Esquerda vence no Peru: confirma onda progressista, mas com muita luta

"É o segundo turno mais distante de um primeiro que conheço no mundo", escreve o sociólogo e professor Lejeune Mirhan, ao analisar a vitória de Pedro Castillo nas eleições presidenciais peruanas

Pedro Castillo
Pedro Castillo (Foto: SEBASTIAN CASTANEDA/REUTERS)
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Por Lejeune Mirhan

No último dia 6 de junho de 2021, domingo, ocorreu o segundo turno mais polarizado que eu tenha acompanhado nas últimas décadas e com resultado que nos alegrou a todos/as, apesar do sofrimento e agonia dos dois primeiros dias (depois, já ficou mais fácil calcularmos a vitória pelas projeções). É o segundo turno mais distante de um primeiro que conheço no mundo. Sobre o significado dessa vitória para a esquerda, sobre quem é o Prof. Castilho, vencedor, e mesmo uma pequena história recente do Peru é que tratarei neste meu novo ensaio internacional. 

Sobre os resultados finais

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Com 100% das urnas apuradas, a votação final do Prof. Pedro Castilho foi de 8.830.647 (50,145%) e de Keiko Fujimori foi de 8.779.709 (49,855%), uma diferença de apenas 50.938 votos, ou seja, de apenas 0,29%. Aí estão computadas todas as 86.488 atas das mesas eleitorais que já foram processadas (apenas faltam ser enviadas 95 atas, para serem recebidas fisicamente pelo TSE peruano). Os resultados não podem mais ser alterados, são finais, mas ainda se aguarda a proclamação dos resultados (1).

Não se trata de uma vitória espetacular. A primeira vitória de Lula, no segundo turno, em 2002, foi de 61,27% a 38,72%, com uma diferença de 22,55% dos votos (2). Em um universo de 17.610.356 votos válidos, já excluídos os brancos e nulos, considerando também que o voto no Peru é facultativo, foi, de fato, muito apertada. Pela primeira vez na história peruana os peruanos residentes no exterior – e são milhões espalhados pelo mundo – puderam se inscrever para participar das eleições, totalizando quase um milhão de eleitores aptos a votar (no exterior a abstenção chegou perto de 70%, mas os resultados favoreceram a Keiko Fujimori em dois para um).

A candidata da extrema direita neoliberal, que liderou a apuração nas primeiras 36 horas, nada falou sobre fraudes. Tampouco o candidato oposicionista. Não houve nenhuma denúncia significativa de fraude eleitoral. Houve muitos observadores internacionais, da OEA e mesmo do Brasil, que enviou o presidente do TSE, Luiz Roberto Barroso. 

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Mas, quando Castilho passou a liderar a apuração, com a projeção de sua apertada vitória, o discurso mudou. Keiko passou a falar incessantemente em fraude e até protocolou pedidos de anulações de urnas, envolvendo mais de 200 mil votos. 

E, não há indícios de que houve uma fraude generaliza na eleição peruana. Pode ser que aqui e ali, haja alguma denúncia. Há os observadores internacionais da OEA, do Brasil, enviado pelo presidente do TSE, ministro Luiz Barroso. Não houve, segundo eles, nenhum incidente que merecesse a observação de fraude generalizada.

José Pedro Castilho Terrones e seu programa de governo

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Pedro Castilho é um professor primário de uma escola da zona rural, de uma cidadezinha muito pequena do Peru, chamada Puña, no distrito de Tacabamba, Província de Chota, Departamento de Cajamarca. Puña é a região onde ministra suas aulas para as crianças de seis a nove anos (3). Castilho cursou faculdade, sendo bacharel e licenciado em Educação pela Universidade César Vallejo, onde também obteve o título de mestre em psicologia educacional. 

Ele tornou-se líder sindical, sendo dirigente de uma entidade de professores públicos, Sindicato Único de Trabalhadores em Educação do Peru (Sutep), o que equivale à Apeoesp, em São Paulo, em termos de grandeza, é equivalente à Associação dos Professores Licenciados da Bahia-APLB, a maior da América Latina. 

Cada uma reúne cerca de 300 mil trabalhadores na sua base, sendo a APLB um pouco maior. Ambas as entidade sindicais no Brasil são considerados os maiores sindicatos de trabalhadores da América Latina. Castilho liderou uma greve nacional de professores, em 2017, que foi a maior do setor educacional de que se tem registro na história do Peru. Ele ficou muito conhecido por isso.

