Esquerda ornitorrinco?

O crescimento da extrema-direita está relacionado à crueldade do neoliberalismo com a classe-média e com a classe trabalhadora



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"A extrema-direita aparece porque, ao mesmo tempo, as esquerdas desaparecem ou perdem o norte, dividem-se privilegiando as questões identitárias e territoriais ou dizendo à sociedade o que é ou não politicamente correto"
Juan Torres López

O avanço da extrema-direita.

O avanço da extrema-direita - prima-irmã do fascismo e do nazismo -, em várias partes do mundo tem atordoado democratas de direita e de esquerda, ninguém sabe como enfrentar o exército de robôs que alimentam incautos pelo WhatsApp e pelas redes sociais e que estão dispostos a incivilidades como a de 8 de janeiro. 

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Brasil, Argentina e Holanda elegeram a extrema-direita.

Lamento o resultado na Argentina, mas o compreendo, pois, o fracasso da gestão liberal de Macri – fracasso que ele próprio reconheceu – e, a incapacidade de Fernandez em conter a inflação e a miséria, levou a população, especialmente os jovens, a optar pelo caos como caminho, afinal, o “caos" também é um caminho que precede e propicia a geração de algo novo. 

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Penso que para os jovens - tanto no Brasil, como na Argentina -, a ditadura é algo distante e abstrato e que a democracia não é valor absoluto, por isso optaram por um palhaço libertário e anarcocapitalista lá e por um incivilizado por aqui em 2018.

Os jovens que tem até quarenta anos não conheceram outro mundo que não seja o da lógica liberal e nossos líderes, aqueles que se reconhecem de esquerda, tornaram-se excessivamente conciliadores e os “avanços sociais” são, a meu juízo, cosméticos e não estruturais; esses nossos líderes foram e são incapazes de conversar com a sociedade, vivem em bolhas.

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Na Holanda o caminho foi mais ou menos o mesmo.

A vitória da extrema-direita nas eleições gerais, segundo Juan Torres López, é herança de treze anos de governos da direita liberal - que reduziu impostos para os mais ricos, privatizou e cortou nas despesas e benefícios sociais, que administrou para o mercado, criou dificuldades para a classe média e penalizou as pessoas com renda mais baixa; para se ter uma ideia a direita liberal cortou tanto os investimentos e gastos públicos, em nome de “necessária” austeridade, que os serviços públicos de saúde, transportes, educação e assistência, pioraram muito; a assistência aos idosos e seus dependentes, por exemplo, passou a ser uma “obrigação” familiar, o Estado. 

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Ou seja, os sucessivos governos liberais na Holanda espoliaram a renda e dos direitos das classes de renda média e baixa, ao mesmo tempo em que “transformaram seu país no paraíso fiscal mais agressivo da Europa, concedendo todo tipo de favores fiscais e financeiros às grandes empresas”, mas a esquerda holandesa não se apresentou como alternativa aos olhos da população. Por quê? 

As causas.

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O desencanto com a democracia liberal, com a Política e com os políticos, “empurrou” argentinos e holandeses para o colo da extrema-direita, no Brasil aconteceu a mesma coisa em 2018, por aqui o desencanto foi amplificado e validado pela imprensa corporativa, pelo golpe de 2016 e pela Lava-Jato.

O crescimento da extrema-direita está relacionado à crueldade do neoliberalismo com a classe-média e com a classe trabalhadora (além da ausência de políticas públicas para os pobres e miseráveis).

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Mas temos que olhar para o próprio umbigo e assumir a nossa responsabilidade e incapacidade em apresentar ideias e realizações de fato transformadoras para a vida das pessoas, perdemos a conexão com a sociedade, especialmente com a juventude, tanto que se não fosse a aliança que envolveu a direita liberal e fisiológicos do centrão, o Brasil estaria hoje sendo governado por Bolsonaro. 

A esquerda está “perdidinha”, tanto que ao invés de discutir o que interessa à população e que é demonstrado nas pesquisas: (i) segurança, combate às milicias e ao tráfico de drogas; (ii) combate à corrupção e (iii) políticas públicas socioeconômicas - temas que interessam à vida das pessoas -, perde tempo com questões identitárias e picuinhas de toda natureza.

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E o bolsonarismo, doença crônica que desenvolveu-se silenciosa e gradualmente, terá duração longa ou incerta, exige tratamento de choque e mais militância da nossa parte, pois ele não tem cura e vai além de Bolsonaro; ele é a extrema-direita, suas certezas e medos, seu egoísmo, a falta de empatia e de preocupação com as questões sociais; ele é a voz da extrema-direita, fascista, neopentecostal, ultraliberal, sem projeto para o país e servil ao mercado financeiro.

Estou um pouco irritado nessas últimas semanas e numa dessas noites insones fui ao youtube e procurei as entrevistas do sociólogo Chico de Oliveira no Roda Viva.  

Ouvi-lo foi um balsamo e, quando ele propõe reflexão sobre a natureza do capitalismo no Brasil e sobre uma espécie de esquerda esquizofrênica na qual nos transformamos, tive a sensação de que ele está cem por cento certo.

À sua obra mais conhecida é a "Crítica à razão dualista", ensaio de 1972, ele agregou em 2003 outro ensaio, chamado "O ornitorrinco", no qual busca compreender e interpretar o Brasil, um país no qual a esquerda sindical está mais preocupada com os fundos de pensão, e, portanto, com o mercado financeiro, do que com a possibilidade transformadora que a ação sindical possui.

Esse é o tipo de sindicalista temos: ornitorrinco: mamífero semiaquático que põe ovos, figura muito estranha que não é uma coisa nem outra. 

Se os sindicalistas transformaram-se em importantes operadores do mercado financeiro, os partidos e os seus dirigentes, tornaram-se em burocratas e carreiristas, sempre preocupados com as próximas eleições e com “seus” mandatos; foram capturados pelo liberalismo e pela democracia liberal (aquela sempre disposta a dar golpes em nome dos seus interesses), o que os tornou incapazes de propor rupturas, são todos conciliadores (e alguns corruptos).

Os nossos líderes são desorganizados, política e eleitoralmente, e, ao contrário da direita e da extrema-direita que dão show nas redes sociais e no WhatsApp, sequer conseguimos concorrer com eles no mundo virtual; como vamos falar com os jovens?

O que fazer? 

Quem tem que nos dizer o que fazer são os nossos líderes, ou serão eles meros burocratas e carreiristas? Se forem que peçam para sair.

Depois de Chico de Oliveira fui até Trotsky, e li: “A burocracia assemelha-se a todas as castas dirigentes pelo fato de se encontrar sempre pronta a cerrar os olhos perante os mais grosseiros erros dos seus chefes em política geral se, em contrapartida, estes lhe forem absolutamente fiéis na defesa dos seus privilégios.” (A Revolução Traída, p. 269, Edições Antídoto, Lisboa, PORTUGAL).

E pensei: serão nossos líderes como os dirigentes soviéticos, meros porta-vozes de uma burocracia?

Nossos líderes tornaram-se instrumentos da não democracia e servem à manutenção das coisas como estão e somos vítimas patéticas da burocracia partidária e de carreiristas desprezíveis?  

Me perdoem o mau-humor, mas essas são as reflexões de hoje.

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