Estatutos da Associação Nacional dos Paranoicos (ANP)
(Aprovados em local mantido em sigilo e com detectores de microfone)
Artigo 1º – Da finalidade
A Associação Nacional dos Paranoicos (ANP) tem por objetivo unir, desconfiadamente, cidadãos que compartilham a certeza inabalável de que há algo errado no planeta. Buscamos o fortalecimento mútuo, embora desconfiemos do termo mútuo.
Artigo 2º – Da sede
A sede da ANP é itinerante e desconhecida até mesmo de seus membros. A última reunião foi no subsolo de um estacionamento abandonado, mas ninguém tem certeza. O endereço oficial é: em algum lugar entre o Google Maps e a imaginação coletiva.
Artigo 3º – Da filiação
Poderão filiar-se à ANP pessoas que:
a) troquem de senha a cada 3 horas;
b) tapem a câmera do notebook com fita adesiva (ou chiclete, em casos emergenciais);
c) respondam “quem te contou isso?” a perguntas inocentes como “tudo bem?”;
d) sintam arrepios ao ouvir a palavra cadastro.
Artigo 4º – Dos direitos dos associados
Todo membro tem direito a:
– desconfiar da mesa diretora, mesmo que seja ele próprio da mesa diretora;
– solicitar auditoria em qualquer decisão, inclusive a de pedir pizza;
– acusar o corretor automático de manipulação linguística;
– declarar, com convicção, que “essas coincidências são coincidência demais”.
Artigo 5º – Dos deveres
São deveres sagrados:
– olhar duas vezes para cada lado antes de atravessar a rua e três antes de confiar em alguém;
– nunca revelar o número exato de associados;
– suspeitar de elogios, especialmente se vierem acompanhados de um sorriso;
– sempre, sempre, verificar se os espelhos são falsos.
Artigo 6º – Das reuniões
As reuniões ocorrerão em data secreta, comunicada por código, pista ou intuição. A presença será confirmada por meio de uma senha de três palavras, das quais duas são trocadas de última hora. Todos devem chegar com dez minutos de diferença e sentar-se de costas para as janelas.
Artigo 7º – Da presidência
O presidente será eleito por votação anônima, desde que todos concordem que anonimato é relativo. O eleito será imediatamente colocado sob observação, pois, admitamos, querer ser presidente já é muito suspeito.
Artigo 8º – Das comunicações internas
Toda comunicação deverá ser feita em linguagem codificada. Expressões como “O gato saiu da caixa” ou “O micro-ondas piscou duas vezes” significam, respectivamente: “entregaram os relatórios” e “alguém está nos ouvindo”.
Artigo 9º – Das disposições finais
Qualquer semelhança entre estes estatutos e os de outras associações é fruto de espionagem.
A ANP reserva-se o direito de negar a própria existência, caso seja conveniente.
Derradeiras considerações:
Encerramos estes artigos da ANP lembrando que, se você chegou até aqui sem ser interrompido por um ruído estranho, parabéns. Mas tem certeza de que está sozinho?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
