Ética nas relações internacionais e economia política global

A contribuição da economia política global é a de uma ferramenta capaz de nos permitir pensar este objeto impossível, esta dimensão de falta-a-ser própria do estar no jogo do mundo

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O professor Stephen Gill, da Universidade de York, em Toronto, no Canadá, vem desde há muito tempo desenvolvendo uma crítica da economia política global, a partir da construção de uma abordagem marcada pelo uso de categorias, como a de hegemonia, formulada por Antonio Gramsci. O tema da civilização mercantil capitalista, da formação de elos transnacionais de classe, da mercantilização, da financeirização, do novo constitucionalismo e da sua lógica disciplinar, vem enriquecendo o campo de estudo das relações internacionais.

Podemos considerar sua apresentação, no Institute for Advanced Studies Bristol, como sendo uma verdadeira aula inaugural para os estudos de Relações Internacionais neste ano de pandemia global. VIDE Stephen Gill - Global Political Economy in the 21st Century: Towards a Critical Research Agenda, proferida na Universidade de Bristol na GB.em maio de 2016.  

Nesta apresentação ele amplia o alcance da noção gramsciana de crise orgânica, para incluir as dimensões ecológica e biológica, envolvendo além da Economia Política Internacional, da Ciência Política Internacional e da Sociologia Política Internacional os problemas e os impactos da acão humana na relação com a biosfera do local ao global. 

Resgatando e diversificando a noção de Gramsci, sobre a direção e a liderança intelectual e moral, pelo "intelectual coletivo", o moderno príncipe (PARTIDO, APARELHOS, BLOCOS.), para a pensar a resistência e as alternativas ao capitalismo global. 

Podemos considerar a obra seminal de Robert Cox, os trabalhos de Giovanni Arrighi (na pegada de Immanuel Wallerstein) e a obra de S. Gill como compondo um esforço em teoria das relações internacionais, análogo ao de David Harvey com seu materialismo historico-geográfico. Em S.Gill a acumulação por despossessão se articula com uma crítica da globalização capitalista que situa o poder do regime constitucional, com seu padrão constitucional de regime disciplinar, do neoliberalismo e das movas formas de propriedade intelectual e regimes jurídicos que expandem as relações de produção capitalistas. 

Uma reflexão sobre a contemporaneidade e a ética nas relações internacionais exige um forte esforço de articulação de teoria e pesquisa, ao mesmo tempo, considerando as questões da moeda e da guerra de que falam Maurizio Lazzarato e Éric Alliez. O que nos ajuda a compor o vasto painel sobre o contexto contemporâneo ao lado do repensar com H. Arendt e T..Adorno a condição humana, a banalidade do mal e a barbárie, situando também a crueldade, segundo J. Derrida e E.Balibar.  

Em RI este esforço se acentua no giro diaspórico.  O giro paradigmático desde o Sul e desde os subalternos materializando a luta por dignidade, através da criação de direitos e da radicalização democrática, com o uso das obras de Boaventura de Sousa Santos, Ernesto Laclau, Chantal Mouffe e J. Herrera Flores. A dificuldade se amplia por força da necessidade  de incluirmos o pensamento (de)colonial, o feminismo e as contribuições de Stuart Hall, Judith Butler, Achille Mbembe, Angela Davis, Anibal Quijano, Michel Foucault,Félix Guattari, Edward Said, Pierre Bourdieu, Henri Lefebvre, Milton Santos, Saskia Sassen, Silvia Frederici, Alessandro Baratta, num amplo complexo de ideias, para  poderemos elaborar uma reflexão robusta  tendo em conta o giro espacial nas ciências humanas é sócias de modo a podemos pensar  o atravessamento e interação  entre "o dentro e o fora" no internacional, o mundial e o global com bases éticas realistas. Considerando com S. Mezzadra e P. Cuttitta a fronteira, como método, assim como, centralidade da periferia destacada nas cartografias da ação com a ótica dos sujeitos corporificados nos territórios disputado quanto ao seu uso. 

Pensar uma sociologia do presente, como propunha Ana Clara Torres Ribeiro, com alcance internacional para lidar com o impacto das guerras, da dívida e do giro cibernético e biopolítico. Levar em conta os processos que atavessam o planeta com a velocidade viral e virtual, com as marcas da "modernidade líquida" de Z.Bauman, da complexidade de E. Morin, da subjetividade e da vontade coletiva como em Carlos Nelson Coutinho, tudo isso, ante a necropolítica de que fala A.Mbembe. 

