Esss tempos na terra, as águas, o rio, a vida...
Naquele instante percebi, o verdadeiro significado de Ser Um com o Todo… Marina Marino (1958-2026)
Cara leitora, caro leitor! ainda impactada pela ação do tempo sobre a vida, pela reflexão que o romance “ESSES TEMPOS NA TERRA”, da escritora Marina Marino, provocou-me, compartilho com vocês, minhas impressões sobre um enredo que mistura ficção, realidade, estudos cientificos e espiritualidade. Este artigo é publicado hoje, neste canal, em homenagem a essa grande mulher, escritora e editora da Revista VOO LIVRE.
Assim, com a memória ainda fresca sobre as enchentes do Rio Grande do Sul de 2024, absorvi o conteúdo das páginas do romance aos poucos, devagarzinho como quem sorve a água lentamente para saciar a sede, sentindo, gole por gole como se fosse o último. Após sorvê-lo por inteiro, senti-me com mais sede e desalojada com a proposta que o livro apresenta. Uma reflexão de peso sobre a vida e a natureza da vida! sobre o humano e as desumanidades produzidas sob o céu e sobre o chão nesse tempo na terra. Interrogações sobre o presente e o que virá depois dele transbordaram em mim.
Neste estado de sensibilidade, depositei o livro sobre a mesa de centro da sala e ele, ali exposto, parecia à espreita, a acompanhar meus movimentos. O raio cortando o céu em sua capa, atraia meus olhos todas as vezes que pela sala eu passava, como que me convidando a retomar a leitura. Depois dessa imersão e distanciamento do romance, li outros livros, apreciei vários filmes e somente meses depois, consegui retornar ao propósito de escrever sobre Esses Tempo na Terra,.
Sim. Precisei de coragem para escrever sobre as catástrofes naturais que têm atingido o nosso planeta e sobre as ações insanas de uma parcela da humanidade, que, por ganância, ousa destruir nossos rios e matas, biomas e rizomas inteiros de vida. Que explora, mata e come, produz armas e guerras sem nenhum escrúpulo, constrangimento e, tampouco, empatia.
Nesta análise do outro me incluo e vejo o quanto nossas crenças são fantasiosas e nossas ideias são atravessadas por construtos previamente produzidos e absorvidos sem nenhuma reflexão ou debate sobre as mesmas. O quanto estamos presas e presos às ideologias que contribuem para a manutenção dessa forma de ver e sentir o mundo que nos rodeia e a vida que, em nosso corpo habita, nos impedindo de sentir e enxergar o que de fato dá sentido à nossa existência.
Guardamos memória do medo que nos acometeu a Covid19. O terror de ver cruzes e covas brotando em cemitérios improvisados. Medo de dormir e acordar com a doença ou com noticias de familiares e conhecidos que se foram em mais este episódio de morte coletiva na história. Sobre partidas coletivas, o enredo e a trama que marcam os diálogos entre os personagens, nos convida a parar, a querer entender e a refletir sobre o quanto pouco, ou, quase nada sabemos. […] Há um conceito conhecido de que as almas evoluem em grupo…(p.93)
Frente aos fenômenos a que temos assistido, naturais ou não, envolvendo epidemias, incêndios, quedas de aeronaves, vulcões em ebulição, terremotos, vendavais, maremotos, calor e frio excessivos, dentre outros que ocorrem no planeta, o livro de Marina Marino, de uma forma singular, narra uma experiência ficcional de duas pessoas comuns e, ao mesmo tempo, únicas. Testemunhas vivas do amor compartilhado entre si, com os outros e com os sentimentos humanos aflorados em tempos de desespero. Narra, com realismo, a intensidade e a fúria das águas do Guaiba a desolar o Rio Grande do Sul, no ano de 2024, assim como ações tomadas de oportunismo e egoísmo humano.