Para nós, que estudamos por dever de ofício, como tarefa diária, a geopolítica mundial e também a América Latina, não podemos aquilatar ainda a dimensão e o significado da vitória, ainda que por pequena margem, que a esquerda peruana obteve no último dia 6 de junho, domingo. Aqui em nosso subcontinente da América do Sul, somos 12 países, sendo que apenas dois desses não fazem fronteira com o Brasil (Chile e Equador).

Castilho é homem simples (mas não simplório), católico praticante, religião muito forte no Peru. Ele pertence ao chamado Partido Peru Livre-PPL, que, apesar de não ter comunista no nome, eles se reivindicam marxistas-leninistas e mariateguistas. José Carlos Mariátegui é o teórico marxista-leninista mais famoso na América Latina. Ele escreveu obras marxistas adaptadas, como se criasse uma corrente de pensamento latinista, latino-americana, em adaptação ao pensamento marxista (4). Por certo o PPL peruano é um partido de esquerda. 

É bom deixar registrado que no primeiro turno, em 11 de abril, disputaram 18 candidaturas. Houve uma pulverização de candidatos e nenhum era, marcadamente, favorito. Houve uma dispersão de votos. Tanto que os dois que foram para o segundo turno obtiveram respectivamente 18,92% (Castilho) e 13,41% (Keiko). Ambos, somados, obtiveram apenas 32,33% (5).

Só para termos uma ideia, no Brasil, vivemos a redemocratização em 1985. Após a promulgação da Constituição Federal de 1988, realizaram-se as primeiras eleições presidenciais diretas, desde 1960, em 1989. Ficamos 29 anos sem ter o gostinho de eleger por voto direto o nosso presidente. Naquela primeira eleição de 1989, houve o registro de 22 candidaturas. Em todas as que sucederam, foram entre seis e 13 candidaturas apenas.

No período de 1945 até 1960, quando o mandato presidencial era de cinco anos, houve quatro eleições presidenciais: 1945, 1950, 1955 e 1960. Nessas eleições ocorreram, respectivamente o registro, respectivamente de apenas três, quatro, quatro e por último três em 1960 (6).

No caso do Peru, o total foi de 18 candidatos, portanto muito acima da média do Brasil entre 1994 e 2018, que foi de nove candidatos. Portanto, no caso peruano foram registradas o dobro das candidaturas que no Brasil e lá, a esquerda saiu dividida (no Brasil em parte dos primeiros turnos essa divisão também ocorreu). 

Consideramos o Prof. Pedro Castilho, um homem de esquerda, marxista-leninista, e seu partido com um programa emancipador e antineoliberal. Meu amigo e professor da UFABC, Gilberto Maringoni, menciona que o programa do Partido, apesar da proclamação marxista-leninista mariateguista, se “aproxima da social-democracia europeia de 1950 e 1960”. A questão é a de colocar o estado no centro da atividade econômica. 

Maringoni usa os termos “controlador, planejador, empresário, protetor, inovador e regulamentador do mercado”. Seu programa menciona ainda a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre, democrática e soberana, bem como investir pelo menos 10% do PIB em educação e fala em um sistema de saúde “único, gratuito, massivo, descentralizado, participativo e de qualidade”. Algo como o nosso SUS, como diz Maringoni (7).

Houve um fato que merece nosso registro sobre o primeiro turno nas eleições peruanas. Não é compreensível que os dois partidos comunistas tradicionais do Peru – o PCP (original de Mariátegui) e o PCP Pátria Vermelha, tenham lançado candidatura, de uma mulher, Veronica, que fez concessões ao neoliberalismo em seu programa de governo. É como se ela tivesse publicado no Peru algo semelhante àquela carta que Lula teve que publicar em junho de 2002. Ela amargou um 8º lugar.

Felizmente, ambos os partidos apoiaram o Castilho no 2º Turno. Não tenho a informação sobre com que intensidade e dedicação isso ocorreu, mas formalmente fizeram isso, como pude ver nas páginas desses Partidos na Internet.

Em função da pulverização, Pedro Castilho vai ao 2º turno, em primeiro lugar, com menos de 19% como vimos. É claro que ir em primeiro lugar é importante, pois é menos comum a reviravolta eleitoral. Dito de outra forma, 81,08% dos outros eleitores peruanos que votaram válido, escolheram algum outro candidato. 

A candidata Keiko, do Partido Força Popular, é de extrema direita, ainda que fale em democracia. É igual ao pai, que está preso, assim como ela própria que também já esteve presa. Pediu desculpas ao povo, mas é corrupta e pró-imperialismo. Seu programa dito “liberal” é na verdade neoliberal e de concepção capitalista financeira.  