Como pensar a sociedade de risco de U.Bech sem levar em conta as dimensões do poder político, da sua projeção sobre as relações de poder, considerando a categoria central de soberania, como nas leituras clássicas de E.H.Carr, com a dominação em M.Weber, com o brilho da variação das formas destacada por R.B.J Walker? Como podemos avançar no desvendar os problemas envolvidos na virada brutal que marca a crise e transição no sistema mundo, com as marcas do biopoder, do risco sistêmico, com a sua face de fascismo social, com o problema da vida nua? Como pensar o Estado de Exceção, a emergência, as pandemias, as crises financeiras, o endividamento, a precarização social, o encarceramento em massa, o desemprego estrutural, o racismo, as lutas étnicas e os múltiplos regimes de guerra, do terror, do medo, em meio a uma turbulência combinada e permanente derivada da crise (orgânica) que enlaça os diferentes planos da vida social? Como pensar o quadro real de anarquia ou caos sistêmico que marcam um padrão hegemônico neoliberal, do colapso da nova "grande transformação" (K.Polanyi)? 

Estamos ante o fenômeno da "fúria" (Joel Birman), que se manifesta na psicologia coletiva, agravado pela administração do medo, pela fabricação do "fake", dos negacionismos e da razão cínica. Vivemos o momento em que os falsos mitos e a horda se lançam em cruzadas suicidas, como expressão coletiva do narcisismo das pequenas causas, que retroalimenta os discursos e a disputa sobre o "trauma e a catástrofe, como pulsão de crueldade. Nas relações de poder em disputa nas diferentes formações sociais o debate cultural, o movimento das máquinas discursivas está recoberto pelas metáforas virais, virtuais. Vivemos quadros de ondas de pânico diante das ameaças, até agora projetadas sobre outro, o inimigo, como expressão de autoengano. 

O quadro "morboso" (Gramsci), ou seja, de morbidade e crise da grande política se manifesta como crise e declínio do consenso, onde fica cada vez mais evidente a fragilidade das instituições multilaterais que nasceram no final da Segunda Grande Guerra Imperialista e da descolonização. Cada vez é mais acentuada a vacuidade do sistema ONU, que vinha jogando um papel na disputa da hegemonia do ciclo da "paz americana" .  Vivemos a enorme fragilidade de um mundo marcado pelo poder devorador das grandes corporações e das guerras difusas e sobrepostas. Apesar de hoje, com a pandemia da Covid-19 podermos ver uma função positiva da Organizaçāo Mundial da Saúde, apresentando um horizonte de respostas comuns necessárias, uma ação bioética defensiva, o quadro geopolítico vem se agravando, assistimos uma continuidade forçada da lógica da competição dos EUA com a China, ao lado de novas guerras coloniais e de conflitos envolvendo forças não-convencionais. No cenário global o conflito cibernético, o caos financeiro, alimentar e mental atinge de maneira violenta o patrimônio comum da humanidade em especial os recursos hídricos.  

A contribuição da economia política global é a de uma ferramenta capaz de nos permitir pensar este objeto impossível, esta dimensão de falta-a-ser própria do estar no jogo do mundo. Pensar o internacional como crise orgânica da civilização mundial capitalista, da sua estrutura de longa duração como sistema mundo capitalista colonial (I.Wallerstein e A.Quijano). Pensar os estudos da área das Relações Internacionais sob a ótica de uma leitura que leva em conta as forças transnacionais e o quadro do regime disciplinar que se esgota. A leitura de S.Gill desenha o quadro da crise da ordem mundial, da crise orgânica da civilização capitalista, como uma problemática central do campo das relações internacionais. No estudo das relações internacionais pensar a partir da crítica da economia política global é fundamental para quem trabalha com a questão da transformação, da crise, da mudança na "ordem internacional" (R.Cox). 

Cabe-nos politicamente definir desde onde, com que sujeitos ou como vamos nos posicionar neste momento claramente de declínio de uma certa ordem? Do ponto de vista vocacional e da pesquisa quais serão as escolhas dos quadros intelectuais, dos agentes, professores, pesquisadores e estudantes da área? Como vamos nos definir, individualmente e como grupo, em nosso posicionamento quanto a superação dos modos de governar próprios da globalização neoliberal? Como fazer frente ao modo de reprodução do sistema de desigualdades, cujos sintomas de esgotamento aparecem como desmedida, como uma vasta gama de ameaças que exigem saídas sociais, públicas, cooperativas e de solidariedade em defesa do patrimônio comum, do que ainda podemos chamar de humanidade.

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