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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Estatutos da Associação Nacional dos Paranoicos (ANP)

(Aprovados em local mantido em sigilo e com detectores de microfone)

Representação de reunião da Associação Nacional dos Paranoicos (Foto: Gerada por IA/Freepik)

Artigo 1º – Da finalidade

A Associação Nacional dos Paranoicos (ANP) tem por objetivo unir, desconfiadamente, cidadãos que compartilham a certeza inabalável de que há algo errado no planeta. Buscamos o fortalecimento mútuo, embora desconfiemos do termo mútuo.

Artigo 2º – Da sede

A sede da ANP é itinerante e desconhecida até mesmo de seus membros. A última reunião foi no subsolo de um estacionamento abandonado, mas ninguém tem certeza. O endereço oficial é: em algum lugar entre o Google Maps e a imaginação coletiva.

Artigo 3º – Da filiação

Poderão filiar-se à ANP pessoas que:

a) troquem de senha a cada 3 horas;
b) tapem a câmera do notebook com fita adesiva (ou chiclete, em casos emergenciais);
c) respondam “quem te contou isso?” a perguntas inocentes como “tudo bem?”;
d) sintam arrepios ao ouvir a palavra cadastro.

Artigo 4º – Dos direitos dos associados

Todo membro tem direito a:

– desconfiar da mesa diretora, mesmo que seja ele próprio da mesa diretora;
– solicitar auditoria em qualquer decisão, inclusive a de pedir pizza;
– acusar o corretor automático de manipulação linguística;
– declarar, com convicção, que “essas coincidências são coincidência demais”.

Artigo 5º – Dos deveres

São deveres sagrados:

– olhar duas vezes para cada lado antes de atravessar a rua e três antes de confiar em alguém;
– nunca revelar o número exato de associados;
– suspeitar de elogios, especialmente se vierem acompanhados de um sorriso;
– sempre, sempre, verificar se os espelhos são falsos.

Artigo 6º – Das reuniões

As reuniões ocorrerão em data secreta, comunicada por código, pista ou intuição. A presença será confirmada por meio de uma senha de três palavras, das quais duas são trocadas de última hora. Todos devem chegar com dez minutos de diferença e sentar-se de costas para as janelas.

Artigo 7º – Da presidência

O presidente será eleito por votação anônima, desde que todos concordem que anonimato é relativo. O eleito será imediatamente colocado sob observação, pois, admitamos, querer ser presidente já é muito suspeito.

Artigo 8º – Das comunicações internas

Toda comunicação deverá ser feita em linguagem codificada. Expressões como “O gato saiu da caixa” ou “O micro-ondas piscou duas vezes” significam, respectivamente: “entregaram os relatórios” e “alguém está nos ouvindo”.

Artigo 9º – Das disposições finais

Qualquer semelhança entre estes estatutos e os de outras associações é fruto de espionagem.

A ANP reserva-se o direito de negar a própria existência, caso seja conveniente.

Derradeiras considerações:

Encerramos estes artigos da ANP lembrando que, se você chegou até aqui sem ser interrompido por um ruído estranho, parabéns. Mas tem certeza de que está sozinho?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.