Estado policial: quem mandou PRF invadir sindicato em Manaus?

"A prosseguir nesta escalada, se nada for feito em defesa do Estado de Direito, em breve guardas de esquina poderão começar a investigar 'movimentos subversivos' que atentam contra a 'segurança nacional'”, alerta o jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Divulgação/Sinteam)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia 

Reunidos no sindicato dos professores do Amazonas, representantes de vários movimentos sociais estavam organizando um ato de protesto contra Jair Bolsonaro durante a visita do presidnete  a Manaus nesta quinta-feira.

De repente, três agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), com armas longas, invadiram a sede do sindicato e questionaram os participantes sobre o protesto, querendo saber quem eram os líderes.

Mais grave ainda: segundo dois sindicalistas, os agentes disseram que agiam “por ordem do Exército”.

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A furo foi dado na manhã de quarta-feira pelo excelente repórter Fabiano Maisonavve , da Folha, e não teve a menor repercussão na mídia, como se algo banal.

O Comando Militar da Amazônia apressou-se em mandar nota ao jornal para dizer que “desconhece a realização da suposta reunião, bem como não reconhece qualquer ordem oriunda de suas unidades para tal”.

Se não foi o Exército, quem então deu a ordem para policiais rodoviários irem armados a uma reunião de sindicalistas com movimentos sociais?

Meia hora depois, os agentes rodoviários embarcaram numa viatura da PRF, mas só num estado policial desgovernado uma ação dessas pode acontecer, sem que apareçam os responsáveis, 24 horas depois da invasão.

“Na história do movimento sindical do Amazonas, em que um presidente visita o estado, é a primeira vez que agentes federais vêm para interromper uma reunião e tomar informações a respeito do que está acontecendo nela”, disse a presidente do sindicato, Ana Cristina Rodrigues, 53.

O ato foi organizado em defesa da Amazônia e da Zona Franca de Manaus e tem a participação de movimentos de sem-teto e pequenos agricultores, segundo a reportagem da Folha.

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Yann Evanovick, 29, coordenador da Frente Brasil Popular, que reúne entidades como CUT e MST, reclamou que os agentes rodoviários entraram sem mandado na sede do sindicato.

“Isso só foi visto nos momentos que antecederam a ditadura militar”, protestou Evanovick, que é filiado ao PCdoB.

O Ministério da Justiça, a quem a Polícia Rodoviária Federal é subordinada, não quis se manifestar e mandou o repórter pedir esclarecimentos à PGR, que também preferiu ficar em silêncio.

Ninguém assumiu a autoria do atentado contra a liberdade de reunião e manifestação.

Segundo a Folha, o Ministério Público Federal investigará o caso.

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A prosseguir nesta escalada, se nada for feito em defesa do Estado de Direito, em breve guardas de esquina poderão começar a investigar “movimentos subversivos” que atentam contra a “segurança nacional”.

O Comando Militar da Amazônia também deveria ter interesse em investigar o caso, já que o Exército foi envolvido, para saber quem são esses agentes rodoviários e por ordem de quem eles agiram.

Sabemos, os mais velhos, como essas coisas começam, e geralmente não acabam bem.

Da última vez, levou mais de 20 anos para o país reconquistar a democracia.

Vida que segue.

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