de se ater que mesmo a cultura europeia, sobretudo a península ibérica, foi fundamentalmente influenciada pela cultura africana, no decorrer de toda a colonização moura, portanto, mesmo os elementos tipicamente atribuídos à influência europeia no Brasil estão eivados da influencias dos povos africanos mulçumanos. 

Assim a influência africana no Brasil não é nada secundária como há muito tempo se apregoou. Contudo, devido à sujeição do escravizado, tentou-se invisibilizar seus elementos culturais. Tornar o homem em um escravo é, acima de tudo, animalizá-lo, torná-lo coisa entre outras a compor o patrimônio do escravizador e fazer como que não se reconheça como pessoa e atribuir aos seus aspectos culturais o mesmo sentido ao atribuído pelo escravizador.   

Assim foi no Brasil e assim continua a ser, todavia, a vitalidade dos elementos culturais dos povos africanos foi mais poderosa que as forças que tentaram sucumbi-los. Assim como a própria vida nos corpos pretos que jamais será exterminada pela máquina genocida do Estado. 

São muitas as contribuições passadas e presentes da população da diáspora negra nos mais diversos sentidos e campos da atuação humana nesse planeta e, é sem dúvida o candomblé o elemento cultural que reúne de forma holística aspectos diversos da cosmologia africana no Brasil. Sua influência está presente em todos os aspectos cotidianos e da vida concreta de todos os brasileiros, mesmo que não saibam, por exemplo, quando alguém deixa de usar determinadas cores de roupas, se abstém de alimentos, evita determinados lugares ou faz algumas coisas que pela ignorância são chamadas de superstição ou deixa de fazer outras das quais imaginam atrair ‘azar’, estão fazendo ou deixando de fazer inconscientemente apenas aquilo que todo iniciado no candomblé sabe, estão apenas fazendo ou deixando de fazer elementos mágico- religiosos que são parte da complexa ciência que é o candomblé. A engenharia do racismo no decorrer da história, tentou através da religião, ciência, arte e pela indústria cultural destruir ou caricaturar os elementos da cultura africana, com menor ou maior êxito ao longo do tempo, contudo, conforme supracitado, jamais conseguiu ou conseguirá. 

Não obstante, hoje o racismo religioso atinge sua ostensividade por meio do aparelhamento do Estado brasileiro pelas forças reacionárias, de forma que além dos ataques físicos feitos pela sociedade racista e por organizações criminosas, ainda há os ataques simbólicos feitos pelos órgãos estatais a serviço das forças reacionárias no poder, seja na forma comissiva ou omissiva, sem falar nos diversos crimes cometidos contra a honra de filhos, filhas e pais de santo por meio da internet. De modo que, mesmo havendo um conjunto de normativas de âmbito constitucional e infraconstitucional e acordos internacionais de proteção das manifestações religiosas dos povos de terreiro, todavia, tais dispositivos chocam-se contra o preconceito da maioria dos operadores do direito, criando um hiato entre a norma que orienta a um dever ser e o plano da facticidade definido pelo senso comum dos juristas. 

Mas, seja como for, nos manteremos firmes como tem sido. Hoje, em decorrência do grave problema de saúde pública, resultante do vírus Sars- Cov -2 e dos vírus instalados nos poderes da República, que afeta o país e que gerou direta e indiretamente milhares de desempregos e mortes, é que as religiões de forma geral se protagonizam para apresentar conforto e consolação aos que sofrem. Para nós, contudo, há uma especificidade, nossa espiritualidade é por assim dizer, uma espiritualidade pragmática que por meio da ação sobre as forças da natureza se busca a vida e o bem viver individual e coletivamente (para nós há unidade). Por esse modo, deve-se notar que a herança da espiritualidade dos povos africanos em nós, nos faz perseguir a saúde a prosperidade, em suma, a boa vida, não em um conjunto de crenças no além-mundo, mas em nossa relação com a natureza e ancestralidade cuja morada em nossa simbologia, não é o céu, mas a própria terra. 

Portanto, mesmo em meio a todo esse torvelinho, o cultivo de nossa espiritualidade baseada em nossa ancestralidade, mostra-nos não só o consolo perante tantos sofrimentos, mas o entendimento que doenças e dificuldade sempre foram parte da existência humana e que a ação enérgica e rigorosa no sentido de mantermos e abençoarmos a vida em nós de forma excelente para sermos por nossa vez ancestrais dignos, para tanto, sobretudo, nesses dias, mais que nunca é necessário resgatarmos o valor da vida coletiva, pois nenhuma pessoa supera dificuldades sozinha, valorizar o próximo vivo e a memória de nossos mortos e valorizar nossa saúde como bem primaz para a busca da excelência, para sermos, como falei, ancestrais dignos. Esse momento, além de tristezas, medo, confusão e desesperança, é também, e sobretudo um momento de reposicionar os valores em seus lugares reais. Ou seja, valorizar os bens da natureza de onde vem a saúde, o bom alimento que vem à nossas bocas e ação de quem os produziu, valorizar nossa saúde em nossos corpos ou nossa recuperação e entender que grande parte de nossos hábitos nos degradam, como os vícios diversos e que nos foram incutidos por uma máquina perversa que gera lucro para a ganância. Vários ensinamentos e verdades, por mais que não quiséssemos aceitar, nos foram descortinados, que tenhamos olhos e voz!

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