Breve história do Peru

A independência do Peru é muito próxima da nossa, de 1821. A nossa, no Continente, foi uma exceção sobre que tipo de regime deveria ser instaurado após a independência nacional. A nossa foi proclamada por Dom Pedro I, filho do rei de Portugal, Dom João VI. Ao invés de proclamar uma República, ele implanta um Império. E nossa República não foi construída logo em seguida, como fizeram todos os países da América do Sul, os outros 11, além do Brasil.

A independência do Peru em 1821 é apenas a “declarada” como dizem os historiadores. O que eles chamam de “consolidada”, só veio mesmo em 1824, provavelmente quando foi promulgada uma nova Constituição, quando se funda formalmente a República. 

Aproveitando um pequeno parênteses com informações importantes. É comum que todos os outros 11 países do nosso subcontinente, a América do Sul, vejam o Brasil como um país imperialista. Não é para menos. Nós temos a questão territorial, a questão populacional, e a questão econômica e em todos esses três aspectos, o Brasil é praticamente 50% de todos os outros 11 países.

O PIB do Brasil é de 3,2 trilhões de dólares (dados de 2017) e o PIB dos outros 11 países é de 3,3 trilhões de dólares, apenas um pouquinho acima do nosso. A população do subcontinente é de 422 milhões de habitantes e a do Brasil de 214 milhões. Exatamente, 50%. Por fim, a questão territorial. Todos os países da América do Sul perfazem uma área de 8.9 milhões de Km2. O Brasil tem 8,5 milhões de Km2, de forma que somos apenas 5% menor que todos juntos. 

Em geopolítica mundial, leva-se em conta o tamanho do território e da população e depois, da economia que, aliás, nós fomos a sexta nos áureos tempos de Lula e iriamos para a quinta. E hoje, estudiosos dizem que o Brasil já seria a quarta economia do mundo. Agora temos a notícia de que o Brasil despencou para a 13ª posição no PIB mundial. Caímos de 11ª para a 13ª posição entre os 193 países membros da ONU.

Isto por si só, não teve problema quando estivemos no governo do Brasil, com uma política latinista, que preza a unidade da América do Sul e não tem concepções imperialistas de fato. Lula estabeleceu isso com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos-Celac e com a UNASUL. Estas instituições multilaterais foram totalmente desmontadas depois do golpe sofrido pela Dilma em 2016 e seguiram assim desde a posse deste que se apresenta como nosso presidente (sic). Se você não tem uma concepção dessas, você pode, de fato, desenvolver certos pendores imperialistas, devido aos fatores vantajosos como a economia, tamanho e população.

Quando Evo Morales tomou posse pela primeira vez em 22 de janeiro de 2006, o presidente Lula estava no último ano de seu primeiro governo. Evo nacionalizou uma refinaria na Bolívia que era da Petrobras. Vários jornais da burguesia brasileira queriam que o governo Lula invadisse aquele país. Evidente que Lula não fez e não faria isto.

Para finalizar sobre Castilho. Ele tem uma formação católica conservadora. É possível ser de esquerda e ter concepções conservadoras do ponto de vista dos costumes. Não acho que seja automático considerar-se de esquerda e progressista e também concordar com certos aspectos e temas relacionados com costumes.

Não quero entrar nesse aspecto sobre temas como de gênero, aborto, casamento entre pessoas de mesmo sexo, eutanásia. É fato que ele tem posições conservadoras sobre todos esses temas. Mas, o que importa é o seu programa político: antineoliberal e antiprivatista. E isso não quer dizer que ele venha a ser “estatista”. Ele não propõe estatizar tudo, mas defende que as empresas estatais não sejam privatizadas.

Os presidentes peruanos pós-Fujimori 

Alberto Fujimori, pai da candidata Keiko, está preso. Ele é imigrante, filho de cidadãos japoneses, está com 82 anos e governou o Peru por um longo período, de 28 de julho de 1990 até 22 de novembro de 2000. Em 5 de abril de 1992 ele deu aquilo que se chama autogolpe, dizendo que iria continuar presidente e com poderes de ferro. Ele fechou o Congresso Nacional, fechou o poder judiciário, a Suprema Corte, que lá se chama Tribunal Constitucional e o Ministério Público Federal.

Ele conseguiu dar o golpe com apoio de grande parte das Forças Armadas. Hoje no Brasil, se este que se apresenta como nosso presidente desse um golpe, não acredito que seria com apoio total das forças armadas. Acho que nem parcial. Ele não tem a maioria da cúpulas militares.

Fujimori conseguiu e implantou no Peru uma das piores versões – verdade que não há boas versões –, do neoliberalismo e de modelo mais selvagem de privatização. E, no mesmo ano de 1992 ele teve um grande trunfo político e militar. No mês de setembro ele consegue prender o líder do Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro marxista-leninista-maoísta, chamado Abimael Guzmán (8), que se encontra preso, com idade avançada. Seu nome na guerrilha era Comandante Gonzalo. 

