Ética do jornalista é a mesma que a do marceneiro
Em tempos de manipulação e vazamentos seletivos, lembrar Cláudio Abramo é reafirmar que não há ética especial para jornalistas: vale a mesma de qualquer cidadão
Quem pode ensinar ética para magistrados e jornalistas, profissionais sempre julgados e prejulgados por suas condutas? Este articulista acredita que ética se ensina pelo exemplo e que códigos de conduta não conferem a ninguém a tão propalada virtude. Claro que juízes de Direito e profissionais da imprensa têm lá seus rigores específicos na prática laboral, mas não existem duas éticas.
Em tempos de vazamentos seletivos, cultivo de fontes anônimas e assassinatos de reputação, é oportuno lembrar Cláudio Abramo, para muitos o maior jornalista da História do Brasil — na mesma dimensão, só Janio de Freitas, este ainda ativo e brilhante. Abramo morreu em 1988. Por iniciativa de dois colegas de turma deste colunista no curso de Jornalismo da PUC-SP, Wilson Ferreira Júnior e Fábio Cypriano, sob a batuta de Mino Carta, editou-se o livro “A Regra do Jogo”, saboroso compêndio de reflexões e textos de Abramo.
Tanto quanto algumas excelências supremas, um bom número de jornalistas não possui o menor apreço pela ética, como provam a cobertura do Mensalão, da Lava Jato e, agora, do caso Master. Esses nossos colegas jamais trabalhariam com Cláudio Abramo. O mestre era intransigente e costumava reduzir a pó os sem ética ou caráter. Sua ideia de ética jornalística surpreende tanto pela simplicidade quanto pela precisão. Este colunista ouviu Abramo dizer que “a ética do jornalista é a ética do marceneiro” — sim, do marceneiro, aqui significando qualquer outra pessoa, qualquer outro profissional, de qualquer área ou formação.
Os conceitos éticos defendidos por Abramo estão bem explicados em “A Regra do Jogo”. Se aplicados nas redações dos jornalões e das TVs, ganharia a sociedade. O jornalista deve obedecer à mesma régua moral que qualquer cidadão, e basta. Ou seja, não há um código especial que autorize distorções, manipulações ou “licenças” em nome da profissão. O compromisso central é com a verdade factual, com a honestidade intelectual e com o interesse público.
Alguns pontos centrais do pensamento de Abramo:
- Objetividade como método, não como neutralidade ideológica. Ele criticava a falsa neutralidade. O jornalista pode ter opinião — o que não pode é fraudar fatos.
- Separação entre fato e opinião. A informação deve ser apresentada com clareza e distinção do comentário.
- Independência em relação ao poder. A função do jornalismo é fiscalizar o poder — político, econômico ou institucional — e não servi-lo.
- Crítica à hipocrisia corporativa. Abramo ironizava o discurso moralista da imprensa quando não vinha acompanhado de prática coerente.
Num discurso que se encaixaria à perfeição nos dias de hoje, Cláudio Abramo destacava que a imprensa brasileira muitas vezes defende interesses próprios sob o rótulo de interesse público, o que exigia vigilância crítica permanente. A partir dessa afirmação, Abramo desenvolveu o argumento de que não existe uma moral profissional autônoma que permita ao jornalista agir segundo critérios próprios e separados da ética comum.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