Com muita sensibilidade descreve, com detalhes, os ruidos do temporal que se misturavam aos tremores e ruidos internos dos corpos e mentes dos personagens, levando-nos a nos sensibilizar com eles nos relatos. Estampidos de toda ordem, juntam-se aos trovões, raios e assombros que a tempestade volumosa que caia, num aguaceiro sem fim, faziam transbordar as mágoas, os sonhos e o desespero da protagonista que, na esperança, na fé ou, na dúvida sobre o que sobrará da catástrofe, nos emociona a cada página. Numa avalanche de emoções, Marina faz a gente sentir os temores que as tormentas produzem e, definitivamente, ter a clareza de que o que ocorre do lado de fora de nossos corpos, ocorre também por dentro, revirando nossos sonhos e medos adormecidos. [...] É a natureza nos dizendo que a vida é além, além do tempo, do espaço, além das memórias. (p.145)Assim, numa simbiose com os personagens, vamos revendo nossas concepções e formas de entender-nos nas adversidades da vida. Somos partes dos fenômenos e elementos naturais e nos damos conta do quanto esta constatação movimenta e balança as águas internas que nos constituem. Conforme os manuais de medicina, o corpo humano é composto por cerca de 60% a 70% de água. Essa quantidade de água varia conforme a idade, o sexo e a composição corporal (porcentagem de tecido magro e gordura).
Ora, se assim somos, somos um rio ambulante a desbravar espaços e a enfrentar obstáculos. Um mistério líquido da natureza. Desta metáfora, um mar de dúvidas balançaram minha reflexão sobre nossa presença no mundo, o porque estamos aqui e qual o sentido de tudo nesta tão breve existência.
[...] Naquele instante percebi, o verdadeiro significado de Ser Um com o Todo. Entrei em plena conexão, a ponto de não mais saber onde eu terminava e a água começava. Como eu seria sem forma? Uma luz, Uma centelha? Uma gota d’água? Só sei que me senti leve, calma e em paz. (p. 86)
Nesta linha reflexiva, fui ter com o Rio de “Sidarta”, com as suas águas agitadas e falantes e com as águas metafóricas de “As Três Margens do Rio”, pois sou também parte dessa metáfora que é a parte e o todo ao mesmo tempo. Segui pensando na chuva incessante, no leito do Guaiba em meio arquitetura urbana e na forma como escritoras e escritores leem e narram os movimentos das águas e os fenômenos da vida e da morte.
[...] O rio falava tudo e tudo falava o rio, as vozes de homens indo para a batalha, mulheres sentindo a tristeza do luto, a alegria do nascimento, o rio era todas as vozes que Sidarta tinha ouvido e nunca ouviu ao mesmo tempo, o rio rugia o Om. HESSE, H.
[...] Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro. ROSA, G.
Como aos demais autores, Marina segue com seus personagens enfrentando os estragos da enchente, com os medos, as perdas e as dores que só quem vive é capaz de dizer sobre elas. Vivenciam a solidariedade e a reflexão espiritual sobre as ondas cíclicas e o movimento dos quatro elementos sobre a natureza, nos lembrando que nada é estanque e definitivo, e que tudo passa [...] Aceitar a impermanência da vida, a única certeza desse mundo, uma vez que tudo por aqui é temporário, apenas passa. (p.90) Neste momento me vem, à cabeça, o rio de Heráclito e a sua teoria do devir, representado pelo constante movimento e transformação da natureza.
Segue a autora desbravando os sentimentos dos personagens frente à dura realidade de uma terra alagada e destruída mas, ao mesmo tempo, joga luzes aos traços de amorosidade e empatia que insistem em nos resgatar das tendências ideológicas excludentes, fazendo emergir a consciência.
Neste encontro consigo mesma a protagonista decifra o enigma que pede reflexão: […] tudo isso que você viveu, nestes poucos meses são apenas pretextos para recordar quem você é. Não há nada a perder, porque nada possuímos. (p.140)Assim, sem dar mais spoilers sobre a aventura amorosa, humana e científica que habita as páginas de Esses tempos na Terra, Marina Marino nos lembra de nossa força ancestral e espiritual e o quanto nossas energias estão conectadas com a natureza, pois, […] estamos um, no outro porque, na verdade, não há nenhum nem outro. Há apenas o milagre de uma coisa só. (p.149) Por derradeiro e pensando na ciclicidade da vida e dos fenômenos da natureza, recorro ao verso do cantor e compositor, Beto Guedes, a nos lembrar que…“[...] tudo o que move é sagrado…” e também, às tantas aprendizagens que a leitura de Esses Tempos na Terra nos apresenta, ou seja, a consciência de que o amor é decisão. É prático e ativo, assim como os fenômenos, faz acontecer […] Porque em Ágape, só há amor. Deixamos de nos ver separados, saimos da competição e apenas amamos. (137)

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