Foi um grande trunfo, porque o grupo combatia quase em pé de igualdade com as forças regulares governamentais. Uma conceituada empresa de cálculo de risco nos EUA, a Rand Corporation, onde trabalho o conceituado sociólogo Francis Fukuyama, chegou a prever que o Sendero venceria a guerra e tomaria o poder. Isso seria iminente. 

Pesam acusações de que os senderistas matavam comunistas, que é um desvio e uma incompreensão profunda de um processo revolucionário armado, a partir do campo. Esta visão maoísta expressa o que se chama de cerco das cidades pelos campos. No Peru tem-se vários partidos e organizações que se reivindicam maoístas. 

O paradoxo é que o presidente eleito, que não é nem senderista nem maoísta, venceu as eleições com o apoio do campo sobre as cidades. Ele foi acusado, no segundo turno, através de campanhas difamatórias, de ser senderista e de ter relações com o Presidente Gonzalo, defensor da luta armada, mas que não encontra respaldo na ampla maioria da esquerda peruana. Dezenas de jornalistas e meios de comunicação mentiram o tempo todo nas redes de TVs (9).

O que aconteceu com o Peru depois que Fujimori deixou o poder em novembro de 2000? O país ficou um caos ainda pior e nove presidentes o sucederam, sendo que agora no próximo dia 10 de julho, vai tomar posse o décimo presidente. Portanto, em 10 anos, 10 presidentes. É como se o país tivesse um presidente por ano. 

São os seguintes todos esses presidentes do Peru: 1. Valentín Paniagua Corazao (governou de 22 de novembro de 2000 até 28 de agosto de 2001); 2. Alejandro Toledo Manrique (governou de 28 de julho de 2001 até 28 de julho de 2006); 3. Alan García Pérez (governo de 28 de julho de 2006 até 28 de julho de 2011); 4. Ollanta Moisés Humala Tasso (governo de 28 de julho de 2011 até 28 de julho de 2016); 5. Pedro Pablo Kuczynski Godard (governou de 28 de julho de 2016 até 23 de março de 2018 quando renunciou); 6. Martín Alberto Vizcarra Cornejo (governou de 23 de março de 2018 até 9 de novembro de 2020 quando sofreu impeachment); 7. Manuel Arturo Merino De Lama (governou de 10 de novembro de 2020 até 15 de novembro de 2020, pois era presidente do Congresso, mas também renunciou); 8. Francisco Rafael Sagasti Hochhausler (governou de 17 de novembro de 2020 e ficará no cargo até a posse de Castilho em 28 de julho de 2021, pois ele era o presidente do Congresso). Isto é resultado de crise política e institucional. E, não sabemos se vai haver uma solução para esta crise.

A composição do Parlamento

Os deputados foram eleitos no primeiro turno. Isso é característico de países que adotam o sistema de eleição casada do presidente e do Parlamento. Isso é assim na maioria dos países. Talvez um dia tenhamos que separar, pode ser mais saudável. No México, esta semana teve eleição. Passados dois anos e meio da posse do Andrés Manoel Lopes Obrador, eles realizaram eleições. A aliança que ele construiu com o Partidos dos Trabalhadores e o Partido Comunista mexicanos, ganhou amplamente as eleições para o Parlamento. Lá é o exemplo de país com eleições parlamentares separadas da presidencial.

No Peru, com 17 partidos disputando as eleições, 10 conseguiram eleger deputados. De um total de 131 membros do Congresso, o Partido Peru Libre, do Prof. Castilho, conseguiu eleger apenas 37 deputados (28%). Vejam que no primeiro turno presidencial, Castilho teve 2.724.752 votos, ou 18,92%. Para deputado, seu Partido obteve apenas 13,41%, ou seja, 3.653.389 dos seus apoiadores votaram em outros partidos. Esse é o problema da chamada eleição casada. Talvez por esse aspecto seja preferível eleger deputados depois que o presidente for eleito.

A direitista Keiko, com seu partido Força Popular, elegeu 24,18% do Congresso, com 24 deputados. Keiko teve, em termos nominais, no primeiro turno, 1.930.762 votos, ou 13,4%. Para o parlamento, seu Partido obteve apenas 1.457.640 ou 11,34%, registrando uma perda de 473.122 eleitores que votaram em outros partidos.

Os outros partidos e suas respectivas bancadas eleitas são os seguintes: Ação Popular, com 16 deputados; Aliança para o Progresso, com 15 de deputados; Renovação Popular com 13 deputados; Avança País com sete deputados; juntos pelo Peru, Somos Peru e Podemos Peru, todos esses com cinco deputados e finalmente, o Partido Morado com apenas três. 

