Está na hora de proibir as bets
O Brasil não precisa de mais apostas e sim de mais poupança, mais investimento, mais produção e mais oportunidades reais de ascensão econômica
Durante décadas, o Brasil discutiu se deveria ou não legalizar cassinos e o argumento contrário sempre foi conhecido: o jogo de azar estimula o vício, destrói patrimônios e produz graves consequências sociais. Curiosamente, enquanto esse debate permanecia aberto, permitimos que um cassino infinitamente maior fosse instalado no bolso de praticamente todos os brasileiros, bastando um telefone celular para acessá-lo.
As plataformas de apostas esportivas transformaram o jogo em um produto disponível vinte e quatro horas por dia, acessível em poucos segundos e impulsionado por uma máquina de publicidade sem precedentes. Hoje, artistas, jogadores de futebol, influenciadores digitais e até clubes esportivos disputam contratos milionários para convencer seus seguidores de que apostar é diversão, inteligência ou até uma forma de ganhar dinheiro. Só que as bets são um negócio cuja sobrevivência depende exatamente do contrário.
Toda bet parte de uma verdade matemática incontornável: se os apostadores ganhassem, as empresas quebrariam. O lucro permanente dessas plataformas só existe porque, no conjunto, a imensa maioria perde. Essa não é uma opinião, mas a lógica estatística que sustenta qualquer jogo de azar.
Ainda assim, milhões de brasileiros acreditam que podem vencer as probabilidades. Não porque desconheçam completamente a matemática, mas porque compartilham uma das mais antigas fragilidades humanas: acreditar que serão a exceção. As bets vendem exatamente essa esperança estatisticamente falsa, exibindo os poucos vencedores para esconder os incontáveis perdedores. Assim, alimentam a ilusão do ganho, quando, na realidade, a vantagem permanece sempre do lado da banca.
O resultado já pode ser percebido nos orçamentos familiares, quando recursos que deveriam financiar alimentação, educação, saúde ou poupança migram para plataformas cuja única finalidade é capturar renda privada. O aumento do endividamento das famílias brasileiras possui diversas causas, mas é impossível ignorar o papel crescente das apostas on-line nesse cenário. O dinheiro que desaparece nas bets deixa de circular na economia real, enfraquece o comércio, compromete investimentos familiares e amplia situações de vulnerabilidade social.
Os defensores da atividade costumam invocar a liberdade individual: cada um deveria ser livre para gastar seu dinheiro como desejar. Em tese, parece um argumento irrefutável, mas na prática nenhuma liberdade é absoluta quando seus efeitos recaem sobre toda a sociedade. O Estado restringe inúmeras atividades potencialmente danosas justamente porque os custos sociais superam os benefícios privados, por isso o debate sobre as bets deve ser tratado sob essa mesma perspectiva.
Outro argumento recorrente é o da arrecadação de impostos e da geração de empregos, uma tentativa de inverter a lógica do problema, uma vez que também atividades nocivas podem arrecadar tributos. A verdadeira pergunta é outra: o benefício fiscal compensa o aumento do endividamento, da dependência, da desestruturação familiar e da perda de produtividade? Quando uma atividade econômica prospera à custa da destruição financeira de parte significativa de seus consumidores, é hora de reconhecer que ela produz mais prejuízos do que riqueza.
Se uma sociedade entende que algum tipo de jogo deve existir, as loterias oficiais já cumprem esse papel histórico, sob rígido controle estatal e com publicidade muito mais limitada. Não há qualquer necessidade social que justifique milhares de plataformas privadas estimulando apostas ininterruptamente por meio de campanhas publicitárias agressivas e algoritmos concebidos para manter o usuário permanentemente conectado.
Nesse cenário, merece especial reprovação o comportamento de artistas, atletas e influenciadores que emprestam sua credibilidade a esse mercado. Não se trata de anunciar um refrigerante, um automóvel ou uma marca de roupas, mas de usar prestígio e poder de influência para incentivar uma atividade cujo modelo de negócios depende da perda financeira recorrente de seus próprios seguidores. Ao aceitarem contratos milionários, tornam-se legitimadores e cúmplices de um mecanismo que transfere renda justamente daqueles que menos podem perdê-la.
Costuma-se dizer que o Estado não deve tratar adultos como criança, mas acredito que também não deva agir como um incentivador de cassino. Ao autorizar, regulamentar e arrecadar sobre um modelo de negócios que prospera quando a maioria perde, o poder público deixa de cumprir sua missão de proteger o interesse coletivo para tornar-se beneficiário de um problema social.
O Brasil não precisa de mais apostas e sim de mais poupança, mais investimento, mais produção e mais oportunidades reais de ascensão econômica. Já convivemos há décadas com as loterias oficiais, não havendo qualquer necessidade de abrir as portas para um sistema muito mais invasivo, permanente e destrutivo. Algumas atividades simplesmente produzem mais danos do que benefícios e as bets já demonstraram pertencer a essa categoria, portanto está na hora de reconhecer esse erro e corrigi-lo, proibindo-as o mais rapidamente possível.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