Assim, os outros oito partidos que compõem o resto do Parlamento que foram vinculados aos outros candidatos presidenciais, são de siglas que ainda não conhecemos. O que é certo é que, se o Prof. Castilho quiser governar, vai ter que fazer composição, mesmo o Peru não sendo parlamentarista, ele vai ter que oferecer participação no governo e, talvez, até já tenha feito acordos para o 2º turno, no sentido de espaços políticos. O cuidado que se tem que ter é com a interferência nos projetos e planos do governo progressistas. 

Eu imagino que o Prof. Pedro Castilho, já deva ter feito conversações entre o primeiro e o segundo turnos. Então nós vamos estudar e ver a linha político-ideológicas deste novo Parlamento Peruano. Os dois maiores são um marxista-leninista, vencedor e o segundo, de extrema-direita, da derrotada Keiko Fujimori.

Por que Castilho decaiu em votos entre os dois turnos?

Por que, de uma diferença em que as pesquisas apontavam na primeira e segunda semanas, depois do primeiro turno, ele chegou a 23% a vantagem sobre Keiko e terminou o segundo turno com menos de 0,4% dos votos válidos? Qual a explicação?

Temos no mundo hoje países de presidencialismo puro, ou seja, o presidente é ao mesmo tempo chefe de estado e de governo. É assim na França, Síria e em vários países onde o presidente é eleito pelo voto direto, mas tem o primeiro-ministro. Nestes casos, quem indica o primeiro-Ministro é o próprio presidente, seja nos modelos de presidentes eleitos direta ou indiretamente.

Há outros sistemas que são parlamentaristas, mas que também não são essencialmente puros, pois têm um presidente, mas que não é eleito pelo voto direto do povo, mas indiretamente, pelo Congresso. É o caso de Israel, Itália e Alemanha, entre outros. 

Por exemplo, nós nem lembramos o nome dos presidentes da Alemanha, da Itália, mas talvez saibamos o da primeira-ministra. Todos sabem o nome do presidente da China, que é o Xi Jinping, mas ele não governa, quem governa é o primeiro-ministro. Assim também é na Síria. Sabemos o nome do presidente Dr. Bashar Al Assad apenas. Da mesma forma, sabemos o nome do presidente Vladimir Putin, da Rússia, mas nem sempre lembramos do nome do seu primeiro-Ministro.

Então, no caso dos países de presidencialismo puro, não tem primeiro-ministro. É o caso de toda a América Latina. Na Europa não tem presidencialismo puro. A França tem o sistema misto. A gente sabe o nome do presidente da França, Emanuel Macron, mas não lembra o nome do primeiro-ministro. Porque, apesar de não governar, é mais marcante o papel do presidente. Ele faz a política externa, tem as responsabilidades internas com as forças armadas e indica o PM.

Em governos parlamentaristas, os presidentes não têm papel. No caso de Israel, ele só indica o primeiro-ministro. Quem sai em primeiro lugar na eleição, é ele quem autoriza a formar o governo. No caso, Netanyahu não conseguiu, mas o segundo, Yair Lapid, conseguiu formar o governo.

O país em que o segundo turno demora mais tempo, tirando o Peru com suas oito longas semanas, é o Brasil, com três semanas. Tem alguns que são duas semanas. Os eleitores quando vão para o primeiro turno, vão olhando para o segundo. Todos têm o seu candidato do coração, com o qual eles têm identidade política, emocional, ou qualquer critério que a pessoa adote. Por isso costumo dizer que a escolha no primeiro turno é mais emocional. Você tem uma identidade, mas já olha os outros. Até vê a posição de seu candidato nas pesquisas, se ele tem chances ou não de passar para o segundo.

Tem eleitor(a) que pratica o chamado voto útil. Seu candidato não tem chance, então, ele sacrifica o voto e escolhe um que tenha chances de vencer no segundo turno ou apenas de barrar aquele que é pior, para esses eleitores/as. Assim, essas são escolhas individuais. E os critérios adotados são os mais diferentes e heterodoxos possíveis.

Supondo que o seu candidato tenha chances de ir e está embolado entre os quatro primeiros, você mantém a votação nele. O que acontece quando o seu candidato não vai ao segundo turno? Eu digo, que você tem que fazer uma escolha mais lógica, mais racional, mas uma lógica de acordo com aquela individualidade da pessoa. Por que uma lógica individual? Você não tem que seguir uma orientação política de ninguém, de nenhum partido, para saber qual dos dois vai escolher no segundo turno.

Normalmente, a escolha é feita na perspectiva de você eleger o menos ruim ou um candidato que mesmo que não seja o de seu coração, mas que seja um candidato que possa derrotar o candidato que você seguramente tem uma opinião de que não quer de jeito nenhum. Por isso eu digo que a lógica é individual e não coletiva. Os motivos que levam os milhares de eleitores a escolherem alguém para o segundo turno, são muitos. Mas, o que mais prevalece, é impedir que o pior ganhe.

Os Estados Unidos não têm dois turnos. Deve ser o único país que não adota este formato. A eleição em dois turnos é muito democrática. Mas, lá não é uma democracia, diga-se de passagem. Em meu novo livro: Conflitos Internacionais em um mundo globalizado, escrito em parceria com meu amigo e camarada José Reinaldo Carvalho, eu tenho um capítulo onde estudo a farsa da democracia estadunidense (10). 

Lá nos EUA, os eleitores tiveram que fazer escolhas emocionais e racionais já no primeiro turno. Todo mundo que votou em Biden, alguns, porque gostam demais dele e uma parte é obrigada a fazer uma escolha, primeiro, porque lá, é quase um sistema bipartidário, ainda que tenham muitos partidos também. Na última eleição teve cinco candidatos, mas só aparecem dois. Então, uma parte dos eleitores de Biden no primeiro turno, já faz a escolha racional logo, mesmo não gostando dele. Mas, para que? Para barrar o pior.

Aliás, no Brasil, no segundo turno, lamentavelmente, parte dos eleitores seguiu o raciocínio da burguesia. De um lado um advogado, economista, filósofo, sociólogo, professor da USP e, do outro lado, um fascista, misógino, racista, extremista, homofóbico, islamofóbico. Aí você se depara com o editorial do Estadão na véspera do segundo turno, cujo título é: “Uma escolha difícil”. Entre a democracia e o fascismo, eles ficaram com o fascismo. E, uma parte do povo foi junto nisso, 57 milhões.

No caso do Peru, no primeiro momento, onde tudo se acomodou, foi aquela onda e parecia que o Castilho apontava como franco favorito. Aí nós nos deparamos com oito longas semanas que separam entre o primeiro turno e o segundo turno. É o país em que se demora tanto tempo entre um turno e o outro.

Aliás, também como no Brasil, é longo o tempo que separa a eleição e a posse. O Prof. Castilho vai tomar posse dia 28 de julho, portanto, são 52 dias. No Brasil as eleições de 2022 ocorrerão no dia 8 de outubro (dia da prisão de Che Guevara) e o segundo turno ocorrerá no dia 29 do mesmo mês. Assim, o tempo entre a eleição e a posse transcorrerá em 63 dias, 11 a mais que no Peru. No caso peruano, muita coisa pode acontecer nesse período.

Então, nas oito semanas de campanha, aconteceram dois fenômenos. E nem as forças progressistas têm controle sobre eles. O primeiro deles, foi o fenômeno tecnológico, que são os aplicativos de mensagens instantâneas, sendo o mais popular deles o WhatsApp, seguido do Telegram e do Signal. Nesses aplicativos você pode mandar para até cinco pessoas suas opiniões. 

Eles proibiram disparos em massa, mas permite que sejam criadas listas de distribuição. Cada uma dessas listas comporta até 256 pessoas. Não são grupos, mas listas só de ida. Quando você publica no grupo, todos recebem instantaneamente e podem responder. No caso da lista, você aperta o botão para enviar para uma lista e na hora, 256 pessoas recebem aquela mensagem. E se responderem, o farão apenas para você. Eu mesmo uso muito isto todos os dias, mais de uma vez enviando meus artigos, avisos sobre meus programas ao vivo. 

O segundo foram as Fake News (notícias falsas). No Peru, como esperado, foi uma enxurrada de notícias falsas. Falaram-se coisas do Prof. Pedro Castilho, homem simples, interiorano, professor de escola rural para crianças. Chegaram até a dizer que ele é terrorista, membro do grupo Sendero Luminoso, que ele jamais foi. Fizeram campanha abertamente anticomunista (11).

E, o pior de tudo é que ele é comunista. Isto não é uma mentira, mas você reforçar este aspecto, trazendo à tona o anticomunismo mais tosco, da época da guerra fria, que se pensava já superado. Estamos indo para o fim da primeira da metade do século 21 e ainda há a propaganda da fascista da Keiko que dizia para os peruanos que o Castilho iria tomar a casa e o carro das pessoas ou vai colocar famílias morando dentro da sua casa. Foi nesse nível. Então, uma mistura de anticomunismo com mentiras.

Este é o primeiro aspecto e nós não temos controle sobre isto e não há perspectiva no mundo, de como se regular – e não dizemos controlar –, um aplicativo de mensagens instantâneas. A pessoa recebe a mensagem e é uma mentira e ela acredita nela. É um fenômeno estudado por psicólogos estadunidenses há mais de 30 anos. A pessoa sabe que é uma mentira, mas ela tem identidade com essa mentira. Ela se identifica com aquilo. Ela quer acreditar que aquilo é verdade e propaga para todo mundo. Especialmente o tiozão da família, o mais atrasado do grupo (12).

Todos nós participamos de grupos de esquerda, mas não só. Participamos também dos grupos familiares, do nosso sindicato, da nossa igreja, do nosso clube. E, em todo lugar tem esse tiozão que propaga o tempo todo mentiras. Que não se preocupa em conferir nada que recebe. Não faz checagem das propagandas que recebe e imediatamente as repassa adiante, formando correntes que são infinitamente multiplicadas. 

O segundo aspecto, incontrolável, foi a campanha milionária: o tostão contra o milhão, que era como se falava no Brasil desde a redemocratização em 1945. De um lado uma campanha muito pobre de um professor e do outro, a campanha milionária da Keiko. Pagas por ela mesma, do dinheiro que ela amealhou com a sua corrupção e o seu enriquecimento; pagas com doações de campanha da burguesia financeira que bancou a campanha para que o modelo neoliberal de próprio pai, Alberto Fujimori no Peru siga vigendo. Tal qual o Menem na Argentina, Salinas de Gortari no México, Hugo Banzer na Bolívia, onde até a água foi privatizada. O povo esperava chover para pega água com canecas e latinhas.

As perspectivas e os desdobramentos

A grande batalha que se trava nesse momento no Peru, na política, para os setores progressistas é pela proclamação do resultado final das eleições e anunciar oficialmente a vitória do Prof. Pedro Castilho. O que ainda não se fez, mesmo já tendo sido computadas cem por cento de todas as atas da urnas. E aí vêm as impugnações, as contestações. Então, proclamado o resultado, a luta será para ele ser diplomado. Depois disso, vem a próxima batalha que será a garantia da sua posse em 28 de julho.

Todas essas são grandes batalhas. Mas, depois disso vem a maior batalha de todas, que é de conseguir governar. É um país que o próprio eleito chama de “Peru Profundo”. O artigo do grande jornalista Fernando Brito, do blog Tijolaço, menciona que Castilho é “o presidente dos invisíveis”. Ele é o presidente dos que perderam alguém pela pandemia. Ele é o presidente dos que perderam o emprego e não têm nenhum alento para o seu futuro (13).

Este é o Pedro Castilho que conta com o nosso integral apoio e solidariedade. A eleição dele, mesmo tendo uma disputa acirrada e renhida, é uma vitória espantosa, uma grande e retumbante vitória do campo do progresso. Vamos trabalhar com este termo. Daqueles que querem um mundo melhor, um mundo menos desigual, daqueles que querem um mundo de paz, de desenvolvimento. Que querem um Peru mais humano. Então, não precisa se proclamar socialista, está longe esta etapa. Mas, que não querem este modelo atual, que só aumenta a desigualdade, a injustiça, a fome, a miséria, o desemprego, a concentração de renda. 

Castilho vai fazer, ao que tudo indica, ao tomar posse, uma composição política ampla no Congresso. Ele vai fazer um governo antineoliberal. Ele então, segue uma onda mundial que nós chamamos de “onda progressista”, que já ganhou na Argentina, Bolívia, na Constituinte Chilena, onde essas forças progressistas, fizeram 76% e a extrema-direita e a direita, fizeram só 24%. É uma onda que contagiou os EUA, que derrotaram o fascista de Donald Trump. E mesmo em Israel, com uma composição heterogênea e com um PM de direita, mas em uma coalizão que governará em uma nova realidade e novo contexto, onde pela primeira vez um partido de esquerda estará no governo, ao lado de um palestino.

No Chile, as pesquisas já mostram que o candidato mais favorito para as próximas eleições chilenas é o candidato Oscar Daniel Jadue do Partido Comunista Chileno. Bons ares sopram aqui no nosso continente. A Nicarágua, apesar dos ataques, continua firme. A Venezuela resiste. E temos a grande pequenina Cuba. 

Nosso Brasil vai ficando cercado por esses países progressistas, tendo aqui um governo de extrema-direita, que beira o fascismo. Mas, cairá, se chegar até o ano que vem cairá nas eleições. Nenhum analista que eu conheço tem dúvidas sobre esta nova situação que nos apresenta. E o resultado das eleições peruanas, ainda que apertado, se inserem nessa tendência mundial. Mas, com muita luta. Nada será simples e pacífico de ora em diante. Na verdade, nunca foi nada fácil para as forças progressistas. 

 Quando Vladimir Putin, presidente da Federação Russa, discursou em Davos em 27 de janeiro de 2021, ele mencionou algo como “lembremo-nos da Alemanha de 1933”. Sei perfeitamente o que ele fala. Nessas eleições, Adolf Hitler, do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (sic), Partido Nazista, obteve 17.277.180 dos votos, ou 43,91% do total de votos válidos (14). Comunistas e socialistas, somados, obtiveram apenas 14.029.116 votos, ou 30,57%.

 Além de não terem saído unificados os dois partidos de esquerda, eles brigavam entre si. Os comunistas chegavam a tratar os sociais-democratas de sociais-fascistas! Mesmo se unificados tivessem, não conseguiriam impedir a ascensão de Hitler, pelo voto popular. O presidente da Alemanha Paul Von Hindenburg, que resistia em nomear Hitler chanceler, aconselhado pelo seu ministro das relações exteriores, Franz Von Papen, que lhe disse algo como: “pode nomeá-lo sem problemas. Depois nós o controlaremos”. E a história agora se repete como tragédia, depois da farsa. 

 Por isso, entendo perfeitamente o que Putin quis dizer naquele discurso. Vivemos um mundo em transição, mas absolutamente parecido com o período de 1933, ascensão de Hitler, seguido da sua tomada final de poder e segunda guerra mundial. Temos hoje todos os elementos para que o mundo possa evitar o pior. E lembremos ainda os encontros dos três grandes, Stálin, Roosevelt e Churchil. 

 Agora nesta etapa do desenvolvimento da luta política em esfera mundial, é preciso que nos unamos em ampla frente política, tal qual lembrou George Dimitrov no seu histórico pronunciamento no VII Congresso da Internacional Comunista em 1935 em Moscou, quando fez a defesa da frente única antifascista. Ele, é certo, não usou o termo “amplo”, mas “única”. Mas, o sentido é inequívoco: todos devem estar juntos, cujo objetivo único é derrotar o fascismo (extrema-direita) e defender a democracia, ainda que a sua versão burguesa (15).  

Notas

 1. Veja o site oficial de apuração peruano: ;

2. Caso tenha interesse, veja todos os resultados das eleições presidenciais no Brasil: ;

3. O termo escola primária no Brasil, desde a LDB de dezembro de 1996 não é mais usado, mas costumamos ainda utilizá-lo para mencionar escolas de crianças da mesma faixa etária que as dos alunos de Castilho;

4. Mariátegui é, tal qual Castilho, peruano, tendo vivido pouco e morrido com apenas 36 anos de idade (1894-1930);

5. Neste link  pode ver as votações de todos os 18 candidatos, que, somados tiveram 67,67% dos válidos, ou seja, pouco mais de dois terços dos votos, que ficaram dispersos entre 16 outras candidaturas de diversas matizes ideológicas. 

6. Veja mais dados eleitorais em meu livro História do comportamento eleitoral dos brasileiros entre 1945 e 2018, que pode ser adquiro neste endereço: . Lá eu registro o número de candidaturas nas eleições a partir de 1994 até 2018, que são: 1994, com oito; 1998, com 12; 2002, com seis; 2006 com sete; 2010 com novem; 2014 com 11 e finalmente, 2018, com 13 candidaturas;

7. este excelente artigo do Prof. Maringoni, publicado no jornal Brasil de Fato, pode ser lido no endereço: ;

8. Manuel Rubén Abimael Guzmán Reynoso nasceu em Arequipa em 3 de dezembro de 1934 foi professor de filosofia na Universidade de Ayacucho;

9. Veja este vídeo, neste excelente canal mexicano sobre o Prof. Pedro Castilho: ;

10. Os que quiserem adquirir esse livro podem clicar no link: ;

11. Veja neste link  a última propaganda do Prof. Castilhos debochando da campanha anticomunista peruana;

12. É o efeito chamado Dunning-Kruger que pode ser entendido neste link: ;

13. Leia a matéria completa neste endereço: ;

14. Tudo sobre as eleições federais na Alemanha em 1933 pode ser obtido neste link: ;

15. O discurso histórico pode ser lido neste link: . Aos que queiram se aprofundar nesse tema, sugiro a leitura de excepcional artigo de João Amazonas (1912-2002), secretário-geral do PCdoB, onde ele comenta em detalhes esse informe político. Podem ter acesso ao link neste endereço: <https://bit.ly/2YatFLh>. 

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